Semana Literária de Ourinhos (Litou) tem início com “historiador” considerado rudimentar e desonesto por especialistas

EDITORIAL

A direita brasileira já teve os seus luminares. Oliveira Viana, apesar de seu notório racismo, construiu uma interpretação única do Brasil e apontou limites à democracia que ainda hoje persistem. Gilberto Freyre construiu uma vibrante interpretação do Brasil colocando aqueles que ele definiu como “mulatos” no centro da construção de nossa identidade. Mais recentemente, Boris Fausto, emprestou sua inteligência e sofisticação a construção de uma vasta obra, na qual se destaca sua análise sobre a Revolução de 1930, ao mesmo tempo sempre teve uma militância política ativa no PSDB.

Infelizmente, esses tempos ficaram para trás. Em tempos de internet, a direita tem preferido a produção de memes de Facebook à análises consistentes e às nuances dos bons trabalhos históricos.

Não é por acaso que a 1ª Semana Literária de Ourinhos (Litou) será aberta hoje (11/09) pelo jornalista Leandro Narloch, autor de “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”, considerado por muitos como um panfleto histográfico. A bem da verdade, diga-se que o evento ainda terá nomes como o crítico teatral ourinhense Jefferson Del Rios, um dos mais importantes do Brasil, e valoriza artistas da cidade.

Idelber Avelar, professor de literatura na Universidade Tulane (Estados Unidos), critica a forma caricatural que Narloch analisa eventos históricos: “Da tese de que a era medieval teria sido de trevas à de que o socialismo real fora desprovido de atrocidades, as narrativas contra as quais Narloch se insurge são caricaturas, bichos-papões. ”

Idelber ainda critica a lógica rudimentar e o simplismo de Narloch: “Nessa insurgência opera uma lógica rudimentar, que isola dois elementos no tempo ou no espaço e pressupõe a conexão causal que quer demonstrar, ignorando toda a contraevidência.

Ao listar bizarrices dos regimes comunistas, o livro encontra uma de suas boas vocações, a de ser libelo satírico. Quando tenta argumentar, é de um simplismo atroz”. Veja a critica de idelber Avelar

Leandro Karnal, professor de história da Unicamp, é ainda mais duro com Narloch ao considerar sua obra como “desonesta”, apontando desatinos e a forma como tentou tachar Salvador Allende como racista, ao colocar como suas, palavras de racistas aos quais refutava. Veja o que diz Leandro Karnal.

É triste que dinheiro público seja investido em evento de tão baixa qualidade. Mas àqueles aventureiros dotados de humor sórdido, a palestra será às 21h00 no Teatro Municipal.