Portugal e Brasil: irmãos de pais diferentes

Desembarquei no Brasil no dia 3 de dezembro de 2013, convencido pela falsa ilusão de países irmãos. A afinidade com o Brasil, para mim era enorme, já que na minha adolescência tinha uma rádio na cidade onde nasci e cresci, Rádio Cidade, que era de proprietários brasileiros, e todas as noites tinha um programa, o Cidade By Night, que divulgava muita música brasileira, Roupa Nova, Paulo Ricardo. Sempre gostei muito de música brasileira, sempre assisti novelas brasileiras, mas a realidade é bem diferente. Escolhi o Brasil pela língua, pela cultura, pela “proximidade” dos dois países. Pura ficção. “Em Roma sê Romano”, sempre escutei esta frase, mas hoje entendo a dificuldade de colocar em prática tal provérbio. A adaptação não foi fácil, mas quando interiorizei que fui eu quem escolheu esta vida, não fui obrigado, que era eu quem tinha que me adaptar, aprendi mais facilmente a viver neste maravilhoso país. Nos primeiros dias, o que mais amava era o sol e as estações do ano não serem tão definidas quanto em Portugal. Pouco chove no Brasil e raramente uso casaco, somente quando ando de moto, para mim 12º graus não é frio como para vocês. Em Portugal, temos um provérbio que é “em abril, águas mil” para verem o quanto chove, passa o mês chovendo.

Passados estes longos sete anos, claro que me adaptei, claro que amei esta pátria maravilhosa. Mas, tal como Portugal, nenhum país é perfeito, mas nós, erradamente, procuramos a utópica perfeição. A nível de linguística, as diferenças são enormes, como exemplo geladeira que para nós é frigorífico, freezer é congelador. Tive que me adaptar à linguagem, até mesmo falar mais devagar por forma a que as pessoas me entendessem. A parte mais engraçada é na vertente cultural, cheguei num determinado supermercado e a conta foi de R$ 14,98, entreguei à moça do caixa R$15,00, fiquei três longos minutos aguardando o troco de dois centavos, quando escutei que não tinha troco, a não ser se quisesse balas. Outro momento é quando fui à um posto de combustível e saí do carro para abastecer, quando o frentista, correndo na minha direção, me aborda solicitando a chave do veículo. Fiquei surpreso, em Portugal nós que abastecemos e colocamos ar nos pneus. Uma das minhas maiores alegrias era passear na rua, porque todo mundo me cumprimentava (até mesmo um simples acenar de cabeça), mesmo sem me conhecer. Dos portugueses, vocês têm a falsa ilusão de sermos um povo carrancudo, mas não o somos, só cumprimentamos quem conhecemos, só abraçamos quem é nosso amigo de fato. Aqui se formos comprar algo, as pessoas já combinam um churrasco. A casa de um português só é aberta a amigos, mas quando convidamos alguém a nossa casa, acreditem que somos mesmo amigo, e a amizade é sincera e eterna.

O que mais amei foi o dia em que experimentei caldo de cana, gente que coisa maravilhosa que vocês têm, até tive vontade de exportar para Portugal, mas desisti quando soube que iria chegar cachaça no destino.

Mas uma coisa que ambos os povos possuem é a alegria, a calorosidade, poucas vezes me senti como peixe fora da água, aliás casa é onde nos sentimos bem.

Quando falo sobre dois países irmãos de pais diferentes, tenho que fazer um meia culpa, porque, apesar das diferenças que enunciei, em questão de políticos são dois países iguaizinhos, a única diferença é o tamanho e a densidade populacional de cada um. Apesar de Portugal ser um país com 10 milhões de habitantes e ter uma área de 92. 212 Km quadrados, o Brasil tem 8.516 M Km quadrados e 209,5 milhões de habitantes, ambos possuem em seus quadros da política seres humanos incapazes de olhar para o povo, criar medidas para o povo, defender o povo.

O Brasil precisa, acima de tudo, de uma reforma política, porque não tem cabimento, aos olhos de um “estrangeiro”, uma cidade ter uma Câmara e uma Prefeitura, não faz sentido ter uma Câmara dos Deputados e um Senado Federal, não faz sentido um Presidente da República ter 32.000 cargos comissionados. Tirando estes percalços, o Brasil é um país maravilhoso, sempre com sol e onde cada pedaço de terra permite semear algo que vai brotar de certeza.

Agora sendo inspetor de alunos tive a felicidade de trabalhar com crianças e ajudá-las diariamente, porque as crianças e os idosos precisam da nossa empatia, do nosso apoio, do nosso amor, uns porque ainda têm um longo caminho a percorrer e a estrada da vida é cheia de percalços, outros porque já viveram e contribuíram em muito para a nossa sociedade e a estrada da vida para eles encurtou de duas faixas para somente uma.

Esta é a minha primeira parceria com o Jornal, espero que seja duradoura. Deixo-vos com uma frase de um escritor brasileiro, Manuel Bandeira ” Eu gosto de delicadeza. Seja nos gestos, nas palavras, nas ações, no jeito de olhar, no dia a dia e até no que não é dito com palavras, mas fica no ar.”

 

Pedro Saldida