Entrevista especial com o professor da UNESP de Assis Antônio Celso Ferreira

Nesta semana, o Contratempo entrevistou Antônio Celso Ferreira, intelectual de grande representatividade em nossa região,  docente do curso de História da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), campus de Assis. Confira abaixo a entrevista:

1 – Antônio Celso, conte-nos um pouco a sua trajetória de vida.

Sou caipira nascido em Guapiaçu (SP), perto de São José do Rio Preto, descendente de famílias muito antigas da região, a maior parte vinda de MG, fazendeiros, e uma parte italiana. Estudei por aqui até 1969, quando concluí o nível colegial, antigo científico. Depois disso, estudei na UnB, onde me graduei em História (1973) e participei de política estudantil contra a ditadura.  Em seguida, fui para São Paulo, onde trabalhei no ensino médio e fundamental (tanto privado quanto público). Em 1983 comecei a dar aula na UEL e desde 1988 na Unesp de Assis, onde trabalhei na graduação e na pós, fui coordenador de pós-graduação, diretor do campus. Além disso fiz política acadêmica, um pouco na ANPUH paulista como na reitoria da Unesp. Tive experiência como assistente editorial na editora Unesp e como coordenador do Cedem-SP.

2 – Como era o contexto universitário no Brasil quando você começou a dar aulas e o atual? Como avalia este cenário?

Quando comecei minha experiência no ensino superior – anos 80 – estávamos saindo da ditadura e já havia sido implantada a reforma universitária iniciada na década anterior, que levou ao nascimento da “universidade operacional” como diz Marilena Chauí. Embora a universidade já estivesse orientada para o mercado desde o desaparecimento da velha universidade liberal-oligárquica, organizada em cátedras, o clima de liberdade instaurado com a “redemocratização” abriu expectativas generosas. Para muitos, como eu, a universidade tornou-se nossa missão (parafraseando Nicolau Sevcenko – Literatura como Missão), de modo que a docência e a pesquisa universitária adquiriram um sentido político emancipatório que trazíamos desde a luta contra a ditadura. Mas isso só durou até meados dos anos 90 quando a universidade foi completamente tomada pelo mercado e nós mesmos fomos arrastados pela torrente. A maioria dos professores da minha geração foram se sentindo cada vez mais fora de lugar: parte aderiu completamente ao sistema e canalizaram todas as suas energias para a carreira profissional, outra (meu caso) tentou equilibrar a ascensão na carreira com o trabalho político. Mas perdemos todos. Até os breves 13 anos do governo Lula nada alteraram nesse processo de implantação da universidade operacional, apesar das tentativas de ampliar as possibilidades de estudo para a maioria da população. Na estrutura e no gerenciamento da universidade, os governos Lula e Dilma reforçaram os mecanismos do controle da universidade pelo mercado. A Lattescracia é a expressão do desastre universitário nacional.

3 – Sabemos que a academia em certa medida vem cada vez mais se distanciando da sociedade e suas necessidades, voltando-se apenas para a produção desenfreada e pouco lida, apenas para catalisação do lattes. Qual é a função da universidade no seu ponto de vista?

A Universidade vive o seu desmantelamento. Atualmente nem o pensamento pedagógico nem os peritos universitários tem qualquer solução para isso. Não vejo perspectiva a médio prazo.  E meu pessimismo diz respeito não só à formação em ciências humanas, que certamente está em colapso, mas também às demais áreas, até mesmo as mais duras, tecnológicas. Não produzimos ciência, copiamos tecnologia obsoleta de um mundo em crise. Não temos projeto nacional. Para que serve a universidade? Que valor tem ela hoje diante da presença absoluta das mídias?

4 – Sabemos que você vem discutindo assiduamente vários temas e problemáticas através das Redes Sociais. Como você descreve está nova plataforma de “ativismo social” e como acredita que pode contribuir nesta reflexão ?

Acho que ninguém de nós sabe como agir nas redes sociais. Como todo mundo, estou experimentando. Às vezes me vejo como professor, e me animo por conversar com mais gente do que ultimamente conversava no deserto universitário. `As vezes me sinto um guerrilheiro virtual anti-sistema, mas sei que me iludo porque o universo virtual é muito mais complexo e nos engana. Como diz Zizek, vivemos no meio da ideologia, nos tornamos parte da máquina ideológica, uma espécie de Matrix que nos exige esforços monumentais e esgotantes para manter o princípio de realidade. É por isso que ando lendo e publicando coisas sobre Freud no facebook.

5 – O Brasil vem passando por uma das suas piores crises institucionais, é o fim da democracia como a conhecemos ? Como acredita que poderemos solucionar esta situação?

As análises que leio mostram que a crise da democracia liberal ocorre no mundo todo, dos Estados Unidos à Europa, países do Leste, do norte e do sul. Nossa democracia sempre foi oligárquica, falsamente liberal. Desde 1985 acreditamos que havíamos retomado a democracia, não é verdade. É preciso estudar profundamente como se deu a passagem dos governos militares para os civis e recontar essa história, derrubar os mitos liberais. Os historiadores devem ao povo uma reflexão menos ilusória de que tudo o que ocorreu. O problema é que a historiografia brasileira hegemônica é parte das ilusões liberais. Tão cedo essa revisão não ocorrerá. 

6 – Em posts recentes, você disse que os secundaristas, no que tange às ocupações e manifestações, estão sozinhos e que serão trucidados. Recentemente um professor de Ourinhos teve de deixar a cidade por ter apoiado as ocupações do ano passado, tendo se tornado alvo fácil da Polícia e da mídia reacionária na cidade. O fascismo está por toda parte?

Não acredito que as ocupações possam, sozinhas, alcançar algum sucesso. Isso vale para a maioria dos movimentos. Vivemos uma espécie de paralisia combinada com alguns espasmos voluntaristas. Não sei como sairemos dessa hecatombe tão cedo.

7 – Vivemos um momento de crise de expectativas onde síndrome do pânico, depressão e congêneres estão cada vez mais comuns. Como lidar com a falta de sentido? Ele existe/existiu na vida e na história ou é mera utopia?

Os últimos anos de Freud foram cada vez mais atormentados, não só por causa do seu câncer como também pela percepção que tudo da civilização européia parecia ruir diante tanto da arrogância do individualismo mortífero dos ianques e do primado absoluto das pulsões primitivas com o nazismo. Foi nesse contexto que ele escreveu “O Mal estar na Cultura”, no qual indagou que então se vivia uma luta heroica entre a pulsão de morte e a pulsão de vida da humanidade, mas não arriscava a profetizar qual delas venceria. Estamos na mesma situação, agora muitíssimo mais agravada.  Vamos apostar em Eros, quem sabe…