Coluna: Luiz Bosco — O verdadeiro risco Venezuela

Luiz Bosco

Nosso risco não é de o Brasil virar uma Venezuela. O perigo que envolve o país vizinho é outro.

Desde o fim da Guerra Fria, temos visto as potências econômicas e militares se envolverem em conflitos pelo poderio sobre o controle do petróleo. Como a opinião pública internacional não vê com bons olhos ações assumidamente imperialistas, a principal potência, os EUA, tem se esmerado para aprimorar práticas de dominação sobre países produtores de petróleo que não se alinhem a seus interesses.

Os ataques do 11 de setembro foram o mote para a invasão do Afeganistão em 2001 e a ocupação se mantém até hoje no país em que se acredita haver vastas reservas de petróleo (e possui grande produção de papoula). Até 2015, calculavam-se 220 mil mortos no Afeganistão e 80 mil no Paquistão, seu país vizinho.

O Iraque foi invadido duas vezes pelos EUA, em 1990 e 2003; na segunda vez, a justificativa foi de que o então líder iraquiano Saddam Hussein possuísse armas de destruição em massa e isso resultou em uma ocupação que deixou de ser temporária e se mantém até hoje, resultando na morte de Hussein e de cerca de 1 milhão de iraquianos.

Outro exemplo é o da Síria, que era apontada, na primeira década de nosso século, como a próxima a ser invadida. Ali interesses russos e estadunidenses se digladiam desde 2011 por petróleo, gás e facilidades para transporte desses produtos, deixando um rastro de destruição e morte.

A Líbia passou pela derrubada de Gaddafi em 2011, seguida de uma guerra civil, que se repete de 2014 até agora, com notícias de que tenha deixado de ser um país próspero para se tornar ponto de tráfico de escravos.

É preciso lembrar que esses dois últimos conflitos vieram na esteira da “Primavera Árabe”, suposto movimento “espontâneo” de libertação contra “regimes ditatoriais”. O roteiro envolve manifestações públicas que vão ganhando corpo pelo país, com grande visibilidade da grande mídia internacional, informações sensacionalistas e incoerentes disseminadas pelas novas mídias, seguidas de confrontos entre “forças rebeldes” e o “exército ditatorial”, que terminam por mergulhar o país em sangrenta guerra civil.

Em relação a isso, os EUA adotam discurso confuso, em que se colocam ao lado da “liberdade” ou de “causas humanitárias”. Notícias de ataques contra alvos civis, cuja autoria é obscura, reforçam a tese de “guerra híbrida”: as potências estão ativamente agindo para desmontar governos de países produtores de petróleo, ou de posições estratégicas, que não se alinhem a seus interesses.

Não estamos em guerra civil, mas o roteiro é preocupantemente semelhante no restante. A confirmação de que o pré-sal colocaria o Brasil em posição privilegiada no que diz respeito à produção de petróleo, colocou-o na rota de interesses e vimos a mobilização midiática e o incentivo a movimentos aparentemente espontâneos, desde 2013, que resultaram na derrubada da presidenta Dilma em 2016.

A Venezuela é grande produtora de petróleo e alvo de animosidade por parte do governo estadunidense há tempos. Vem sofrendo convulsão social sistemática, com indícios de participação de grupos externos (lembremos da caravana de Aécio Neves a Venezuela em 2015). O governo Trump tem dado sinais de estar articulando uma ação militar no país.

O recém-eleito presidente Jair Bolsonaro é franco adepto da agenda estadunidense e de Trump. A evidente militarização de seu governo, o discurso abertamente anti-Venezuela, a bizarra declaração sobre a Amazônia “não ser nossa”, em 18 de maio, e a vinda de 96 blindados dos EUA, em 11 de outubro, são sinais de que nosso risco não é o de virarmos uma Venezuela, mas de sermos empurrados a uma guerra fratricida cuja única finalidade é satisfazer a sanha imperialista.

A Venezuela teria o mesmo destino dos países invadidos no Oriente Médio e o Brasil arcaria com um duplo custo: além de desperdiçar vidas e recursos numa empreitada belicista, teria inevitavelmente de suportar a tragédia humanitária da fuga de venezuelanos para nosso território (o que já acontece, e o presidente eleito afirmou, em 24 de agosto, que solucionará o impasse com a criação de “campos de refugiados”, provavelmente seguindo o modelo dos campos de Trump para latinos).

O que está acontecendo em nosso país é parte de uma estratégia global de dominação para, mais uma vez, os países ricos tomarem os recursos dos países pobres. Cabe a nós tomarmos consciência disso e não permitir que nossas vidas, nem de nossos irmãos venezuelanos, sejam desperdiçadas por causa da cobiça.