Apostilas x livros didáticos: a solução de um país que não sabe pensar?

Alunos podem levar um susto no futuro ao perceber que sabem apenas conceitos fragmentados e não aprenderam a estudar de verdade

Atenção com as apostilas no ensino fundamental e médio: por mais organizadas que pareçam, sem um bom professor que possa abrir horizontes e suprir as lacunas que o material oferece, o aluno apenas ‘engole’ um conjunto de conhecimentos já ‘mastigados’. Como as avaliações são fáceis, ainda mais com provas padronizadas em sintonia com os macetes e o incentivo à decoreba, o estudante vai passando de ano até sofrer um grande susto no futuro, ao perceber que retém apenas um conjunto de conceitos fragmentados e não sabe estudar para aprender de verdade.

“Trata-se de um mito de que as escolas privadas que utilizam apostilas têm instrumentos melhores do que aquelas que não as utilizam”, afirma Nélio Bizzo, especialista em ensino de ciência da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) e avaliador de apostilas a pedido do Ministério Público de São Paulo.

Ferramenta criada nos cursinhos, as apostilas se popularizaram nos anos 90 e, vendidas como uma solução milagrosa, se estenderam do terceiro ano do ensino médio para outras séries da educação básica e passaram a ser chamadas de “sistemas de ensino apostilados”. A principal vantagem garantida pelas empresas que as fabricam é a promessa da padronização com qualidade: todos os alunos de uma determinada série aprendem a mesma coisa, na mesma hora, do mesmo jeito, quase à prova de todas as possíveis deficiências do professor. Uma verdadeira indústria.

“A formação de professores, sem dúvida, é um problema, mas empregar um manual é como tentar tratar uma infecção com um analgésico”, avalia Ivair Fernandes de Amorim, doutor em educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e autor de uma pesquisa sobre o uso de apostilas em salas de aula. “O problema é fazer o aluno pensar que na apostila está todo o conhecimento que ele pode ter. Se não há a mediação do professor, não se forma uma massa crítica até para analisar o próprio material utilizado”.

De acordo com Ivair, é preciso um docente capacitado para que o aluno entenda a limitação da apostila, saia da superficialidade, pense além das fórmulas prontas e aprenda a refletir com profundidade. E para isso é preciso investir mais em outros materiais e ir às fontes das informações.

Publicidade sem provas

Muitas vezes as empresas que fabricam apostilas apresentam pesquisas mostrando que as escolas que usam seus sistemas teriam notas melhores em avaliações como a Prova Brasil ou o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Mas, de acordo com Nélio Bizzo e outros especialistas, não existe um estudo independente, de alguma entidade que não esteja ela mesma ligada à promoção de algum produto, que comprove esse desempenho superior dos alunos. E, caso os resultados sejam verdadeiros, que as boas notas se devam ao material e não a outros fatores como, por exemplo, a condição socioeconômica e ao empenho dos alunos.

“Elas [as apostilas] parecem ser autorreferenciadas [garantem a qualidade por elas mesmas, sem nenhuma análise crítica de fora], baseadas em ações publicitárias e no renome por trás de algumas marcas associadas a pré-vestibulares e escolas privadas”

Tatiana Feitosa de Britto, consultora legislativa do Senado Federal na área de educação e autora de artigo sobre apostilas e livros didáticos, ressalta ainda o quanto é questionável o apelo publicitário utilizado pelas empresas sobre o sucesso das apostilas. “Elas parecem ser autorreferenciadas [garantem a qualidade por elas mesmas, sem nenhuma análise crítica de fora], baseadas em ações publicitárias e no renome por trás de algumas marcas associadas a pré-vestibulares e escolas privadas”, diz.

Como os livros didáticos no Brasil também deixam muito a desejar – e, por questões mercadológicas, estão cada vez mais parecidos com o material apostilado –, e com a falta de professores no mercado está cada vez mais difícil encontrar bons profissionais, pareceria que as apostilas devem ser aceitas por enquanto como um mal menor. Alguns especialistas chegam a concordar com a muleta, mas professores como Nélio Bizzo, que atuou como perito judicial na análise de materiais didáticos, discordam totalmente.

Para justificar, ele lembra a experiência de outros países que conquistam boas notas nas avaliações internacionais. A Inglaterra, por exemplo, começou a utilizar no início da década de 80 apostilas que eles chamavam de ‘materiais estruturados à prova de professor’, pelas quais o professor se limitava a ser um aplicador. No final da década de 80, os ingleses voltaram atrás e, como outros países, decidiram investir mais no professor, o que os fez melhorar o desempenho dos alunos.

Apostilas em Cuba e a ‘jabuticaba’ brasileira

Apostilas são usadas em diversos países do mundo, é verdade. Mas a forma como são feitas e vendidas em série no Brasil, na maioria das vezes sem a participação dos professores que vão utilizá-las como texto de apoio para ensinar, só acontece por aqui.

“A importância tanto do livro didático como da apostila não reside nesses materiais em si mesmos, mas como a partir deles o professor ajuda a desenvolver o pensamento lógico, matemático, científico, etc.”

Neide Barbosa SaisiProfessora do curso de pedagogia na PUC-SP e doutora em psicologia da Educação

O sistema de apostilas de Cuba, considerado um dos mais eficientes do mundo, é o mais parecido com o das escolas particulares do Brasil, com uma diferença abismal: os cubanos têm menos conteúdo com mais profundidade e treinamento de professores. Essa diversidade é apontada pelo professor de Stanford Martim Carnoy, autor do livro “A Vantagem Acadêmica de Cuba”, em palestra realizada no Brasil em 2010.

Em países como Canadá e a Finlândia, o material adotado nas escolas é escolhido pelos próprios professores e, por vezes, há algumas apostilas desenvolvidas pelas próprias equipes, que não esgotam os temas e são adaptadas à realidade dos alunos de cada escola. “No Brasil, as apostilas trabalham os mesmos conteúdos da mesma forma, em diferentes lugares do país, o que, de longe, não é garantia de qualidade”, ressalta o pesquisador Ivair Fernandes de Amorim, doutor em educação pela Unesp .

A importância do professor e do que deve ensinar

Há um ponto essencial em toda a discussão sobre os materiais didáticos: eles são um recurso para que o professor atinja um dos objetivos da educação que é ensinar os seus alunos a pensar. E é exatamente isso o que o Brasil não está conseguindo fazer, também nas escolas particulares, de acordo com as últimas avaliações internacionais. Na avaliação internacional feita com 72 países, o Pisa de 2015, por exemplo, as notas de alunos brasileiros, também das escolas particulares, ficaram em sua maioria abaixo da média geral.

“A importância tanto do livro didático como da apostila não reside nesses materiais em si mesmos, mas como a partir deles o professor ajuda a desenvolver o pensamento lógico, matemático, científico, etc.”, afirma Neide Barbosa Saisi, professora do curso de pedagogia na PUC-SP e doutora em psicologia da Educação. “Para isso, é preciso ir muito além da apostila, a função docente excede os materiais utilizados”.

Para que o professor consiga fazer isso, precisa de formação contínua, boa estrutura de trabalho, salário melhor e também do apoio das famílias dos alunos, que nem sempre estão preocupadas em atestar que o filho de fato aprendeu e se interessam apenas se está preparado para passar no vestibular. Se a mudança educacional que o país necessita não passar por alterar esse cenário, diz a professora, as apostilas industriais continuarão a ser uma muleta utilizada por muitos anos, mas produzindo um ensino de qualidade inferior ao que o Brasil precisa para sair do subdesenvolvimento.

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