Músico que mora em São Pedro do Turvo relembra prisão de colega de banda que viveu auge durante a ditadura militar

Por Jornal Debate

As palavras soam difíceis para João Nelson da Silva, 72, assim como os movimentos. Desde que sofreu um AVC, o músico passa horas na frente de computador lembrando os tempos áureos em que se apresentava em programas de televisão nos “anos de chumbo”. Aos poucos se recupera, a ponto de já criar alguns arranjos. João Nelson integrou o conjunto “Os Versáteis” e, décadas depois, trocou a loucura de São Paulo pelo interior depois que foi baleado num assalto. Há dois anos, o aposentado mora na terra da mulher, Lucy Benetti, a bucólica São Pedro do Turvo.
João ainda guarda fotografias antigas, amareladas e estragadas pelo tempo, além de alguns LPs do grupo. “Na verdade, devo isto à minha mulher. Se dependesse de mim, não teria nada para mostrar”, admite.
Na adolescência, João morava em Guarulhos e conheceu a mulher num bar onde costumava tocar. Eram os anos 1960, naquela efervescência da juventude pela liberdade. O bar ficava na frente da faculdade e a amizade surgiu porque João errou ao cantar uma música de Chico Buarque. “Ela riu, fiquei chateado e fui tirar satisfações. Meses depois, estávamos casados”, lembra.
Nas décadas de 1960 e 1970 os grupos musicais proliferavam nas esquinas, mas gravar um disco ou se apresentar na TV era coisa rara. “Os Versáteis” surgiram nesta época e João era o guitarrista.

Jornais da época publicavam notas sobre a presença de “Os Versáteis” na TV
Jornais da época publicavam notas
sobre a presença de “Os Versáteis” na TV

O músico conheceu muitos nomes do meio artístico. Um deles foi Abelardo Figueiredo, conhecido como o “rei da noite” de São Paulo e influente nos bastidores de vários programas de televisão. “Os Versáteis”, então, animaram durante anos uma das mais movimentadas casas noturnas da capital criadas por Abelardo, o “Urso Branco”. Pelo palco, passaram artistas consagrados da Jovem Guarda. Não é por acaso que um dos discos do grupo chama-se “Uma Noite no Urso Branco”.
O sonho da TV começou a se materializar quando o grupo começou a se apresentar na extinta TV Tupi. Mas o sonho de consumo era a TV Record, a “Globo” daqueles tempos. Pois “Os Versáteis” chegaram a participar de dois programas por dia, um vespertino e outro, noturno. Nos sábados à tarde, João estava no programa de Sônia Ribeiro, mulher de Blota Júnior. Horas depois, animava “Astros do Disco”, apresentado por Randal Juliano, na mesma Record. Na TV Excelsior, tocou no programa de Eduardo Araújo.
João chegou a se apresentar até no “Programa do Chacrinha”, no “Almoço com as Estrelas” e “Clube dos Artistas”. Acompanhou Tom Zé num dos memoráveis festivais de música da Record em 1968. Ficou tão amigo do músico que, num de seus vídeos disponíveis no Youtube, Tom Zé faz uma saudação a João antes de começar a música.
“Os Versáteis”, na verdade, nem tinham vocalista. Suas músicas eram puramente instrumentais, mas o conjunto tocava na TV para acompanhar os astros da Jovem Guarda.

“TEMPOS DO IÊ-IÊ-IÊ” — João (esquerda) e os amigos que integravam “Os Versáteis”, grupo que se apresentava na televisão nos anos 1960 e 1970
“TEMPOS DO IÊ-IÊ-IÊ” — João (esquerda) e os amigos que integravam “Os Versáteis”, grupo que se apresentava na televisão nos anos 1960 e 1970

O risco da ditadura militar

João Nelson garante que não era militante político. “Eu só queria ter a liberdade de tocar e não pensava em derrubar o governo militar. Era um grande babaca”, lembra, rindo. No entanto, a maioria de seus amigos era de esquerda e, segundo ele, a situação começou a ficar perigosa. Um dos integrantes de “Os Versáteis”, por exemplo, chegou a ser preso e teve a mulher grávida torturada.
“Era o Gildo, que adorava ler. Na época, ele estava estudando o livro O Capital, de Karl Marx e os militares da ‘Operação Bandeirantes’ encontraram a obra em seu apartamento”, lembra João. Por conta disso, segundo ele, o amigo foi preso várias vezes, inclusive “ao vivo”. “Os caras invadiam o palco para prendê-lo”, contou.
Numa dessas prisões, os militares levaram junto a mulher de Gildo, Marilena, que estava grávida. “Eles davam socos na barriga dela para que ele falasse alguma coisa sobre supostos companheiros de esquerda”, disse.
O episódio assustou João Nelson. Mais do que isso, começou a prejudicar todos os músicos. “Ninguém contratava mais o Gildo ou seus amigos. Ele nunca foi subversivo ou terrorista, mas aquele livro encontrado no apartamento o marcou para sempre”, lembra o aposentado. Ele compara o caso ao cantor Wilson Simonal, que também virou “maldito” por uma situação totalmente contrária, onde foi acusado de servir ao regime militar. “Suas músicas não eram mais tocadas. Foi um patrulhamento terrível dos dois lados”, conta.
A tensão chegou aos palcos da televisão. Nos bastidores, ninguém conversava mais determinados assuntos com medo de alguma acusação. “A ditadura tinha agentes infiltrados na televisão e em todo lugar”, lembra.
João deixou o grupo “Os Versáteis” e tentou carreira solo, inclusive com outros instrumentos, como bateria e teclado. No entanto, o medo da violência aumentou. Chegou a pensar em se aventurar nos Estados Unidos, mas foi aconselhado a permanecer no Brasil por Pery Ribeiro.
Resolveu, então, virar um pacato professor de música. Deu certo por algum tempo. Mas um dia, em São Paulo, estava num ônibus quando houve um assalto. No meio do tiroteio, um balaço atingiu as costas de João. “Não fiquei paraplégico por um triz”, contou. Foi a gota d’água para abandonar os grandes centros. “Fiquei muito assustado e viemos primeiramente para Jacarezinho, onde meu filho iniciou a carreira de DJ. Não passou muito tempo e chegamos em São Pedro do Turvo”, disse.
O passado, de certa forma, ainda acompanha João Nelson. Em São Pedro do Turvo, por exemplo, um carro de som costuma sair às ruas para anunciar a morte de alguém. “A música que toca é uma canção que eu gravei”, lembra.

Fonte: Debate News