Coluna Luiz Bosco: Por uma Gramática crítica e libertadora

No dia 28 de abril, na conta do Twitter oficial da Presidência da República, foi publicado um vídeo em que uma suposta aluna de cursinho “denuncia” uma professora que criticava o governo e seu mentor, o autointitulado filósofo Olavo de Carvalho, durante uma aula de Gramática. Descobriu-se que a “denunciante” é secretária-geral do PSL (partido de Bolsonaro) de um município do Interior de São Paulo. No vídeo, afirma que paga por aula de Gramática e não para ouvir a posição política da professora.

É possível o ensino de qualquer conteúdo descolado da realidade, sem fomentar o debate, sem “provocar” o alunado para que pense sobre a sociedade, incluindo os poderes nela instituídos e os atores públicos envolvidos?

Estamos acostumados a pensar nos conteúdos escolares como “neutros”. No caso da Gramática mais ainda, pois nos parece um amontoado de regras “exatas” e alheias a contexto social e histórico.

Contudo, não é assim.  

A Gramática moderna é parte de um projeto de se estabelecer idiomas oficiais para os países que se consolidavam como nações a partir do século XVI. A língua passou a ser padronizada, inclusive por Lei, e seu ensino universal segue esse padrão. O propósito é fortalecer a identidade nacional, excluindo outros idiomas e variações regionais, geralmente ligadas a grupos minoritários ou a povos submetidos.

Assim, o uso da norma culta é tido como o parâmetro para situações formais. É um símbolo de posição social e distinção. Fazer outros usos da língua, que subvertem os padrões impostos, é uma prática de resistência política e cultural bastante conhecida. A disputa pela linguagem é uma das mais renhidas nos embates ideológicos de nossa época.

Não há uma Gramática neutra politicamente. Ela surge a serviço de um projeto de poder e a ele se mantém fiel. O seu ensino preso a regras e sistemas, ao mero conhecimento do “certo e errado” do idioma não é um modo “neutro” de ensiná-la. É apenas proporcionar uma experiência conformista, não questionadora e presa a uma faixa muita estreita diante da riqueza de possibilidades de uso que qualquer idioma nos oferece.

Está relacionada a isso uma das maiores dificuldades no Ensino “de Português”, que é a prática conteudista. O que isso quer dizer? As aulas têm como centro a transmissão de conteúdos prontos, ditados pelo Estado e que vêm adaptados em cartilhas e apostilas, não importa se estamos falando do Ensino público ou privado. Tudo vem rigidamente dividido em disciplinas e apresentado como “conhecimento puro”, cuja relação com a vida é, muitas vezes, difícil de estabelecer.

A queixa mais frequente de estudantes é a de que as aulas são maçantes por não terem relação nenhuma com a realidade deles, com o mundo prático, com as necessidades de hoje e de seu futuro (incluindo a formação para uma profissão). Pesquisadores afirmam que essa queixa tem fundamento. De Paulo Freire a Edgar Morin, passando pelas propostas para a Educação da megacorporação Google, é praticamente consenso que o Ensino está muito distante das exigências reais da vida.

Geralmente, o contato com a Gramática é distante do dia a dia de crianças e adolescentes usuárias de um linguajar que é uma complexa mistura de gírias, jargões e memes.

A aprendizagem do uso formal da língua é indispensável, não temos dúvida disso. Contudo, precisa partir do mundo vivido pelo alunado, com o uso de expressões, palavras e situações de seu entorno, de sua convivência e de suas preocupações.

Paulo Freire falava de temas geradores: a busca por elementos da realidade dos estudantes para alfabetizá-los a partir do que lhes é familiar. Com isso, construiu um dos métodos mais eficientes do mundo (infelizmente, sem muitas oportunidades de aplicá-lo no Brasil, ao contrário do que dizem grupos contrários a seu método).

Essa abordagem não somente ensina o conteúdo, como o relaciona com a vida e leva à reflexão sobre os problemas que nos afligem. É impossível nos aproximarmos da vivência concreta sem pensarmos em nossos sofrimentos e sem refletirmos sobre as suas causas, sejam individuais, sejam políticas e econômicas.

O próprio ensino de Gramática é um ato político por si só. Restringir-se ao ensino de suas regras é uma escolha por manter as coisas como estão e se submeter ao uso da língua como instrumento dos poderes estabelecidos.

Escolher utilizar seu ensino para debater sobre nosso mundo, criticar as injustiças sociais, comentar os desmandos dos poderes estabelecidos, não é desvio do seu propósito. Pelo contrário, é o cumprimento de todo seu potencial transformador e da missão da Educação, que é formar pessoas pensantes, cidadãos ativos, mulheres e homens comprometidos com a Justiça e a Igualdade.

Defendamos nossas professoras e nossos professores de Gramática. O bom conhecimento do idioma é indispensável para uma existência plena e transformadora. E defendamos quem leciona qualquer área. É momento de estarmos juntos pela Educação que liberta, que emancipa e humaniza.