Falta de senso de terror

Têm sido recorrentes as piadas sobre a reforma da previdência,  a PEC 55, a reforma do Ensino Médio e a crise econômica de modo geral. Humor faz bem e é  sempre bem vindo,  inclusive quando podemos rir da própria desgraça,  afinal,  é  melhor rir do que chorar. Será?

Nossas mentes são programadas para resolver problemas,  dos mais simples aos mais complexos. Mas como não temos respostas racionais para tudo, muitas vezes nos guiamos por crenças religiosas ou intuição. Direito de cada um ter a sua própria fé ou a ausência da mesma (assunto que poderia se estender por dias), mas o que preocupa no caso do excesso do humor em relação ao rumo apocalíptico tomado pelo nosso país é que as piadas surgem como respostas,  ou seja, trazem conclusões fatídicas  e engraçadas  que por si só se bastam.

Até  pouco tempo atrás,  éramos o país do ódio, irracionalmente queríamos derrubar o governo.  Agora, somos o país da aceitação irracional do terror cotidiano. Para isso,  basta travestir o terror de humor que está tudo certo.

Enquanto rimos demasiadamente da nossa própria desgraça,  medidas desumanas avançam no congresso e no senado.  Os maiores prejudicados, sabemos, serão a classe trabalhadora e os mais pobres, uma vez que os recursos materiais e o acesso aos serviços públicos minimamente de qualidade minguarão mais e mais, tornando-se extremamente escassos. Além disso,  as reformas se complementam,  uma vez que a Educação intelectualizada e crítica  (apesar das dificuldades e mazelas,  o caminho estava aberto para isso) está sendo substituída pela educação  mecanizada e despolitizada, e que os trabalhadores passarão vários anos a mais sem poderem gozar da dignidade mínima do descanso remunerado e de algum reconhecimento pelos serviços prestados à sociedade. Estamos avançando ao retrocesso, e isso é triste.

A escravidão está voltando. E nós,  escravos,  rindo.

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Jota Carneiro é professor de História