Carta a um suicida

Por Daiane Almeida

Quero que você aprenda, que se está aqui nesta presenta vida, é porque obviamente não deveria estar morto.
Parece ridículo pensar desta forma, já que as coisas a volta não são animadoras, nem as pessoas, nem as notícias, nem mesmo os dias que nascem, passam e terminam diante de seus olhos obscuros pelo seu interior.
Mas quero que você enxergue sua cura, como parte de si próprio, e não do exterior, não busque sua satisfação e realização nas pessoas a sua volta.
Sabe por quê? Porque ela já existe, porém não é utilizada por seu consciente, que já programado pela rotina da vida comum, onde se deve manter-se sóbrio, de aparência feliz, com bom emprego, um belo carro, enfim, que progrida de forma que os exteriores vejam, para que seja consolidada a sua “felicidade e razão”.
E vemos que viver assim é querer morrer de fato, pois quando percebemos que nosso interior está vazio de alegria e paz, já que gastamos energia e tempo mostrando aos outros que estamos “bem” e “normais” e não temos mais força para buscarmos em nossa psiquê a nossa própria cura.
Sei que falo da cura como algo interior e possível, dificilmente visualizado pelos seus olhos embaciados pela falta de desejo e estímulo, mas amigo, digo e reafirmo, a cura para o desencanto da vida, está dentro de suas memórias, lembranças, aprendizados e sensações que já tivera, em momentos bons, projetos concluídos, elogios recebidos.
Você agora, germinou essa planta daninha em sua mente, e você, e somente você, é extremamente capaz de arrancar até a sua raiz esse mal, que não te deixa ver que a força interior é algo magnífico.
E quando acreditamos na cura, ela por si só, começa a florescer o jardim secreto de nossos pensamentos fazendo emergir a vida que quer simplesmente viver para si, um dia de cada vez, com suas tremendas emoções que infundadas antes como triviais, agora passam a ser o motor de sua existência.
A flor que desabrocha, a borboleta que passa por seu caminho, o bom dia recíproco do desconhecido, o gargalhar de uma criança e o correr alegre de um cão atrás de uma bolinha.
Amigo, deve se abrir definitivamente os olhos, pois tudo não para de acontecer, nós é que deixamos de prestar a devida atenção.

*Daiane Almeida é professora de Filosofia e poeta

*Do livro O Antídoto se Retira do Veneno de Daiane Almeida. Disponível na Banca Central da Praça Mello Peixoto em Ourinhos-SP