Funcionária pública que desviou milhões em Santa Cruz guardava recibos de doações de campanha do PSDB

Nas buscas realizadas pela Polícia Civil nas residências da servidora municipal Sueli Feitosa e de duas irmãs, no final de dezembro do ano passado, foram apreendidos milhares de documentos que os investigadores ainda estão analisando até hoje. No entanto, chamou a atenção alguns recibos de doações a campanhas eleitorais do PSDB, provavelmente preenchidos pela própria servidora. Sueli está presa há duas semanas e os documentos de campanhas foram encontrados na casa dela.
A servidora já confessou ter operado um esquema criminoso que desviou milhões dos cofres da prefeitura de Santa Cruz do Rio Pardo. A administração atual avalia um rombo de R$ 3,5 milhões, mas a Polícia Civil e o Ministério Público trabalham com cifras maiores, pelo menos o dobro do estimado até agora.
Para as investigações, foi crucial a busca nas residências de Sueli e das irmãs Aparecida e Camila, nos bairros Residencial Braúna e São Judas Tadeu. Autorizada pela Justiça, a polícia invadiu as três casas no dia 28 de dezembro, praticamente ao mesmo tempo, com equipes distintas. O elemento surpresa foi decisivo, já que constatou-se depois que muitos documentos de uma residência foram levados para outra, na tentativa de esconder provas. Além de computadores, os policiais apreenderam milhares de documentos.
Entre eles, há documentos ligados a campanhas eleitorais do PSDB. O delegado Renato Mardegan confirmou esta descoberta e disse que são recibos de doações eleitorais “recebidos por um representante da campanha e, em tese, feitos pela Sueli”.
Curiosamente, os recibos contém valores, nomes dos beneficiários e outras informações, mas não constam quem são os doadores. A Polícia Civil vai buscar dados no Cartório Eleitoral para aprofundar a descoberta.
Os recibos são referentes a campanhas eleitorais acontecidas há algum tempo — com certeza a de 2004 ou 2008, ambas vencidas por candidatos do PSDB e as duas lideradas pelo ex-prefeito Adilson Donizeti Mira (PSDB). Em 2008, Mira comandou pessoalmente a campanha eleitoral que elegeu sua então vice-prefeita, Maura Macieirinha (PSDB) como sua sucessora.
Já 2004 é uma data emblemática para o próprio Adilson Mira, que foi reeleito naquele ano para um segundo mandato. É que naquele ano estourou o caso ITBI, um escândalo de corrupção em que o próprio prefeito era acusado de receber propina de um empresário de Itápolis que recebeu estranhos incentivos fiscais na compra de duas fazendas no município.
Além disso, as contas de Adilson Mira e do diretório do PSDB de 2004 foram rejeitadas pela Justiça Eleitoral, com a decisão confirmada em todas as instâncias, inclusive o TSE — Tribunal Superior Eleitoral — em Brasília. Mira foi reeleito numa campanha considerada rica, mas na prestação de contas declarou à Justiça que gastou apenas R$ 36,13 para ser reeleito.
O PSDB revelou valores bem mais altos na campanha, mas também teve as contas rejeitadas. Na época, o presidente do partido era o ex-vereador Dorival Parmegiani, um dos mais próximos de Adilson Mira e nomeado seguidas vezes como assessor do governo a partir de 2005. Parmegiani morreu em 2010, vítima de um enfarte fulminante.

Investigações

Os milhares de papéis encontrados nas residências de Sueli Feitosa e das irmãs dela em dezembro ainda não foram analisados totalmente. O delegado Renato Mardegan disse que uma equipe de investigadores se debruça sobre os documentos desde que eles foram apreendidos, em 28 de ezembro do ano passado.
Muitos, considerados irrelevantes, estão sendo descartados. No entanto, há muitos extratos, escrituras de bens, notas de compra e venda e outros papéis que até hoje são estudados minuciosamente. Foi neste emaranhado de documentos que os recibos de doações a campanhas do PSDB foram encontrados pela polícia.


Sueli Feitosa pode ser trazida a Santa Cruz para novo interrogatório
Sueli Feitosa pode ser trazida a Santa Cruz para novo interrogatório

Sueli e cunhado serão
ouvidos mais uma vez

A servidora municipal Sueli de Fátima Feitosa e o cunhado dela, o empresário Adilson Gomes de Souza, serão interrogados novamente pela Polícia Civil de Santa Cruz do Rio Pardo. Os dois estão presos como envolvidos no caso de desvio de dinheiro público. Adilson teve a prisão decretada por atrapalhar as investigações, mas a polícia já sabe que ele foi um dos principais beneficiários do desvio criminoso. O empresário teve três caminhões apreendidos, além de outros veículos e bens bloqueados judicialmente.

O empresário Adilson Gomes, cunhado de Sueli, foi preso no dia 6
O empresário Adilson Gomes, cunhado de Sueli, foi preso no dia 6

Sueli Feitosa foi presa no último dia 8, depois de permanecer 40 dias foragida. Ela confessou ter operado o esquema criminoso, foi interrogada por nove horas e, depois, encaminhada para o presídio feminino de Pirajuí-SP. Os delegados planejam trazê-la a Santa Cruz do Rio Pardo para um novo interrogatório. O objetivo é ter maior liberdade, inclusive filmando o depoimento, o que não é permitido em presídios.

O mesmo acontece com o cunhado dela, Adilson Gomes, que está no presídio de Cerqueira César. No entanto, a polícia ainda estuda pedir autorização judicial para gravar depoimentos no interior do presídio.

Fonte: www.debatenews.com.br