“Hoje eu sou um estranho no ninho” Roberto Requião critica e expõe atual cena política brasileira

Em visita pela região do norte pioneiro do Paraná, Roberto Requião concede entrevista exclusiva ao Jornal CONTRATEMPO

 

No último dia 27 de outubro, na cidade de Jacarezinho/PR, o senador federal Roberto Requião (PMDB-PR) esteve presente e discursando ferozmente contra a atual cena política que o Brasil se encontra. Ele se considera um “estranho no ninho” dentro do PMDB, criticando principalmente colegas de partido como o presidente Michel Temer. Confira a entrevista completa que o Senador Requião concedeu ao Contratempo e as fotos do evento.

 

Contratempo: Senador, há muito tempo, numa época que gostaríamos que nunca tivesse existido em nossa história, a terrível ditadura militar, o senhor foi um dos organizadores pelo movimento “Diretas Já”. Como foi que tudo aconteceu?

Roberto Requião: Foi o primeiro comício brasileiro, em Curitiba, depois nós participamos de um comício em São Paulo. Na época foi eu e o velho José Richa que falamos no comício de São Paulo. Mas na verdade eu lembro sempre de uma declaração do Geisel, que tinha que devolver o poder para os civis, porque os militares estavam totalmente corrompidos. Fechada a ditadura, sem os instrumentos de fiscalização funcionando, o governo foi sendo precarizado, foi se corrompendo completamente. E hoje nós temos uma ameaça que é a ditadura de juízes e promotores. Que não querem obedecer a lei, eles querem fazer a lei. Mas eu não estou depreciando o trabalho que eles fazem de combate à corrupção, que é muito importante.

 

CT: O senhor acha que esse movimento pelas Diretas Já poderia dar as caras novamente pelo momento de crise política que estamos vivendo?

RR: Eu acho que o povo tá decepcionado com a política. Completamente. Veja, o congresso votou pelo impedimento das investigações contra o Temer, a volta do Aécio pro senado… Ninguém acredita em nada mais, isso é muito ruim. Mas há uma razão para isso estar acontecendo.

 

CT: Durante seu mandato como governador do Paraná, o senhor implantou o programa Bom Emprego, que gerou mais de 150 mil empregos diretos no estado. Quais exemplos os governantes atuais poderiam se utilizar através deste programa para retomar a economia?

RR: Eles não têm nada a ver com emprego. Eles têm com o lucro. Com os financiadores de campanha. Eles começaram acabando com todos os estímulos a geração de emprego, ao funcionamento das pequenas e médias empresas. Veja bem, no nosso governo o micro empresário não pagava imposto estadual. Hoje todos estão cobrando por antecipação. Tanto as micros quanto as pequenas empresas. É uma visão filosófica completamente equivocada. E, além disso, é uma corrupção brutal. Operação Voldemort, Publicano, Quadro Negro… Eu acho que isso vai acabar na penitenciária do Ahu.

 

CT: O senhor também participou do Projeto de Lei de Abuso de Autoridade, inclusive o tema gerou muita polêmica porque a grande mídia não teve interesse algum em divulgar do que o PL se trata. O senhor poderia explicar aos nossos leitores qual o teor deste Projeto?

RR: É o abuso de qualquer autoridade. Desde o fiscal de renda do município, até os quadrilheiros do estado e união, parlamentares, promotores, delegados de polícia, policiais, juízes… não tem porque um sujeito que faz concurso público se achar mais importante que os outros. Então esse projeto vai ser votado na câmara agora. Eu tive notícia hoje (27 de outubro) que o presidente da câmara vai coloca-lo em votação.

 

CT: O senhor também foi um ferrenho opositor a PEC dos Tetos dos Gastos e à Reforma Trabalhista. Quais as consequências desses projetos e como possivelmente reverter isso nos próximo governo?

RR: O governo tem que assumir o compromisso do referendo revogatório, submeter a população a todas essas concessões às empresas multinacionais, e essa escravização do trabalho… Tem que anular tudo o que esse governo fez. Não tenho nenhuma dúvida disso.

 

CT: Partindo para a questão da grande mídia, como controlar esse enorme poderio que ela tem sobre políticos e empresários?

RR: A grande mídia está subordinada ao capital financeiro. Não existe independência mais, não existe o desejo de informar, mas sim o desejo de iludir a população para esse projeto de prevalência do capital financeiro e fim do Estado Nacional.

 

CT: E como conseguir dar mais espaço e autonomia para os pequenos veículos que também querem seu espaço na mídia?

RR: Os pequenos veículos hoje, pelo menos os impressos, são inviabilizados principalmente pelo custo. Hoje a liberdade está nos meios digitais.

CT: Durante seu discurso hoje na reunião, o senhor falou muito sobre não ser um líder de governo, e sim sobre fazer parte da mudança do Brasil. O que quis dizer com isso?

RR: Nós precisamos fazer com que a população tenha informação, e que essa informação se transforme em consciência. Um país de analfabetos políticos não muda nada.

 

CT: Senador, a gente não pode deixar de comentar sobre o descaso que o governador Beto Richa está tendo com o Paraná e seus servidores. Qual sua opinião sobre a forma de governo de Beto Richa e como retomar a valorização dos servidores?

RR: Pondo essa gente toda na cadeia. A operação Quadro Negro, a operação Publicano, a operação Voldemort, na corrupção eleitoral, da inconsciência política, no desejo desesperado por dinheiro, da falta de respeito à população. E nós temos que refletir nessa história do novo. O Beto era o novo, o Collor era o novo, o Doria em São Paulo era o novo até pouco tempo, e agora ele quer dar ração de cachorro para as pessoas mais pobres. Nós precisamos acabar com o analfabetismo político. E votar em quem respeita o povo, ter uma opinião muito clara que seja um governo fraterno.

 

CT: O senhor também fez questão de criticar o governo Temer e toda sua trupe que vem mandando e desmandando em nosso país pelos interesses do capital. O senhor ainda encontra espaço dentro do PMDB?

RR: Hoje eu sou um estranho no ninho.

 

Foto: Luiz Antnio Barbosa