Desconstruir “o mito”: a honestidade de Bolsonaro a partir da sua atuação na Câmara    

Luiz Otavio

A partir de uma figura que representa perfeitamente o perfil dos deputados federais do Brasil (com influência popular, cheio de boas vontades e um discurso moralista e conservador), podemos entender um pouco do funcionamento da Câmara dos Deputados.      

Carlos Massa, o Ratinho, apresentador do SBT, foi deputado federal de 1991 a 1995 pelo PRN, o mesmo partido do Collor. Ratinho foi um dos deputados mais faltosos e não conseguiu aprovar projetos relevantes. Ratinho desistiu de sua carreira política.    

Em junho passado, numa entrevista ao Amaury Júnior, o apresentador reclamou do funcionamento da Câmara e dificuldade na aprovação de projetos pelos deputados do chamado “baixo clero” — deputados com pouca influência na Câmara.     

Segundo Ratinho, ter sido deputado federal foi a ”pior coisa que fez na vida”, pois, nas suas palavras ”o eleitor acha que você tem algum poder, mas se você não faz parte do time, você não consegue nada”. Ratinho, conheceu por dentro o sistema político e seu funcionamento, e achou que seria mais honesto abandonar a política do que enganar seus eleitores.    

Jair Bolsonaro, integrante do “baixo clero” também não aprovou nada de relevante em quase 30 anos de vida pública. A diferença entre Ratinho e o ex-militar reside no fato de que Bolsonaro não teve a mesma vergonha na cara de Ratinho. Responda com sinceridade: você acha correto um cidadão receber mais de 30 mil reais de dinheiro público por mês sem produzir nada em troca? Será que isso também não seria uma forma de corrupção?    

Ainda que não seja ilegal, aceitar participar de um sistema que lhe exclui e continuar insistindo em participar disso assim mesmo são atitudes imorais e inescrupulosas. Recentemente, o atual candidato à presidência, no programa Roda Viva, foi confrontado sobre sua baixa produtividade e mentiu: ”apresentei mais de 500 projetos”. Ao ser rebatido com a verdade: ”foram só 168, deputado”, Bolsonaro, de maneira infantil, retrucou: ”que seja”.   

Os eleitores de Jair alegam que ele foi “boicotado” e é uma vítima do sistema. Logo eles que adoram falar em ‘”vitimismo” e meritocracia. Ele não deveria ter se esforçado mais? Ao invés de ter sido um dos mais faltosos, ele não deveria ter trabalhado mais para aprovar os projetos? Teve 30 anos pra descobrir uma maneira de superar esse obstáculo, mas agora prefere dizer que foi boicotado.     

Além disso, o deputado defende “menos Estado”, mas vive às custas de um cargo público. Bolsonaro preferiu continuar sendo um deputado de mãos amarradas a trabalhar de verdade.   

A maior prova de que o candidato à presidência não se incomodou durante todos esses anos, com essa suposto ”boicote opressor do sistema político”, é que ao invés de sair deste ambiente, como fez o Ratinho, ele colocou mais gente dentro da carreira política: irmão, ex-esposa, todos os Bolso Junior e a Wal do Açaí, funcionária fantasma.    

Esse é Jair. Um falastrão com discurso moralista-cristão-militarista que só se elege graças a uma certa parcela de desinformados e saudosistas, de um período onde qualquer coisa negativa sobre os ditadores governantes — incluindo, corrupção, pobreza e violência urbana — era censurada.   

Jair Bolsonaro é um sujeito cuja trajetória política foi quase toda construída dentro do PP, partido do Paulo Maluf, aquele que assumia que roubava (rouba, mas faz).  Ainda, depois de tantos anos aliado do Maluf, ele disse que gostaria de ter mais convivência com mais um figurão da corrupção, Eduardo Cunha.  Ou seja, assumiu que tem bandido de estimação.    

Sem esquecer do dinheiro da Friboi, né! A empresa depositou R$ 200 mil na conta do Sr. Jair. Ele devolveu a grana pro PP; e aí, o PP depositou R$ R$ 200 mil na conta do Sr. Jair. É assim que acontece uma lavagem de dinheiro.   

Viemos tentando desconstruir “o mito” com argumentos chamando a atenção para o seu discurso de ódio e intolerância. Contudo, uma parcela da população pouco se importa se ele acredita que “mulheres devam receber salários menores porque engravidam” ou se ele “espancaria um filho gay”. Ao contrário, para a maioria, esses são pontos positivos de Bolsonaro.  

Segundo analistas, uma parcela significativa de seus eleitores e dos indecisos nesta eleição, deixariam de votar em Jair Bolsonaro por conta de seu despreparo e sua falta de soluções para problemas que atingem diretamente a população, nas áreas de saúde, educação e geração de empregos. Muito além de ideologia e defesa dos direitos individuais.   

É do conhecimento de todos o fato de Bolsonaro ser homofóbico, machista, racista, de não respeitar a democracia, etc. Infelizmente, o processo para que estas sejam consideradas características ruins é ainda muito longo.  

No entanto, há uma tecla a se bater: colocar fim na afirmação de que esse sujeito é um cara decente, trabalhador e de moral elevada. Jair é só um espertalhão que enriqueceu no sistema político corrupto, sistema que ele condena. Sem oferecer nada além de “frases polêmicas” e “piadinhas” estúpidas e preconceituosas.  

A pergunta que fica é: se aproveitar desse sistema, participar dele e ficar, durante tantos anos, ganhando sem oferecer resultados concretos e positivos de seu trabalho, também não seria uma forma de se corromper?   

Responda de forma sincera. E sem vitimismo, por favor.