O Brasil e seu virtuoso século XX

Por Luiz Alberto Vieira

A história do Brasil no século XX é uma história de sucesso. Pode nos parecer estranho, afinal nós, brasileiros, temos a mania de ver problema em tudo, em nos autodesprestigiar.

Contudo, os dados internacionais são um verdadeiro tapa na cara do senso comum. É verdade que ainda é preciso avançar muito, mas é impossível não constatar os enormes avanços do Brasil no século passado e nas primeiras décadas do século XXI.

Foi uma época que deixamos de ser um imenso fazendão atrasado e nos tornamos uma nação industrial, com muitas instituições típicas de países desenvolvidos.

A evolução do Brasil ganha ainda mais destaque quando levamos em conta que o historiador Eric Hobsbawm considerava que para 80% da humanidade a Idade Média acabou apenas em 1950. E nada mais exemplar que a história brasileira no século XX, quando logramos uma das maiores evoluções da humanidade.

Se levarmos em conta os padrões de vida atuais dos países, é como se meu pai em 1959 tivesse nascido na África subsaariana, eu em 1982 tivesse nascido na Bolívia e minha filha em 2012 tivesse nascido nesse Brasil que conhecemos. É um enorme salto para tão poucas gerações.

O economista britânico Angus Maddison fez uma das mais longas estimativas de PIB per capita já feitas. Nestes dados, o PIB per capita do Brasil era inferior ao da Bolívia em 1945, ao final da 2ª Guerra Mundial. A renda dos brasileiros só passaria a dos bolivianos em 1956, no início do governo JK.

A comparação com a Argentina é ainda mais chocante. Em 1900, a renda média de cada argentino era mais de 4 vezes superior à média dos brasileiros. Talvez a imagem de empáfia que temos dos argentinos seja apenas pelo fato deles terem sido muito mais ricos do que nós por quase um século!

Poucos sabem, mas há pouco tempo atrás a grande maioria dos brasileiros não sabia ler nem escrever. Na virada do século XX, nada menos do que 65,2% dos brasileiros adultos eram analfabetos, índice que permaneceu inalterado até a fundação do Ministério da Educação por Getúlio Vargas. Apenas no censo de 1960 conseguimos que a maioria dos brasileiros soubesse ler e escrever. Em 2013, apenas 8,5% das pessoas adultas não eram alfabetizadas, a maioria delas eram idosas.

O Governo Federal em janeiro deste ano disponibilizou 682 mil vagas no SISU, PROUNI e FIES. Antes da 2ª Guerra Mundial Eric Hobsbawm apontava que Alemanha, Grã-Bretanha e França tinham somados menos de 150 mil estudantes universitários, a despeito dos mais de 150 milhões de habitantes na época. Assim, temos ideia da imensa expansão do sistema universitário não apenas no Brasil, mas em todo o mundo.

Nem mesmo as mudanças no sistema universitário dos últimos anos foram captadas pelos brasileiros. Em 2002, 1,2 milhão de brasileiros entraram numa universidade, número que chegou a 2,1 milhões 2014. Neste período, o número de calouro de medicina subiu de 10,8 mil para 23,2 mil, enquanto nas engenharias passou de 84,7 mil para 390,6 mil.

Não é por acaso que as reportagens sobre a falta de engenheiros sumiram antes mesmo da recessão. O número de formados em engenharia cresceu de 28,0 mil em 2002 para 86,4 mil no ano passado, segundo o Censo da Educação Superior do MEC.

De grande importância é o fato da expansão do ensino superior ter vindo acompanhada da maior inserção científica brasileira. Dados da Scopus mostram que a publicação de artigos brasileiros indexados aumentou de 8,6 mil em 1996 para 53,0 mil em 2012, o que permitiu que nossa participação nos artigos científicos indexados do mundo crescesse de 0,79% para 2,45%.

As condições sanitárias do país também eram péssimas. As taxas de mortalidade infantil que são os melhores indicadores sobre o acesso à saúde e saneamento eram estarrecedoras. Em 1970, no auge da ditadura militar, nossa mortalidade infantil era 133 por mil, índice típico de países da África subsaariana como Chade (139 por mil), Benin (100 por mil) ou República Democrática do Congo (98 por mil). Hoje, o Banco Mundial estima uma mortalidade infantil de 16 por mil para o Brasil.

A expectativa de vida era de apenas 54 anos em 1960, algo parecido com o Chade (51 anos) e Angola (52 anos). Assim, a expectativa de vida do brasileiro aumentou mais de 20 anos até 2014 quando chegou a 75,2 anos.

A partir de 1988 o Brasil teve a ousadia de implantar o primeiro sistema universal de saúde num país com mais de 100 milhões de habitantes, o SUS. A despeito dos problemas que ninguém nega, temos o maior programa de transplantes públicos do mundo e a realização de procedimentos complexos como quimioterapia, no qual a participação do SUS chega a 95%.

Assim como a maioria dos povos, vemos com maus olhos a política.  Afinal, se não fosse assim, a obra de Nicolau Maquiavel, ao desnudar a política segundo sua própria lógica, não seria até universal e relevante quase 500 anos após sua publicação. Mas quantos países do mundo tiveram num espaço curto de tempo, políticos com a envergadura de Getúlio Vargas, Juscelino Kubstischek, Leonel Brizola, Ulysses Guimarães e Lula?

Podemos deixar o complexo de vira-lata de lado e comemorarmos o virtuoso século XX brasileiro.