Sem mais equívocos: os estudantes não aceitarão os cortes, nem o “contingenciamento”

Na última quinta-feira, 30, cidades de todos os estados do Brasil paralisaram em defesa da educação. Na nossa cidade, Ourinhos, no interior de São Paulo, cerca de 60 pessoas se reuniram na praça Mello Peixoto e caminharam pelo Centro, em reivindicação pelos direitos do estudante, do professor e do trabalhador. O número na manifestação foi pequeno, mas a sua repercussão levantou uma grande discussão nas mídias locais.

O ato reuniu estudantes da UNESP, professores, sindicalistas e alunos da educação básica. O resultado, nas ruas e nas redes sociais, foi uma grande aversão ao movimento pelos moradores da cidade.

No Facebook, muitos usuários pronunciaram-se contra a manifestação. Entretanto, a esmagadora maioria das publicações demonstrou que a população não conhece a pauta ou se equivocou sobre suas intenções e importância.

Comentário em um vídeo da manifestação do dia 30, em Ourinhos.

Dentre dezenas de afirmações reforçando esteriótipos vazios, como “manifestante é maconheiro” e “professor faz manifestação porque não quer trabalhar”, o comentário acima é o campeão do Facebook.

“Não é corte, é contingenciamento”: essa frase foi dita pelo presidente Bolsonaro e é repetida o tempo todo como um argumento que deveria sossegar e tirar a legitimidade das reivindicações dos estudantes.

“Contingenciamento” é o termo que designa uma modalidade de bloqueio de recursos. De acordo com o economista Raul Velloso, contingenciamento é a ameaça de corte ou um bloqueio temporário para analisar a possibilidade de não cortar.

Vamos ao histórico – Em 2016 e 2017, o governo Temer decretou três contingenciamentos de R$ 2,216 bilhões, R$ 4,27 bilhões e R$ 4,3 bilhões no Ministério da Educação (MEC) e esse dinheiro “bloqueado temporariamente” nunca mais retornou.

Na época, as universidades fizeram atos, ameaçaram greve, mas mesmo assim, Temer não recuou. Ou seja, não só contingenciou, ele cortou, sem chamar de “corte”. A diferença aqui é que o ex-presidente não tinha um fã clube em sua defesa.

Agora, em que esse novo “contingenciamento” foi anunciado, os estudantes já estão preparados para não aceitá-lo; a universidade pública está em um contexto de anos de cortes e de bilhões de reais que não foram investidos. Dentro dos campi é possível ver o resultado disso: faltam bolsas, foram cortados auxílios, não tem equipamentos e produtos, falta manutenção, falta R.U. e até papel higiênico. A universidade pública não precisa de contingenciamento, muito menos corte.

Embora o atual presidente use e abuse do termo, o histórico brasileira das políticas liberalistas pós 2015 nos permite enxergar que, na verdade, o MEC enfrenta um corte no seu orçamento. Enquanto isso, o governo continua aumentando ou ignorando os gastos com políticas internacionais entreguistas, com isenções de impostos de milionários e com o aumento do salários da classe política.

Além disso, temos um agravante ainda maior: a relação hostil de Bolsonaro com as universidade públicas. O presidente já lançou várias ofensas contra os universitários e professores durante a sua trajetória política.

No final de abril, o ministro Abraham Weintraub ameaçou o corte de verbas das “instituições que fazem balbúrdia” e afirmou: “a universidade deve estar com sobra de dinheiro para fazer bagunça e evento ridículo”.

A universidade pública brasileira é reconhecida mundialmente, é responsável por mais de 95% da ciência feita no Brasil, gera milhões de empregos e é um patrimônio precioso do nosso país. Mas, para Bolsonaro e Abraham, a universidade é “bagunça”.

Agora, observe: no momento em que o presidente da república e o responsável pelo MEC atacam a educação desta forma, o discurso de “precisamos economizar” e “é temporário” vai por água abaixo.

Só quem não quer, não vê: os cortes são reais; a universidade pública não é interessante a Bolsonaro e nem a seus apoiadores, ela é uma ameaça ao conservadorismo e aos interesses das empresas; não é contingenciamento, não é só corte, é um projeto gradativo de destruição.

Ir para as ruas é o melhor exercício para exigir direitos em uma democracia. Aos poucos, temos que recuperar a cultura de paralisar, de incomodar, de chamar a discussão para fora de nossas bolhas.

As duas manifestações que ocorreram em maio, já incomodaram e levantaram questionamentos. Dia 14 junho tem de novo.

Saíam do Facebook! Os algoritmos não deixam a sua militância sair do círculo social, já a sua colaboração em carne e osso não pode ser controlada por ninguém.

 

Eduarda Schuh

21 anos e ourinhense de coração. Estudante de Jornalismo na UNESP de Bauru. Aspirante a jornalista há algum tempo. Buscando um caminho para um mundo mais justo há ainda mais tempo. Contra qualquer tipo de exclusão e elitização, escrevo para quem precisa entender. Feminista e progressista, procurando os erros e acertos.