Sobre raposas e galinheiros

Março acabou. E o saldo geral do primeiro trimestre de 2017 é desastroso. A recessão crescente segue parindo desemprego inédito. Alheios a tudo que diz respeito à realidade cotidiana dos brasileiros comuns, o Governo Federal e o Congresso seguem na mesma trilha. O Estado mínimo como objetivo. O modelo econômico neoliberal, subserviente e entreguista como prática diária.
O arrocho monetário, corrosivo para os setores produtivos do pequeno e médio empresariado nacional e, sobretudo, para os trabalhadores, vai sendo imposto de forma truculenta, sustentado apenas nos interesses do mercado financeiro. Simultaneamente, o Congresso Nacional foi convertido em reles balcão de negócios ilícitos por uma esmagadora maioria de parlamentares cujo compromisso único é atender os interesses próprios e de seus financiadores.
A atividade parlamentar foi reduzida à simples barganha de cargos e emendas. E, pior, as pautas e as votações passaram a ser definidas exclusivamente pelo Executivo, todas no sentido da redução de nosso já precário bem-estar social. São exemplos gritantes disso a emenda constitucional 55, que reduz e congela, por vinte anos, os investimentos em saúde, educação, ciência e tecnologia, entre outros direitos sociais, mas preserva e aumenta os recursos para o pagamento dos juros da dívida pública; e a recente aprovação da terceirização generalizada e da precarização dos contratos de trabalho, praticamente extinguindo direitos trabalhistas como o décimo terceiro salário e o fundo de garantia por tempo de serviço.
Mas, se depender dos condutores deste choque neoliberal, os retrocessos não vão parar por aí. Tramitam no Congresso Nacional, por iniciativa do Executivo, as reformas (na verdade, não reformam, destroem) trabalhista e da previdência social. Parece, entretanto, que mais recentemente as faíscas da tempestade da crise jogaram alguma luz na consciência de boa parte das pessoas. As manifestações populares de março são animadoras e talvez representem o início do despertar da inteligência nacional.
É urgente que a maioria do povo brasileiro retome o poder para reunir os pequenos e médios empresários do setor produtivo, os trabalhadores, os intelectuais, os estudantes, as mulheres, enfim, o Brasil real, que trabalha e produz, para construir um novo projeto nacional. Para reconstruir o sonho coletivo e mostrar um novo horizonte à nação. Para discutir a reforma política, quem sabe com uma constituinte exclusiva, que mude a representação política, substituindo o fisiologismo e as negociatas pelo fortalecimento dos partidos em torno de programas claros, de interesse coletivo. Para fazer a reforma tributária, que torne o sistema de arrecadação mais justo e os gastos públicos mais democráticos e transparentes. Para ampliar os direitos e oportunidades para todos e tornar o país mais justo, reduzindo nossa brutal desigualdade social. Para fazer a defesa intransigente do patrimônio e do interesse nacionais. Para investir tudo o que for possível na construção de uma educação pública de qualidade, começando pelo resgate da dignidade dos professores. Para restabelecer a democracia e o funcionamento independente dos poderes. Para coibir o abuso de autoridade e os tristes espetáculos que setores do Estado e o oligopólio da mídia têm imposto ao povo, distorcendo fatos e construindo a ignorância coletiva. Para democratizar as comunicações, impedindo que os pseudointelectuais e especialistas de fachada, abrigados na grande mídia vendida, deformem a consciência das pessoas, construindo com superficialidade o embuste das soluções fáceis, dos super-heróis salvadores da Pátria e do pensamento único.
O desafio é enorme e, por isso mesmo, precisa da energia de todos. Como afirma Eduardo Galeano, é a utopia que nos faz caminhar. A utopia, como o horizonte, está sempre longe, mas dá o rumo à caminhada. A tarefa é, portanto, construir uma utopia nacional.

 

Mário Ferreira é biólogo, farmacêutico bioquímico e empresário, tem MBA em Administração de Empresas e foi candidato a Prefeito de Ourinhos nas últimas eleições.