O que (mais) quer a direita?

por Luiz Otávio*

Muitos questionamentos feitos sobre os governos Lula e Dilma apontam para o pacto pela governança, que aliou o PT aos piores setores da direita empresarial e política brasileira, como um grande erro. Há críticas também pela falta de um projeto de país e pelo rompimento com os demais setores da esquerda (inclusive as correntes internas do PT), que empobreceram a pluralidade de ideias. Para piorar, o PT teria copiado o que há de pior no PSDB, como diz o ex-ministro Ciro Gomes, incluso aí as piores práticas de financiamento de campanhas.
Contudo, em minha humilde opinião, o maior erro foi não ter avançado na regulação dos meios de comunicação. Acredito que mais estudos são necessários para se afirmar se há ou não uma crescente onda de reacionarismo no Brasil. Contudo, nos parece correto afirmar que a grande mídia deu sobrevida ao discurso de direita ao insuflar e espalhar o antipetismo até mesmo nas periferias do país. Exemplos disso foram a melhora do desempenho do PSDB nas últimas eleições presidenciais que também nos ‘presenteou’ com um maior número de congressistas conservadores.
Se por um lado o Poder Legislativo está propondo e aprovando projetos como o da redução da maioridade penal, de terceirização e de financiamento privado de campanhas, por outro temos o Poder Executivo, que deixou de lado as pautas progressistas, como a reformas agrária e política, para se ater a agenda do ajuste fiscal cujo fardo pesa sobre os trabalhadores, aposentados, camponeses e desempregados e nunca sobre os bancos e especuladores.
Diante desse quadro, muitas análises da atual conjuntura feitas por estudiosos e observadores do campo progressista seguem identificando as causas, sintomas e saídas para a crise da/na esquerda brasileira. Pretendo aqui colaborar, tentando vislumbrar quais os passos que deverão nortear o campo conservador brasileiro – que tem se aglutinado em torno do PSDB – até as próximas eleições em 2018.
Embora muitos dos manifestantes contra o PT não tenham se apercebido, mas o esvaziamento da agenda pró impeachment de Dilma decorre do fato de que os grandes empresários e banqueiros se sentem contemplados com a política econômica do governo tanto quanto se estivessem num hipotético governo tucano. Enquanto uma parcela da esquerda parece comemorar por ter ‘derrotado o golpe’ e também não notaram que talvez a campanha do impeachment tenha sido uma mera cortina de fumaça para manter o governo acuado. E isso já seria o ‘’golpe’’. De qualquer maneira, a direita já poderia se sentir vitoriosa e desistir da obsessão por retirar o PT do poder.
No entanto, Aécio Neves já sabe ser improvável que ele seja o candidato do PSDB nas eleições de 2018. Ainda mais quando o seu nome ‘insiste’ em retornar ao noticiário na boca do doleiro Youssef. As chances de Aécio dependeriam, portanto, de uma ação que tumultuasse o ambiente político e mudasse as regras do jogo agora. Por isso a insistência dele em lutar por um impeachment de Dilma. Notem que Alckmin e Serra tem posturas bem diferentes sobre o tema.
Reconhecendo então que o atual cenário político e econômico parece muito mais favorável ao campo conservador, o que mais quer a direita no Brasil? O que os motiva?
Se internamente a condução da economia pelo PT é similar àquela promovida pelo PSDB nos anos de 1990 (embora as políticas sociais petistas tornem menos amargo o remédio), creio ser a política externa o motriz da direita em sua rota contra o PT.
Seja por submissão ao imperialismo, seja pelo famoso ‘viralatismo’ ou por interesses escusos, a direita tem ojeriza às relações externas brasileiras, que desde 2002 priorizaram o Mercosul e os demais países emergentes. Isso certamente incomodou o protagonismo dos EUA não apenas na América do Sul, mas também a medida em que o BRICS passam a ter representatividade na economia mundial. A frase de Chico Buarque resume bem a situação: ‘’é um governo que fala de igual para igual: não fala fino com Washington e não fala grosso com a Bolívia e o Paraguai e, por isso mesmo, é respeitado no mundo inteiro”.
A tudo isso, soma-se o projeto pessoal de poder de José Serra e ao seu comportamento entreguista no Senado Federal. Vazados pelo Wikileaks, documentos mostraram a disposição de Serra em fazer lobby para a petroleira americana Chevron, justamente mudando as regras de operação do Pré-Sal. Embora em 2010 Serra tenha negado, sua conduta agora só faz legitimar o conteúdo da denúncia.
Portanto, o cenário eleitoral que se apresenta para 2018, aponta novamente para o PSDB como o representante da direita. Seja com Serra ou Alckmin, provavelmente irão abrir mão de um projeto de país para se apoiar na plataforma única de atacar o governo Dilma e o PT. Caso voltem a governar o país, os tucanos deverão manter ou aprofundar a política econômica neoliberal e as pautas conservadoras. Contudo, a grande guinada ocorreria no Ministério das Relações Exteriores, recolocando o Brasil na órbita estadunidense, com os objetivos de congelar a política externa brasileira na América do Sul, de enfraquecer o papel dos BRICS e de garantir petróleo mais barato aos EUA via Pré-Sal.
Para cooperar com essa agenda, a grande mídia seguirá nos próximos anos com sua campanha partidária, alimentando o antipetismo até os rincões do país. Isso já é visível em cidades governadas pelo PT, onde o noticiário negativo se intensifica faltando pouco mais de um ano para as eleições municipais. Paralelamente a isso, a imprensa deverá fornecer toda a munição que sirva para justificar uma provável guinada nas relações exteriores. Assim, Bolívia, Venezuela, Equador e Rússia ganharão mais espaço nos noticiários, obviamente, com viés negativo. Em 2019, caso Hillary esteja de volta à Casa Branca e o PSDB venha a triunfar nas eleições, podemos até imaginar a hipótese de um deja vu geopolítico ao nos deparar com o sobrenome Clinton ao lado da sigla ALCA nas nossas ‘folhas’ e ‘estadões’. Vade retro, 1995!

*geógrafo e designer