ACIDENTE PAVOROSO

O ano de 2017 começou sob o signo da violência no Brasil. Logo no raiar do novo ano ocorreu um massacre de 56 presos e fuga de 184 numa penitenciária da capital do Amazonas, Manaus.

Segundo foi divulgado tratou-se de ação orquestrada pela facção criminosa Família do Norte – FDN, aliada do carioca Comando Vermelho – CV, contra o Primeiro Comando da Capital – PCC, de São Paulo, em razão de disputa pelo controle do tráfico naquela região.

Autoridades de todos os escalões começaram então a emitir opiniões sobre o ocorrido, sempre nos deixando a impressão de que cada um queria “limpar a própria barra” e atribuir a culpa a outros.

Houve quem dissesse que a culpa pelo ocorrido seria da empresa terceirizada que cuida da segurança dos presídios naquele estado. Representantes da empresa, por sua vez, disseram que vinham alertando as autoridades do estado sobre a possibilidade de que ocorressem rebeliões nos presídios, especialmente nos dias finais de 2016. Divulgaram inclusive documentos em que apontavam falhas graves de segurança ocorridas naquele período.

O governador do Amazonas, José Melo, talvez ainda sob efeitos de libações dos festejos de fim de ano, veio a público para cândidamente declarar que entre os 56 mortos no massacre “não havia nenhum santo”. Eram assassinos, traficantes, estupradores, etc. Eu não ouvi uma palavra sequer do cândido governador sobre as condições desumanas em que estão os presídios amazonenses, como de resto em todas as cadeias do país, exceto, talvez, aquele onde se encontram detidos os políticos envolcidos nos escândalos da Lavajato.

Outra figura de proa a dar declarações e mais declarações sobre o ocorrido foi o luzidio Ministro da Justiça, Alexandre Moraes, que logo de cara colocou em dúvida a afirmação de que tratava de guerra entre facções, pois segundo ele “mais da metade dos mortos não tinha ligação com nenhuma facção.

A única autoridade do país que reservava a si o direito de não comentar nada sobre o assunto era o Presidente Temer, cujo incômodo silêncio causou muitas reações. Dava-nos a impressão o Sr. Temer, que estava alheio a tudo o que de fato acontecia no país.

Sem conseguir permanecer em seu silêncio, nosso presidente finalmente se manifestou a respeito do assunto. Disse que queria solidarizar-se “com as famílias que tiveram seus presos vitimados naquele acidente pavoroso que ocorreu no presídio de Manaus”.

Como assim, acidente? Aqueles que antes reagiram ao silêncio presidencial, agora reagiam ao teor da fala de Temer, tanto que, poucas horas após haver proferido tamanho absurdo, o presidente tuítou vários significados para a palavra acidente, como, por exemplo, tragédia, desastre, desgraça, fatalidade e outros de mesmo jaez. De nada adiantou, o estrago estava feito e agora o Brasil aguarda que novamente o presidente Temer se manifeste, desta vez sobre o massacre ocorrido em Roraima, em que 33 presos foram chacinados na madrugada do dia 06/01/2017.

Enquanto isso, resta a nós brasileiros aproveitar o ensejo que nos deu o presidente da República e nos utilizarmos dos sinistros significados tuítados pelo mandatário maior para dizermos que o atual governo brasileiro é um acidente pavoroso.

 

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Durval de Lara Fernandes é Tecnólogo em Gestão Pública, MBA em Gestão de Recursos Humanos e Pós-graduando em Direito do Trabalho