Parte 2: Um tabuleiro nem um pouco quadrado.

Por Filipe Luiz dos Santos Rosa

Continuando a cobertura do nosso jogo de xadrez nuclear me arrisco discutir a faceta geopolítica deste conflito com uma aposta alta: Este carretel atômico não vai se desenrolar tão cedo, pois a existência do regime de Pyongyang é simultaneamente interessante para as duas maiores potências em questão: EUA e China.

Interessante para os EUA? Está delirando? Andou assistindo filmes do Tarkovski antes de dormir de novo?

Pode ser, mas vejamos:

Parece ser claro a todos que a Coréia do Norte busca consolidar sua capacidade dissuasiva (ou seja, sua capacidade de desestimular um possível ataque inimigo antes que ele aconteça) e pretende fazê-lo da única forma realmente eficiente: se tornando uma potência nuclear plena e com capacidade de atuação intercontinental!
Para isso o regime de Kim Jong-un busca o domínio completo da tecnologia de produção, miniaturização e lançamento de ogivas nucleares via mísseis balísticos intercontinentais (a capacidade norte-coreana de produzir tais tecnologias será discutida na parte 3 desta série).

Porém, é sempre válido ressaltar que o regime de Pyongyang não visa tal objetivo por mero fetiche ou capricho: a dissuasão por intimidação nuclear se tornou a única possibilidade para a sobrevivência de uma Coréia do Norte soberana ou, ao menos, de trazer o a Coréia do Sul para a mesa de negociações em condições favoráveis aos interesses de Pyongyang e seus aliados chineses, ambos comprometidos em afastar o governo de Seul da zona de influência norte-americana e consolidar a China como potência regional hegemônica na região.

Paralelamente o governo de Pequim vem buscando desde a guerra fria respaldar sua soberania via paridade nuclear com as potências ocidentais, projeto que obviamente sofre forte resistência por parte dos EUA e seus aliados na região, notadamente Coréia do Sul e Japão. O desdobramento que vemos então é o uso de uma “ameaça nuclear de Kim Jong-un” como uma autêntica cortina de fumaça para justificar uma forte presença militar norte-americana e a instalação de sistemas de defesa antimísseis (Como o THAAD) na região, estes sistemas antimísseis são anunciados como um meio de neutralizar um ataque norte-coreano, mas que na prática são capazes de varrer com seus radares boa parte do território chinês, em última instância colocando o controle do espaço aéreo da região nas mãos de Washington e assim sabotar a capacidade nuclear chinesa e seu projeto de paridade.

Uma vez consolidado este tabuleiro, fica mais fácil compreender a racionalidade com a qual o regime de Kim Jong-Un vem regendo a geopolítica da região em seu favor: é interessante para o governo de Pyongyang escalar o conflito intencionalmente, uma vez que a cada nova demonstração de força norte-coreana, o governo da Coréia do Sul irá buscar em Washington apoio militar* e assim legitimar o aumento presença militar dos EUA na região, o que além de forçar o governo de Pequim a aumentar a pressão política sobre Seul, de quebra fortalece a importância da participação norte-coreana no projeto consolidação da hegemonia chinesa na região.

* Essa previsão se provou verdadeira no ultimo dia 4, quando 24h após um novo teste nuclear norte coreano, o ministro da defesa da Coréia do Sul sugeriu estar negociando com os EUA a implantação de mísseis nucleares táticos a bordo da esquadra naval norte-americana estacionada na região, o que gerou protestos de Pequim.

Intro: Coréia do Norte, ou “como aprendi a parar de me preocupar e amar a bomba”.
Parte 1: Um xeque mate perpétuo.
Parte 3: “Parar de me preocupar e amar a bomba”? (em breve)

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Filipe Luiz dos Santos Rosa é graduado em geografia e possui especialização em história militar.