Artigo – Sobre homens e o Feminismo

Maicon (Jet)

A sociedade tem, nos últimos anos, se deparado com problemas diferentes devido ao acesso à internet, mesmo que o acesso à ela traga mais benefícios que malefícios, a adaptação da sociedade que viveu antes da internet a essa nova sociedade que vem com ela de berço, tem trazido conflitos quase invisíveis, e que devem ser ressaltados para que as pessoas possam se entender nas lutas por equidade.

Depois de mais de 20 anos de acesso à internet, o foco dos problemas nas telas mudou muito (e é preciso levar em conta que até a década de 90, notícias regionais e nacionais se viam apenas nas folhas dos jornais físicos e televisão, isso dificultava a visão sobre outros problemas, visto que nem toda a população tinha acesso e vontade de ter o acesso a essas informações.

Nessa época, quase 30 anos atrás, o foco era o cotidiano, os afazeres do dia a dia, os trabalhos informais – os índices de desemprego já eram absurdos-, as poucas condições da grande maioria da população, tanto para comparar um jornal diariamente quanto parar para comprovar a veracidade de uma notícia da TV, dificultavam a reflexão coletiva sobre temas sociais), hoje, acredito que a maioria da sociedade não tem entendido as divergências que se escancaram principalmente em redes nacionais.

As brigas mais sérias entre amigos há 25 anos atrás eram sobre coisas banais como por exemplo que jogador era melhor, que time era melhor, havia em boa parte da população – essa com a informação mais limitada-, um consenso de que “todo político” era ladrão, e isso não se discutia, se concordava e se votava nas urnas de acordo com o que se ouvia mais, amigos não brigavam por ideais sutilmente diferenciados na política, não se discutia problemas sociais e nem havia informação pra adentrar esses assuntos, portanto não havia esse interesse também. Hoje, as coisas estão diferentes, e tudo tem uma profundidade à qual boa parte da sociedade não está acostumada a “ter” que se preocupar.

O machismo é uma das centenas de coisas que se escancararam nas diferentes telas da sociedade ao longo desses quase 30 anos de internet. Coisas que há séculos são ditas sobre o abuso às mulheres e à homossexualidade (não vou nem falar sobre racismo, esse é um assunto que merece um texto exclusivo sobre), coisas que foram ignoradas e “normalizadas” para que a sociedade passasse a relevar, hoje têm seu absurdo, incoerência e injustiça expostos, exemplificados e justificados com o acesso às informações na internet.

Essas mudanças causam uma reflexão àqueles que se atentam à esses fatos. Quando uma pessoa (geralmente homem) percebe que tem atitudes mínimas ao longo do dia mas que ao ler um artigo, uma reportagem, um relato, um documentário, qualquer coisa explicando, demonstrando, justificando o porquê daquilo ser machismo, a primeira coisa que vem à sua cabeça (pulando a parte da negação, isso vem à cabeça só depois de se admitir “sou machista”) é: “Como faço para mudar isso em mim?”.

“Se colocar no lugar do próximo”, é uma das frases mais repetidas da humanidade eu nem sei a quanto tempo, mas acredito ser uma das frases mais ditas da boca pra fora também. O ser humano tem uma dificuldade imensa em se imaginar passando pelo que o outro passa, e há inúmeras explicações para isso, desde a sobrevivência da espécie à criação à que somos submetidos, e isso precisa mudar. Não somos mais as pessoas que não tinham como comparar notícias, verificar veracidades, comparar dados ou lados das histórias, a internet veio enterrar essas limitações, e isso causou, causa e causará sempre a necessidade de refletir sobre quem somos, quem a vida nos tornou e quem queremos nos tornar.

“Mas há exageros das feministas na luta contra o machismo”. Leia a Bíblia. Faça as contas de há quantos anos (isso antes mesmo da Bíblia) as mulheres são abusadas com todo tipo de coisas, desde olhares a agressões mais que horrendas. Elas não estão exagerando nem um pouco. E a questão a que me refiro nem é tanto às “desculpas para não apoiar o movimento feminista”, mas à negação do machismo. Hoje podemos avaliar-nos de forma mais efetiva, e digo de antemão para você que lê, somos machistas sem nem percebermos, e digo isso com total certeza e segurança. E sabe como tenho tanta certeza?

AMIZADES COM MULHERES. Amizades com mulheres, feministas e não feministas. Nessa hora, ou desde o começo do texto, provavelmente veio a frase na cabeça de quem lê: “há, mas você é homem, não sabe do que está falando”. Exato, eu sou homem, hétero, branco, cis, classe média baixa e admito ser machista. E acredito ser muito necessário homens como eu dizer o que eu digo aqui a outros homens, pois tenho a convicção de minha obrigação ética de aprender com minhas amizades sobre os meus erros para corrigi-los. Eu só admiti ser machista de verdade quando amizades com mulheres, feministas ou não, passaram a fazer parte do meu cotidiano. Antes sempre vinha, após uma piada machista, um “fazer o que? As coisas são assim”. Hoje eu já penso diferente. Não nego que ainda há piadas e atitudes que eu sei que não deveria fazer mas faço, mas só o fato de admitir estar errado e deixar de fazer certas coisas como passar do tempo, já me deixa mais confortável comigo mesmo. E isso só mudou após entender, após conviver, após ter que ajudar minhas amigas em situações machistas. Me colocar no lugar delas dói demais. Não são vidas fáceis. São vidas banhadas a inseguranças, medos, raivas, ofensas gratuitas, desrespeito em pequenos detalhes e em grandes agressões, velados e disfarçados.

Sim, sou um homem falando sobre machismo, num meio onde milhares de mulheres falam e não são ouvidas, isso me deixa mal comigo mesmo. Me deixa mal querer ser ouvido quando tantas mulheres gritam, berram todos os absurdos que acontecem todos os dias de suas vidas e são ignoradas. Mas eu acredito que parte da solução vem daí. Nós homens só enxergamos o machismo em nós, quando temos uma amizade verdadeira com quem é atingido diretamente pelo (nosso) machismo e não queremos machucar essas pessoas com nossas piadas e atitudes passadas tradicionalmente pela sociedade.

Nessa hora, é que se vê como somos ofensivos, desrespeitosos, injustos, e mostra como é difícil nos relacionar sem sermos machistas, e isso causa um medo gigantesco. Medo de não se adaptar, medo de ver, sem querer ver, o mal que fazemos para quem gostamos. E eu sei que é daí que vem a mudança.

“A sinceridade consigo e com o próximo é sempre o melhor caminho”, mas essa frase é unilateral e pende para quem é perfeito (o que é simplesmente inexistente). Quando a sinceridade mostra nossos piores lados, e não mostra uma solução, nós entramos em desespero. E esse medo ninguém quer. Mas é o medo mais necessário que existe. Encarar nossos erros e buscar formas de mudá-los deveria ser um dos principais objetivos de nossas vidas. O machismo hoje está escancarado na internet, seus absurdos, suas incoerências, sua fragilidade, e só agora é possível mudar essa realidade implantada por centenas de anos como uma coisa normal. O que falta por enquanto é o diálogo. O que falta é a vontade de escutar o que o outro diz, não para responder, mas sim para entender. E falta também perder o medo de aceitar uma nova situação, onde principalmente os homens, vão se encontrar em um terreno novo na sociedade, sem o apoio das gerações anteriores, naquela situação quando, dentro de um ônibus cheio de homens cansados de seus trabalhos, voltam para casa fazendo comentários machistas e de alguma forma, conseguiremos dizer “não, eu não concordo”.

Não é fácil sair da zona de conforto. Mas imagina nunca ter uma zona de conforto, é isso que as mulheres sempre viveram. Coloquemo-nos no lugar delas, isso vai mostrar cinquenta por cento do que precisamos mudar em nós mesmos. Mas indo um pouco mais fundo, uma outra coisa precisa ser observada, e não só pelos homens, mas pelas mulheres também. O feminismo luta por equidade, logo, para que essa visão seja expandida e ganhe força, homens e mulheres tem de estar juntos nisso. As mulheres fazendo sua presença ser cada vez mais reconhecida, e os homens notando seus erros e corrigindo-os o mais rápido possível. E, como é um movimento de inclusão, segregações não podem acontecer.

Os homens que entendem realmente o feminismo, ficam geralmente contidos, com medo de dar suas opiniões em quase todos os assuntos que envolvam esse tema. Por um lado, isso não está de todo errado, acredito que aprendemos muito mais ao ouvir que ao falar, mas o feminismo não vem para diminuir os homens perante as mulheres, ele vem para trazer equivalência a todos, fazer com que a distinção de sexo seja diminuída e as pessoas sejam vistas como pessoas. O medo de se expressar impede que muitas ideias possam se desenvolver. As mulheres passaram por centenas de anos tendo esse medo, e quando a coragem finalmente surgiu, o feminismo ganhou força e esclareceu os erros que antes eram encobertos pelas sociedades. O medo de se expressar, de falar, dar opiniões não deve ser encorajado. Assim como o medo de admitir estar errado não deve ser cultivado.

Esses são minúsculos fatores para que se crie uma reflexão maior sobre um assunto que é urgente depois de anos de alienação e transformação de absurdos em normalidades. O acontecimento da internet expandir a visão de mundo das pessoas, é um acontecimento que mexe com as poucas pessoas que detêm o poder, e historicamente, essas pessoas tendem a tirar esses meios de reflexão da sociedade, então o acesso às informações que temos hoje, é alvo de constante ataque e não sabemos quando será dificultada ao extremo (novamente). Momentos como os dos últimos trinta anos, de acesso livre a tantas informações, a sociedade em que vivemos pode passar a não ter por centenas de anos se perdido. É preciso atenção ao cerceamento dos meios de acesso à informação para que debates sobre o feminismo, o machismo, o racismo, o desfavorecimento intelectual e social, e tantos outros assuntos de mesma importância, possam continuar fazendo parte do nosso dia a dia, pois só assim as mudanças positivas poderão continuar surgindo.

Maicon (Jet), 26 anos, Ourinhense, músico, estudante de Letras na Uenp. Busco trazer por meio de uma linguagem mais cotidiana, fatos e reflexões sobre coisas que necessitam de atenção, abrindo sempre porta para debates que possam construir caminhos mais claros de forma simplificada.