A batalha do machismo é contra as mulheres!

Por Jota Carneiro

O texto intitulado “O curioso caso de João Dória” terá de esperar um tempo para ser concluído. Perfeccionista que sou, estava fazendo o levantamento minucioso das realizações e perspectivas envolvendo o nome do referido prefeito. Mas isso terá de esperar… Escrevo agora no calor da emoção, no calor da indignação, frente à declaração do deputado Rodrigo Maia, de que a igualdade do tempo para se aposentar faz parte da pauta feminina. Quase me faltam expressões que não sejam xingamentos antes de filtrar para redigir. Mas antes é preciso digerir o indigesto… Gostaria de convidar os repercussores desta infâmia a uma breve reflexão: muitíssimo antes de irem para o buraco que quase naturalmente lhes pertence, possivelmente sem ao menos se aposentarem antes, de qual buraco vieram? Já que um odioso machista já teve a coragem de dizer num debate político em rede televisiva aberta que o aparelho excretor não reproduz, por um acaso algum de vocês foi parido pelo ânus de seu pai? Algum de vocês já mamou na teta do pai, chegando as vezes até rachar o bico do seio, durante um, dois ou até três anos? A resposta, naturalmente, é não.
E assim é porque a natureza é desigual com os gêneros. Mulheres carregam com seus corpos toda a gestação e o parto dos filhos, desde os primórdios da humanidade esse fado e essa dor lhes pertence. Mulheres têm ciclos mensais de mal estar, dores e sangramento, coisa que nenhuma pessoa nascida num corpo de homem conseguirá entender na sua plenitude.

Assim, logo você dá um salto com ar de vitória e conclui: então a igualdade de gênero é babela! Mas saiba que balela é esse seu pensamento fundamentado em sofismas. A luta feminina veio para provar a capacidade das mulheres perante às situações cotidianas que geralmente são atribuídas aos homens  e mais que isso, que a divisão de tarefas domésticas entre a mulher e o seu companheiro, não é um favor ou gentileza feita pelo homem, mas sim um obrigação que deve ser dividida igualmente, já que a mulher muitas vezes tem uma jornada de trabalho igual ou até maior e mais estressante que o homem, visto que hoje muitas mulheres ocupam altos cargos, de enorme responsabilidade e dedicação, tanto na iniciativa privada como na Administração Pública e quando chegam em casa, no pouco tempo que lhes resta, ainda tem que dar conta das tarefas da casa e dos filhos. A forte atuação das mulheres no mercado de trabalho hoje nos mais diversos empregos ou funções, veio para provar que não existe profissão que um homem exerça que não possa ser exercida por uma mulher. Veio para provar que a liberdade em todos os âmbitos não pode ser exclusividade dos homens, uma vez que todos os gêneros pertencem igualmente ao cosmos, o qual buscamos decifrar a cada dia. Veio para provar que as mulheres podem sim ter desejos sexuais, tesão, vontade de dar e de comer, para quem quiser e quando quiser, obviamente submetidas a normas sociais, mas as mesmas que os homens. Veio para provar que as mulheres não merecem ser violentadas por seus maridos, pois não são propriedades dos mesmos. Veio para provar que as mulheres não podem ser estupradas, que a integridade de seus corpos está acima de qualquer pretensão, arrogância ou desejo de cunho machista.

É difícil assim para vocês entenderem a diferença? As mulheres têm provado que mesmo com o ônus imposto pela natureza, elas possuem o poder de enfrentar a situação e partirem para uma sociedade igualitária em gênero. No entanto, sabemos que a realidade ainda é muito aquém de um patamar realmente justo. E o grande responsável por essa disparidade é justamente o pensamento machista, que não é capaz de aceitar que um trabalho de excelente qualidade realizado por uma mulher possa ter o mesmo valor que igual trabalho realizado por um homem. Valor atribuído não somente pelo preço, mas principalmente pelo crédito.

É muita hipocrisia se referir à sociedade como se já existisse igualdade de gênero, uma vez que se faz parte da contrapartida, uma vez que se cospe o ódio machista todos os dias. Se os machistas fossem tão seguros de si como demonstram nesse exercício constante de auto – afirmação, não precisariam travar essa batalha incessante contra as mulheres. A pergunta final é: a quem cabe de fato o atributo da covardia?

Jota Carneiro é Professor de História e Escritor de contos e poesias