Poeta ourinhense lança livro “Vazio sem Sombra” neste sábado, 18

Neste sábado, 18 o poeta ourinhense Ari Marinho Bueno estará na cidade para lançar Vazio sem sombra, seu mais recente livro, publicado pela editora Benfazeja (http://benfazeja.com.br/ ).

Ari mora há vários anos em São Paulo e em 2010 lançou seu primeiro livro, Vacas no céu do interior, após premiações em diversos concursos literários.

Ari foi um dos fundadores e primeiro presidente da Associação de Amigos da Biblioteca Pública – AABiP, entidade cultural que desenvolve trabalhos de incentivo à leitura e de preservação da memória. A AABiP, em parceria com a editora Benfazeja, é responsável pelo lançamento do livro em Ourinhos.

O evento vai acontecer no bar Conveniência Dom Pedro I (rua Dom Pedro I, 438). O lançamento contará com a presença de outros autores e haverá leituras e exposição de poesias e apresentação musical com Dani Depizol.

Entrevista ao site Tertuliana

Nesta semana, o poeta ourinhense concedeu uma entrevista ao site Tertuliana, oportunidade em que falou sobre seu trabalho de criação poética, a experiência de trabalhar com editoras independentes, os movimentos culturais em São Paulo e o lugar da poesia no mundo atual. Confira a entrevista:

Tertuliana: Fale um pouco sobre a experiência de trabalhar com editoras independentes.

Ari: Procurar editoras independentes é a única saída para autores que estão fora do mainstream. A empreitada desses editores é essencial, embora, mal consiga alimentar um círculo virtuoso que é o de autores-leitores/leitores autores.  A mais importante prestação de serviço que as editoras independentes que se prezam podem realizar é o seu controle de qualidade, a maneira como se pratica literatura nestas editoras (ao menos nas que conheço), de maneira subversiva, por mais incipiente que seja, diante de um sistema que é descaradamente mercadológico. É claro que as coisas estão mudando, devagar, pois o Brasil é um país onde ainda não se lê (comparado a outros países), porque, por exemplo, a escola não faz disso um prazer; não se compra livro no Brasil, porque livro é um artigo caro aqui. Então essas editoras trabalham com pequenas tiragens, o que viabiliza o investimento; tem um tratamento muito pessoal, personalizado, eu diria, que faz do autor um ser único, seja por conta da originalidade do trabalho e das ideias, seja na maneira como é tocado todo o projeto, desde o primeiro contato com o texto até o momento do lançamento. O autor participa de todas as etapas e tem muita autonomia com relação ao conteúdo e a arte final. Para quem, como eu, que não tenho preocupações ou pretensões mercadológicas, participar da edição propriamente dita é um prazer a mais, mesmo depois de já haver concluído o livro. Vale ainda lembrar a imprudência que é ser editor independente no Brasil. Um cara como o Well Souza, editor da Benfazeja, tem que ser valorizado: é uma profissão de fé acreditar no autor brasileiro, sem apoio algum a não ser a sua prepotência e a sua pretensão – que é, por exemplo, ser poeta no Brasil, num país como o nosso.

Tertuliana: A literatura tem inspirado vários movimentos culturais em São Paulo, inclusive na periferia. Você tem acompanhado essa agitação?

Ari: Mesmo morando atualmente em São Paulo, tenho acompanhado de longe essas ações, por motivos logísticos, principalmente. Penso que é fabuloso o fato de a literatura ser utilizada como matriz para a inserção social, para dar voz à periferia, para fazer da cultura uma ferramenta que é de todos. Levar violinos para a periferia é uma ação de efeito retardado. Apenas alguns poucos vão aceitar e identificar a música, neste formato, como um vetor para mudar uma comunidade, a sua comunidade. A mim isso me parece aquele político que sai caminhando pela rua, na época das eleições, apertando a mão de pessoas que ele nunca viu e nunca mais vai ver na vida: é um placebo mental. Mas se você usa a música que já existe ali, que as pessoas ouvem todo dia, com sua linguagem própria, as pessoas se identificam e se apropriam daquilo como sendo deles, e o caminho a ser seguido vai se construir com o apoio, aí sim, de autores reconhecidos como fundamentais (alguns gostam de chamar de clássicos) no artesanato da língua. A cultura hip-hop, por exemplo: já assisti, na rua, sem aviso prévio ou estardalhaço, uma batalha de rima sob um viaduto, com muitos jovens, onde o desafio de rimar melhor que o adversário provoca toda uma relação com a língua, com sua semântica, seu vocabulário, com o que há de musical nas palavras, que nenhuma oficina literária é capaz de proporcionar. É válido dizer que há uma cena importante em Ourinhos, que já é reconhecida em outros centros, que traz esse movimento de rua para uma perspectiva mais humanista/humanizada, envolvendo crianças da periferia, ações sociais, etc. Já realizam produções de eventos, produção musical, tudo com as ferramentas que a internet oferece, tudo sem apoio governamental. Aí que a coisa funciona: as pessoas estão mobilizadas porque sabem da importância do que estão fazendo e do valor delas mesmas.

Tertuliana: Você escreveu que é mais fácil escrever poemas que construir pontes, que apertar mãos ou dirigir um carro. O que não é fácil na criação de um poema?

Ari: Na verdade aí está um pouco da ironia, que alguns leitores disseram ser sutil, que muitas vezes habita o que escrevo. Escrever um poema é muito fácil. Qualquer um pode fazê-lo. Mas a pergunta fundamental, para mim, é: por que fazer? O problema que quis colocar nesse poema, de maneira mais específica, é na relação do poeta com o leitor, ou ainda com a poesia. Essa humanidade toda que reside ali, no poema, é uma coisa dada, ou seja, quem escreve um poema se humaniza apenas por fazê-lo? Até que ponto um poema meu, seu ou de qualquer um pode, de alguma forma, tocar a sensibilidade de alguém? Até que ponto a arte, por ela mesma, tem um poder transformador de fato? Essas questões estão colocadas a cada vez que uma pessoa bem intencionada se senta diante de um papel em branco, de uma tela de computador, para criar um texto poético. Acho que é isso que não é fácil num poema: fazer com que ele seja bem quisto.

Tertuliana: Existe lugar para a poesia no mundo conturbado em que vivemos?

Ari: Não existe lugar para a poesia no mundo em que vivemos. Mas é por isso que ela é fundamental. Isto tem muito a ver com o questionamento anterior. Brecht tem um poema em que ele diz que em tempos de barbárie nada pode parecer normal, impossível de mudar. Hoje o que impera é a barbárie, e o pior, as pessoas acreditam nisso. Penso que a poesia é uma dessas ferramentas que pode ajudar a reformar esse cenário, transformar pessoas – porque acredito mesmo, de verdade, na reforma interior. É a referência que tenho, foi o que aconteceu comigo. Se não for assim, as pessoas não terão escrúpulos em votar em pessoas que sabidamente não tem escrúpulos. Quem é realmente tocado por uma obra artística, que entende o mundo que pode se desvelar dali, que existe ali à espera de uma pessoa que o queira bem, nunca troca seu voto por um favor, por uma situação oportunista. Daí a dificuldade de criar algo, um poema no nosso caso, que pessoas que acreditam na barbárie possam querer. Acho que é isso.