Artigo – Há uma semana, a greve não foi geral

No dia 14 de junho, manifestações foram realizadas em vários pontos do país. Intituladas sob a denominação de greve geral, envolveram diversas categorias profissionais, estudantes e movimentos sociais, tomando como pauta principal a luta contra o fim da Previdência, proposto pelo governo Bolsonaro sob nome de “Nova Previdência”.

A luta contra o corte de verbas na educação também foi uma pauta.

Em muitas cidades brasileiras, a mobilização concentrou um número significativo de pessoas. Principalmente nas capitais, o ato foi uma importante demonstração da falta de consenso entre a população brasileira sobre o desmonte da Previdência e da resistência do campo progressista.

No entanto, a greve não conseguiu paralisar o país. E a nossa cidade, Ourinhos, foi exemplo de como o dia 14 de junho passou despercebido para a imensa maioria.

Na cidade, a organização do ato contou com a participação de quinze instituições sindicais, estudantes e movimentos sociais. Para o dia 14, esperava-se uma mobilização mais numerosa do que as dos dias 15 e 30 de maio. Afirmava-se até que haveria paralisação do transporte público e do comércio no período das 8h às 11h.

Contudo, na manhã da sexta-feira, 14, a praça Mello Peixoto contava com a presença de cerca de 40 pessoas e com todo o comércio funcionando normalmente. Estavam lá líderes sindicais, trabalhadores, políticos, representantes de movimentos, estudantes, porém em quantidade muito menor do que o número desses atores sociais em nossa cidade – que são justamente os alvos dos ataques políticos que motivaram a greve.

“Por que não estavam lá?” Precisamos pensar um pouco sobre o que acontece em nossa realidade social, localmente.

De nada serve apelarmos às respostas rápidas e ao moralismo, eles não cabem bem no campo progressista e não deveriam ser alimentado entre nós. (Comodismo, preguiça e indiferença podem, sim, ter participação nisso, mas muito pequena). Estamos falando de um fenômeno social, traços morais não são suficientes para que o compreendamos.

“Vamos lá!” – Lembremos que “ideologia” é produção cultural com fins de manter a sociedade capitalista do jeito que ela é. Para que um sistema fundamentado na exploração da força de trabalho, do tempo e da existência das pessoas se mantenha em pé, é preciso que elas sejam educadas para acreditar nisso desde o nascimento. A ideologia modela nosso sentir, pensar, amar, desejar, conhecer. Faz com que enxerguemos aquilo que interessa aos grupos dominantes e não vejamos elementos da realidade, que podem até estar à nossa frente, como um ponto cego. Pode até fazer a gente enxergar o que não existe.

Em lugares com maior diversidade cultural e educacional, as contradições da ideologia correm o risco de ficar mais evidentes e há maior produção do que podemos chamar de contraideologia.

No nosso interior, em que 75% do eleitorado (que não se absteve) votou em Bolsonaro, a ideologia é algo mais seco e empoeirado, como nosso clima. O dia a dia é mais previsível, os meios de se informar são os de sempre, a pobreza e a violência estão do outro lado da estrada ou da linha de trem. As relações são agrestes e pautadas pelo conservadorismo moral; apego a modismos midiáticos; fé cega em instituições como família, casamento e religião; crença obstinada no trabalho duro e servil; fatalismo; patriarcalismo e machismo.

Isso abafa o descontentamento à direita e à esquerda.

O primeiro aspecto a ser considerado é a coibição à participação. Por mais que esteja claro que a participação em uma paralisação é um direito (está na Constituição!) de todo trabalhador, a maioria esmagadora tem medo de uma demissão. Além disso, existe a coerção familiar, nas redes sociais e nas ruas, no momento da mobilização.

Outro elemento importante é a falta de uma unidade política na esquerda. Não temos posicionamento consensual sobre quase nada (essa é uma verdade e os porquês ficam para outra hora). “É construtivo ou não o ‘Lula Live’ na greve geral?”, “É o momento?”, etc e tal, e a esquerda não conversa… Isso reflete a liberdade política do campo progressista, mas dificulta a ação por pautas comuns.

As diferenças ideológicas que deveriam prover espaço para debate se convertem em limitações quando interesses, preconceitos ou conservadorismo de alguns contaminam o debate e o transforma em tentativa de subjugação do outro.

Há mútua dificuldade de diálogo e cooperação entre instâncias tradicionais da esquerda, como sindicatos e partidos políticos, e os novos atores sociais, como os movimentos identitários.

“Que tal uma reunião do coletivo feminista com o sindicato que não pratica representatividade feminina?”

Os jovens que se interessam pelos ideais progressistas veem com desconfiança os grupos tradicionais, enquanto estes grupos têm dificuldade em dialogar com as demandas que são importantes para a juventude no século XXI.

Tá na hora de começar a conversar!

Essa fragmentação, que não é nova, foi exacerbada pela sedução extremamente eficiente da ideologia dominante ao nos reduzir a fragmentos. Cada um é empurrado a cuidar do seu no dia a dia; a relaxar vendo séries elaboradas para o gosto de cada grupo social e orientação ideológica; a sofrer e gozar em sua bolha informacional e tecnológica. Tudo gira em torno de cada centímetro vivido, de cada esgar de sentimento, de cada molécula de um corpo que não tolera espera.

A ação pela coletividade fica em segundo plano, apenas no “falar”. Fala-se muito, principalmente ou só, pelas redes sociais. O “fazer” fica para os dias em que “se está a fim”, “não se está na bad”, para quando der.

“Tá todo mundo mal!” – Uma melancolia se derramou sobre todo o campo progressista (ourinhense e de todo o resto). Com a eleição de Bolsonaro, tornou espesso o pó seco, fez com que seja difícil se livrar do desânimo pegajoso, da vontade de ficar trancado no quarto xingando, pela Internet, neoconservadores que muitas vezes sequer são reais…

Não tem olho no olho, não tem diálogo com o trabalhador, com quem está fora d”a bolha”, com quem não é atingido pelos algoritmos do “Quebrando o Tabu”.

E aí, não tem greve geral, não tem paralisação.

Todos continuam trabalhando, continuam comprando, se endividando, pagando impostos e alimentando o sistema. Não incomodam ninguém, não abalam as movimentações do Congresso Nacional e, assim, a reforma, os cortes e o regresso continuam.

Por: Luiz Bosco e Eduarda Schuh