Boletim da Diocese de Ourinhos divulga artigo: “Transexualidade é transtorno de personalidade”

De mês em mês, a Diocese de Ourinhos publica um boletim informativo para a comunidade ourinhense. No entanto, o que chamou atenção na edição nº 116 maio-junho de 2018, em circulação nas paróquias, foi o artigo de um psiquiatra americano sobre transexualidade.

O artigo publicado pela diocese ourinhense reforça a ideia da transexualidade como uma doença. O Dr. McHughps, autor do texto e do estudo compara o transexual a uma pessoa que sofre de anorexia.

Link do artigo: https://pt.churchpop.com/psiquiatra-americano-diz-que-transgeneridade-e-na-verdade-um-transtorno-de-personalidade/

As ideias publicadas no estudo vêm, justamente, em contramão à última grande decisão da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Nesta segunda-feira, 18, a nova edição da Classificação Internacional de Doenças (CID) foi atualizada e publicada. Resultado de muitos estudos e da luta contra transfobia, a determinação da OMS retirou a transexualidade da classificação como doença, entrando, agora, na lista de “saúde sexual”.

Em entrevista, o psicólogo ourinhense, especialista em Psicologia Escolar e Educacional, doutor em Psicologia e professor do curso na FIO, Dr. Luiz Bosco, fala sobre a importância desta decisão: “A OMS, finalmente, corrige um erro histórico, o de classificar a transexualidade como patologia.”

“As pessoas transexuais não se identificam com o gênero com que nasceram e foram criadas. Isso provoca intenso sofrimento, um sentimento de se estar desajustado(a) no mundo. Ela olha para o espelho e não reconhece aquele corpo como seu. Mas nada disso é doentio por si. Trata-se de um comportamento sexual como qualquer outro.” — esclareceu.

O Dr. Luiz Bosco, ainda, explicou a imposição da heteronormatividade: “Tomar a transexualidade como doença é uma visão pautada na heteronormatividade, que é a designação para a visão de mundo de que apenas a heterossexualidade é ‘saudável’ ou ‘correta’. É, também, uma forma de exercer poder sobre as pessoas. A heteronormatividade exclui da sociedade as pessoas que fujam dos padrões dominantes e as classifica como doentes ou, até mesmo, como indignas de viver.”

O artigo publicado pela diocese é um grande exemplo do uso de textos cientificistas na propagação de ideias preconceituosas de heteronormatividade. O documento está por toda a internet, em páginas cristãs do Facebook e em sites e blogs que exprimem discursos conservadores.

O artigo científico, no entanto, não foi publicado em nenhuma revista científica de renome.

Capa e artigo na edição do boletim da Diocese de Ourinhos

Posicionamento do Bispo – Em nome do Jornal Contratempo, entrei em contato com a Diocese e conversei com a maior autoridade e representação da Igreja Católica na região, o Bispo Dom Salvador Paruzzo.

Resultado de imagem para bispo dom salvadorBispo Dom Salvador Paruzzo / Foto: Diocese Ourinhos

Dom Salvador declarou ser o responsável pelas edições do Boletim Informativo e esclareceu o seu posicionamento e intenção ao publicar o artigo.

Durante a conversa, Dom Salvador valorizou a importância de esclarecimentos de especialistas sobre os assuntos que dizem respeito a comunidade e a família. Afirmou estar ciente sobre a recente decisão da OMS e explicou que a mídia apresenta ideias e o papel da Igreja é de esclarecer verdades à comunidade. Declarou que acredita na existência de uma “ideologia de gênero” que vem sendo imposta sem nenhuma base médica ou científica.

Ao ser questionado sobre o motivo da diocese usar o artigo de um cientista para estender um ideal religioso, o Bispo esclareceu que, mesmo sendo de ambientes diferentes, a religião e a ciência devem conciliar-se para levar reflexões sobre informações que são espalhadas pela mídia. Ainda acrescentou que, seguindo os ideais católicos e a Palavra, a figura idealizada por Deus é do homem e da mulher e “nada mais que isso”.

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Papa Franscisco recebeu o transexual espanhol, Diego, que havia enviado-lhe uma carta; respondeu e convidou-o para sua residência de Santa Marta. Diego contou que ao pedir a Francisco “se havia lugar” para ele na casa de Deus, ele o abraçou.

Reportagem do jornal El País sobre o encontro de Diego com o Papa Francisco: https://brasil.elpais.com/brasil/2015/01/27/internacional/1422355975_624238.html

Um dos trechos do artigo, “[…] a apologia do ‘tudo é normal’ presente na educação sexual, e aos ‘gurus da diversidade’ que habitam as escolas, que, como ‘líderes culturais’, podem incentivar estes jovens a se distanciar de suas famílias e oferecer conselhos sobre como rebater argumentos contrários à cirurgia transexual”, mostra como os discursos do “estudo” reiteram ideias transfóbicas que diminuem todo enfrentamento e o processo do reconhecimento de uma pessoa transexual à influências externas de “gurus da diversidade” ou causa de um “distanciamento da família.”

O texto em circulação para a comunidade católica e a população ourinhense, além de dificultar ainda mais o entendimento sobre a transexualidade e incitar transfobia, contrapõe o posicionamento de duas grandes representações mundiais: a Organização Mundial da Saúde e o maior representante clerical da Igreja Católica e das ideias de tolerância e amor do mundo, o Papa Francisco.

Eduarda Schuh

20 anos e ourinhense de coração. Caloura de Jornalismo na UNESP de Bauru. Aspirante a jornalista há algum tempo. Procurando um caminho para um mundo mais igual há ainda mais tempo. Contra qualquer tipo de exclusão e elitização, escrevo para quem precisa entender. Feminista e reformista, procurando os erros e acertos.