Zona Azul e Cidadania: um desafio para Ourinhos

Não se trata ser contra a Zona Azul em Ourinhos. A centralidade da questão é o trabalho infantil e o aceno para a “modernidade” feito pela Prefeitura Municipal. Em nenhum momento isso é levado em questão. Ou seja: intervir na organização do transito na cidade e também promover cidadania e alargar oportunidades em seguimentos sociais fragilizados.
Preocupação social real, seria, ao invés de transferir para a iniciativa privada a arrecadação da zona azul, disponibilizar em lojas conveniadas as vendas dos talões e direcionar os ganhos em programas de renda mínima, associadas à permanência na escola dessas crianças. Essa questão não pode ter o viés de lucro. A preocupação deve ser social, inclusiva e cidadã.
Não se pode defender a atual organização da Guarda Mirim em Ourinhos. É uma organização de cunho militar, avessa a cidadania, punitiva e pouco preocupada com o rendimento escolar dos adolescentes nas escolas. Para essa organização, basta vender talões, atingir a cota diária e tudo bem. É o avesso da preocupação social que uma instituição deve ter. É a pratica cruel de um principio caro a setores conservadores, reacionários e autoritários tão em voga na atualidade: a meritocracia. Ou seja, os adolescentes precisam se esforçar. Entenda-se o esforço: ficar de sol a sol, chuva, frio e pior, sofrendo assédio moral e sexual dos “cidadãos de bem” pelas ruas da cidade. Na seqüência um argumento avassalador: esses jovens precisam do dinheiro para ajudarem suas famílias, precisam para não passar fome. Discurso fácil e piegas, próprio do senso comum, não avança no sentido da necessária construção de políticas públicas, oportunizando educação de qualidade e cidadã para todos e ao mesmo tempo, ofertando conhecimentos necessários para pratica de uma profissão.
O foco na questão precisa ser educação e cidadania. É ilusão pensar que esse dinheiro beneficia os adolescentes. Isso na verdade tolhe oportunidades.
Em artigo publicado pelo Contratempo, demonstrou-se que a implantação irrestrita em Chicago (EUA), de formula semelhante à proposta pela Prefeitura Municipal de Ourinhos foi um fracasso. Inviabilizou o planejamento urbanístico da cidade, entre outras questões. Criou-se mais um problema, ao invés de resolver o que se propunha.
Muitas perguntas estão sem respostas no proposto por Lucas Pocay, como por exemplo: a área das vagas será da concessionária? A PMO terá compromisso com a receita da concessionária?
Mudanças no sentido de aperfeiçoar programas sociais direcionados a juventude precisam ser feitos. Mas é preciso cautela. Avançar, aperfeiçoar. Ouvir seguimentos ligados a questão. Sem tanta pressa e verdadeiramente se preocupar com o jovem e necessária formação cidadã que o mesmo precisa ter.
O dinheiro arrecadado deve ser usado para proporcionar cidadania. Renda cidadã, ser mecanismo de distribuição de renda. Deve favorecer as crianças, afastando-as do trabalho das ruas e, como já foi dito: oferecer novas oportunidades de aprendizado profissional.
Se existe algum mérito por parte da PMO, foi levantar a problemática. Mas não deve cair no erro de implantar seu desejo a ferro e fogo, sem ouvir a sociedade. A velha máxima é necessária nesse momento: “é melhor errar com o povo do que ter a pretensão de acertar sem ele”.

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