O estranho silêncio dos inocentes

Por Mário Ferreira

A lista das delações dos executivos da Odebrecht já está em poder do Ministro Edson Fachin, o relator dos processos da famosa operação lava jato no Supremo Tribunal Federal. Segundo informações publicadas pelo senador Roberto Requião, do Paraná, o número de parlamentares denunciados pelo Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, é estarrecedor.  Até as samambaias sabem que o Ministério Público Federal não é um grande exemplo de eficácia e rapidez. No entanto, é forçoso reconhecer que, comparado ao Supremo Tribunal Federal, seria um velocista de ponta.
Diante da esperada lerdeza do Judiciário e do comportamento sempre parcial e descompromissado com a verdade dos fatos do oligopólio da grande mídia, liderado pela Rede Globo, é necessário e urgente que o Ministro Edson Fachin torne o processo totalmente público, especialmente para impedir a manipulação dos vazamentos seletivos, o que tem sido regra na grande imprensa.
Comenta-se em Brasília que, além da maioria dos membros do Congresso Nacional, estão profundamente implicados nas acusações quase todos os Ministros do atual governo, vários Governadores e ex-Governadores, Deputados Estaduais e até membros do Judiciário. Assolado pela pior crise da história do país, remetido ao desemprego, explorado pela maior taxa de juros do mundo, o povo brasileiro tem o direito de, pelo menos, saber quem são os verdadeiros ladrões do dinheiro público.
Está nas mãos do Supremo Tribunal Federal, especialmente do Ministro Edson Fachin, jogar uma nesga de luz sobre a escuridão lamacenta em que se transformou o exercício da atividade política e do poder no Brasil, cujo povo parece entorpecido e envergonhado.

Portanto, a transparência plena é um imperativo para garantir aos acusados o direito consagrado de defesa, impedindo que uma nova negociata entre setores do poder, do Judiciário e da grande mídia selecione quem será condenado sem provas, ou acobertado diante da opinião pública. Fará melhor ainda o Judiciário, caso garanta que os julgamentos sejam rápidos e justos, punindo severamente os culpados e recuperando a reputação dos políticos honestos (eles existem, embora sejam uma minoria, certamente), o que permitirá restaurar a nossa democracia. Feito esse saneamento mínimo, novas eleições gerais possibilitariam um amplo debate para que, democraticamente, seja possível à nação definir suas prioridades referentes à organização da sociedade e da economia, com vistas a superar a atual crise e retomar o crescimento econômico, possibilitando assim a redução de nossa inaceitável desigualdade social.

Mário Ferreira é farmacêutico bioquímico, diretor do Laboratório Santa Paula