‘Foi uma execução’, diz mãe de jovem morto por PM em Ourinhos

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Mãe de Bryan falou sobre a morte dele em reunião em SP

A mãe do jovem Bryan Bueno falou pela primeira vez sobre a morte dele em uma abordagem da Polícia Militar em Ourinhos. O depoimento foi dado em uma reunião na ouvidoria das polícias em São Paulo. (Veja o vídeo acima). Bryan, de 22 anos, foi atingindo por um tiro no pescoço disparado por um PM quando ele e mais quatro jovens estavam no carro e saíam de uma feira agropecuária que era realizada na cidade na madrugada do dia 9 de junho. A Polícia Militar afirma que o tiro foi acidental.

Valdinéia Pontes e os jovens que estavam com Bryan foram ouvidos pelo representante da ouvidoria na terça-feira (14). Ainda muito abalada, ela pediu justiça. “Para mim foi um assassinato, uma execução, por isso eu quero a ação da promotoria, do júri, para que esse caso seja julgado como um homicídio doloso e não culposo. Porque ele teve a intenção de matar o meu filho”, afirma a mãe.

Ainda de acordo com ela, os amigos contaram que Bryan não teve nenhuma reação e que foi tudo muito rápido. “O policial chegou pelo lado do Bryan e pegou ele pelo colarinho da blusa e com a arma na outra mão, mas os meninos disseram que foi tão rápido que ele (o policial) já chegou e atirou. O tiro passou pelo pescoço do meu filho, perfurou o coração dele e pulmão e atingiu o banco do menino que dirigia o carro, quase atingiu ele também. Ele (Bryan) num teve tempo nem de tirar o cinto, o tiro passou pelo cinto. Ele num teve nenhuma reação”, afirma.

A corregedoria da PM informou que o policial envolvido na ocorrência foi preso em flagrante por homicídio culposo, quando não há a intenção de matar, e já está liberado. Ele foi afastado do trabalho nas ruas até o fim das investigações. A arma que fez o disparo foi encaminhada para perícia. A corregedoria disse também que qualquer irregularidade no atendimento da ocorrência será investigada e punida.

O ouvidor das polícias, que presidiu a reunião, disse que vai encaminhar o caso ao Procurador Geral da Justiça pedindo que um promotor acompanhe a investigação.

“Nós vamos denunciar para que esses policiais que mexeram na cena do crime sejam penalizados. E quem vai julgar se houve uma execução vai ser o próprio povo de Ourinhos, por meio de um júri, e os indícios são grandes que houve uma execução. Mas para isso ser afirmado é necessário a denúncia e a pronúncia por um tribunal do Júri na cidade de Ourinhos”, afirma Júlio César Fernandes Neves.

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Família da vítima participou de reunião na ouvidoria das polícias

Imagens da abordagem
A Polícia Civil também abriu inquérito para investigar o caso e recebeu na terça-feira as cópias das imagens do circuito de segurança de um estabelecimento comercial próximo ao local do crime. O material estava com a Polícia Militar e foi entregue após o delegado responsável pelo caso enviar um ofício à Justiça solicitando as imagens.

Além das imagens, o delegado também recebeu um CD com os dados do processo militar que foi aberto para apurar o caso. O vídeo agora será analisado pela perícia civil e por um perito da Unicamp contratado pelo Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe), que também apura o caso.

Ameaça e direitos humanos
O caso também teve outros desdobramentos. Uma equipe do Samu que foi parada pelos policiais após Bryan ter sido atingido pelo tiro registrou um boletim de ocorrência em que afirmou que foi ameaçada pelos policiais para prestar socorro ao rapaz. Segundo informações da ocorrência, a médica e a enfermeira estavam com um paciente dentro da ambulância quando foram paradas pelos policiais.

A Polícia Civil anexou essa ocorrência às investigações e também vai apurar esse fato, que pode ser um agravante à conduta dos policiais. O fato chegou ao conhecimento do Conselho Estadual de Direitos Humanos. “Os policiais arbitrariamente pararam essa ambulância e fizeram o paciente sair para colocar o Bryan e isso ao nosso ver foi uma simulação para alterar a cena do crime, porque os próprios amigos disseram que ele já estava morto, que ele morreu no local, então eles quiseram simular um socorro e inclusive ameaçaram a médica com arma em punho dizendo que se caso ela não tirasse o paciente e colocasse o Bryan ela seria presa por desacato”, afirma Lúcio França, um dos representantes do Conselho.

Representantes do órgão conversaram com a família da vítima e com testemunhas, como os outros quatro jovens que estavam no carro. Depois de ter ouvido os depoimentos, o conselho disse que vai denunciar o policial à corregedoria da PM e à ouvidoria das polícias do estado.

“Nós vamos encaminhar essa representação à promotoria dos Direitos Humanos do Ministério Público e nós também iremos encaminhar a família até a Defensoria Pública para que ela possa entrar com uma ação para que eles possam pedir uma indenização à Polícia Militar e ao estado”, afirma Lúcio França, um dos representantes do Conselho.

A família pretende entrar com uma ação contra o policial militar que fez o disparo e contra o estado. Ainda esta semana estão marcadas reuniões em São Paulo com a promotoria de Direitos Humanos e a Defensoria Pública.