A ponte era para a lama? por Mário Ferreira

por Mário Ferreira

Nos últimos dois anos o Brasil experimentou uma queda em torno de 7,3% do PIB (Produto Interno Bruto). Segundo a Serasa Experian houve 1,86 mil pedidos de recuperação judicial em 2.016, um crescimento de 44% em relação a 2.015. Um recorde histórico. Em decorrência da redução de investimentos e do fechamento de empresas, chegamos em dezembro último com mais de 12 milhões de trabalhadores desempregados, quase o dobro de dois anos atrás. O nível de endividamento das empresas é o mais alto da história, só as empresas de infraestrutura devem mais de 10 bilhões aos bancos privados.
Não bastassem as dificuldades econômicas, a crise política e moral impedem que o país respire e retorne a perspectiva de crescimento.
O atual governo, sem a legitimidade da aprovação popular, impõe o modelo neoliberal a qualquer custo. Já nos primeiros meses, de forma truculenta e apoiado em uma base parlamentar fisiológica envolvida em múltiplas negociatas nebulosas, aprovou a PEC 247/55, que congela os recursos para saúde, educação, assistência social e outras atividades fundamentais do Estado. A Petrobrás vai sendo desmontada e vendida a toque de caixa, apesar de algumas liminares em sentido contrário. O BNDS, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal sofreram fortes restrições em sua atuação. Está parada devido a uma liminar do Supremo Tribunal Federal a doação de 100 bilhões para empresas de telecomunicação. O projeto transitou em tempo recorde e na calada da noite pela câmara federal e pelo senado, ambos dirigidos e recheados por denunciados da lava jato.
Pressionados pelo Governo Federal, alguns estados prometem privatizar serviços públicos na bacia das almas, inclusive empresas de água e saneamento.
A gravidade da crise exige que se retome a ação política no sentido de rever o sistema de poder que prevalece no Brasil atualmente, deformado pela prática diária das barganhas.
Precisamos de uma nova prática política, com espírito republicando.
O contexto atual exige das forças mais lúcidas da sociedade (elas existem, apesar da Rede Globo) que assumam a urgente construção de um amplo movimento social, capaz de assumir pelo menos três tarefas urgentes:
Primeiro, restabelecer o regime democrático em sua plenitude;
Segundo, elaborar um amplo programa político e econômico para garantir a retomada do crescimento e a geração de empregos, construído sobre uma base nacionalista que atende os interesses do desenvolvimento do País.
E, finalmente, impedir que a operação abafa a jato, impeça a apuração da corrupção em todos os níveis e sem nenhum tipo de seletividade. Não que a operação lava a jato vá acabar com a corrupção, mas ela poderá ser uma oportunidade única de punir os culpados, melhorando os controles e diminuindo os desvios.
Afinal, não é justo que a boa parte da elite política e econômica do país, envolvida em tantas maracutaias permaneça impune.
Afinal há de haver uma boa razão para que Dante Alighieri, em a “Divina Comédia”, tenha reservado o nono e mais profundo círculo do inferno para a punição dos traidores da Pátria, onde haverão, segundo ele, de conviver eternamente, entre outros, com Judas e Brutus.

 

Mário Ferreira é farmacêutico bioquímico, diretor do Laboratório Santa Paula