OS LIMITES JORNALÍSTICOS

 

Onde se encontra a linha tênue entre o jornalismo e o sensacionalismo? Qual é o limite da ética?
Fiquei com essas perguntas na cabeça após ler uma notícia de um quase incidente em Ourinhos. A mais ou menos uma semana (estamos em 3 de março), duas crianças foram acusadas de tentar envenenar um colega de escola, eles tinham entre 8 e 9 anos, é uma triste história, que poderia ser pior, mas os planos não saíram do papel.
As crianças foram expostas, a reportagem que deu a notícia fez questão de identificar a escola da qual elas fazem parte. O que impediu algum desocupado da internet, revoltado de ir lá querer resolver isso com as próprias mãos?
A motivação do plano era de que a criança era pobre, mas isso é realmente um problema em que essas crianças deveriam ser envolvidas publicamente? O jornalismo não deveria deixar esse problema para quem irá saber resolvê-los de verdade: profissionais de psicologia, assistência social, um trabalho profundo de conscientização dos pais delas (afinal de contas: essa ideia de que pessoas pobres deveriam morrer saiu de onde?).
São crianças, de menos de 10 anos, pense em você mesmo, caro leitor: que tipo de decisão inteligente você tinha condições de tomar com essa idade? Dificilmente você iria querer matar alguém. Crianças deveriam realmente ser expostas pelo jornalismo, nas redes sociais, causando comentários cheios de ódios, coisa essa que pode até mesmo resultar em algum tipo de violência física por parte desses estranhos? Fica o questionamento.
Esse ocorrido me lembrou de também de uma notícia envolvendo o filho do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que foi hostilizado por um programa de TV norte americano por causa de suas expressões faciais em um evento.
A Casa Branca emitiu uma nota pedindo respeito os filhos de Trump, e até existe um pacto entre a presidência e a imprensa, onde é dito que filhos de presidentes devem ser mantidos fora das questões políticas. Baron Trump tem 10 anos, e foi comparado pelo programa a um futuro atirador escolar.
Há quem discorde, mas a maioridade penal ainda é a partir dos 18 anos, antes disso, crianças e adolescentes devem ser mantidos fora desses tipos de comentários e inseridos num bom ambiente educacional, protegidos fisicamente e psicologicamente.
A escola em que essas 3 crianças envolvidas estudam, concedeu uma entrevista esclarecendo os fatos. Ela deveria ter feito isso? O certo não seria abafar o caso e resolver entre a direção e os pais apenas? Dar acompanhamento psicológico às crianças envolvidas e não deixar que o restante da população não soubesse? Fazer uma reunião com os pais e checar entre os outros alunos para prevenir que algo assim ocorra novamente? Imagine o bullying que essas crianças passarão a partir de agora, será que isso será positivo para o seu desenvolvimento?
Eu realmente não sei dizer qual seria a melhor atitude a ser tomada, mas acredito que todos esses questionamentos devem ser feitos, principalmente se crianças tão jovens estão envolvidas e passíveis de exposição. Existem orgãos na cidade de Ourinhos preparados para esse tipo de situação. Qual a validade de expor ao público uma notícia que gera caos, mas não ajuda à ninguém?