Brasil na Folia

Não se pode negar que o Brasil é realmente o país do carnaval e que conforme reza a lenda o ano só se inicia no país após os festejos de Momo.

Logo nos primeiros dias de janeiro, por exemplo, o Prefeito de São Paulo, João Dória, fantasiou-se de gari e desfilou na avenida levando no pé o enredo “Cidade Linda”, que poderia ser rebatizado para “Cidade Cinza”, já que o tão zeloso alcaide resolveu abrir guerra contra as pichações na capital do estado, mas parece que é desinformado sobre o assunto, e cobriu de tinta cinza vários grafites, especialmente os que embelezavam a Avenida 23 de Maio. Ao atravessar o samba de forma tão desastrosa o prefeito angariou para si a antipatia do juri popular e já teve sua primeira nota baixa.

João Dória quer rivalizar com Donald Trump no quesito turronice e talvez só não leve nota máxima, porque São Paulo é um pouco menor do que os Estados Unidos.

Os comandantes do crime organizado brasileiro também deram o ar de sua graça no início do ano, ameaçando estragar o carnaval de quem queira festejar em paz. Os episódios de violência nos presídios do norte trouxeram à baila personagens como o Governador do Amazonas que declarou para a imprensa que dentre os mortos nos presídios não havia nenhum santo.

O então Ministro da Justiça correu ao norte para lá permanecer com cara de quem não está entendendo sequer uma palavra do samba enredo e assim como chegou, saiu. Não disse coisa com coisa e não resolveu nada. Chegou a afirmar que mais da metade dos mortos não tinha relação com nenhuma agremiação carnavalesca.

O ex Vice-Presidente Michel Temer, por sua vez, imaginando que algum carro alegórico das escolas em disputa pelo poder nos presídios havia quebrado, classificou o episódio como “acidente pavoroso”. Em sua fantasia de presidente da república, na qual é bom lembrar que ele não cabe direito ou por direito, Temer usou mais de 30 lindos adereços, que são suas citações no enredo da lavajato.

O Deputado ourinhense Capitão Augusto, de extrema-direita, porém fantasiado de democrata, alinhou-se à ala denominada bancada da bala e soltou a voz para cantar o enredo “bandido bom é bandido morto”.

O mesmo deputado já havia anteriormente dado mostras de não haver entendido o clamor popular em favor do “Bloco da Lava-jato” e votou a favor do “Operação Abafa”, urdido durante a madrugada no barracão da escola onde desfila.

Infelizmente nosso desfile perdeu um membro da comissão julgadora com a morte do Ministro Teori Zavaski, mas Michel Temer aproveitou a ocasião, que lhe veio bem a calhar, diga-se de passagem, para indicar para aquela comissão alguém de sua absoluta confiança.

Chegou a ser emocionante ver Alexandre Moraes, o candidato a julgador de enredo, ladeado por alguns senadores fantasiados de honestos, sendo sabatinado na ala denominada CCJ. A esperança de Temer e seus aliados, é que o novo membro da comissão julgue sempre de olho nos interesses daquela agremiação.

Ao povo brasileiro, assolado pela crise, só resta como opção fantasiar-se com um singelo nariz de palhaço.

Durval de Lara Fernandes é Tecnólogo em Gestão Pública, MBA em Gestão de Recursos Humanos e Pós-graduando em Direito do Trabalho.