O que você faz da meia noite às seis?

“8 horas de trabalho, 8 horas de lazer e 8 horas de descanso!”. Este lema surgiu no seio das lutas sindicais oriundas dos avanços predatórios da Revolução Industrial,  em 1919, na França. Quase cem anos depois, temos um cenário mundial de jornadas de trabalho semelhantes, com algumas diferenças pontuais. Há civilizações indígenas brasileiras que seguem o tempo da natureza a rigor: dorme-se quando se está com sono, banha-se no rio quando se está com calor ou sujo e trabalha-se quando se tem necessidade, – e sobrevivem – ao passo que alguns países europeus, como a Suécia ou a França, estudam a redução – ou já  tiveram experiências – da jornada de trabalho. De uma média de 8 horas diárias , parte-se para uma média aproximada de 6 horas. As experiências já aplicadas demonstram que houve aumento da satisfação e da produtividade dos trabalhadores, tal como da qualidade dos serviços.
Povos historicamente imperialistas aprendendo sobre a preciosidade do tempo com povos em muitos casos isolados do restante do mundo pode nos reacender alguma esperança na humanidade. Infelizmente,  algo remoto demais para se comemorar – lembrando ainda que no Brasil cogita-se aumentar a jornada na prática, além do acréscimo absurdo de anos sem aposentadoria.

Entre os malefícios e benefícios do capitalismo e dos avanços tecnológicos, – a custo de muito trabalho humano – hoje, na era digital, o ritmo acelerado  do tempo poderia ser utilizado a nosso favor. Pela lógica,  quanto mais dinâmicas as tecnologias de informação, comunicação e serviços,  mais tempo disponível teríamos para cuidar dos nossos interesses pessoais  e menos tempo passaríamos vendendo a nossa mão de obra. No entanto,  algo fundamental  não mudou: patrões continuam sendo conquistadores na busca alucinada pelo lucro e funcionários continuam sendo manipulados. E agora com um agravante: além das necessidades básicas, o crescimento significativo do consumismo entre as classes menos abastadas faz com que haja a dupla necessidade de aquisição de rendas. Dessa forma, os mais pobres continuam numa corrida sem chegada. É como se tivesse um pedaço de carne na ponta de uma vareta guiando um animal faminto.

A meritocracia existe, ao mesmo tempo em que é falsa em seu conceito nu. Pois o que existem realmente são  possibilidades, muitas vezes remotas. Igualdade de oportunidades para todos é uma lenda.

Hoje no Brasil,  uma pessoa de baixa renda que cursa o Ensino Superior geralmente precisa trabalhar para poder se manter estudando. Existem os casos em que se obtém o êxito da conclusão do curso  e se chega a conseguir um emprego na área de formação. Embora seja dignificante na teoria, o universo de humilhações passa despercebido para quem está de fora. A necessidade de esforços sobrehumanos leva muitos a desistência de seus sonhos. Alguns param na metade do caminho.  Outros, altamente desestimulados, nem tentam. Muito além da competência e da força de vontade,  cada um tem uma história subjetiva estruturada de forma a lhe compor mais ou menos auto-estima e confiança em si mesmo diante dos inúmeros percausos da luta pela sobrevivência, seja literalmente ou não.

Num dia qualquer,  um(a) jovem que trabalha durante o dia – somando mais de dez horas, contando o horário de almoço – e estuda durante a noite não consegue entregar a tempo um relatório importante para nota na faculdade . Ao se explicar pela via da falta de tempo,  seu professor lhe “consagra”, em tom irônico,  com uma das máximas da meritocracia: “O que você faz da meia noite às seis”? Num outro dia, algo no mesmo sentido acontece em seu emprego, e o luxo   das hipotéticas seis horas noturnas de sono volta a atingir a sua dignidade.

Lazer,  descanso,  estudo, alimentação,  moradia e consumo, inclusive, é direito de todos. Que as pessoas se levantem e corram atrás de seus objetivos,  que busquem forças em si mesmas e em suas crenças. Mas não podemos comprar o discurso covarde de que quem não vence na vida é por si só um perdedor. Perdedor é aquele que vive do parasitismo,  que extrai a energia alheia de forma desleal para conseguir se manter em pé.  Se lhe tira o suporte alheio, o que lhe resta? Embora difícil,  a população mais carente precisa realmente se levantar. Além disso,  ela precisa se esclarecer, essa é maior arma dos marginalizados contra a opressão social.

Que durmam quando precisarem dormir, que sonhem quando quiserem sonhar e que estejam acordados o tempo todo, pois a conquista da liberdade grita por atenção.

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Jota Carneiro é professor de História, escritor de contos e poesias