CINEMA, HISTÓRIA E AS QUESTÕES DE GÊNERO: UM DIÁLOGO POSSÍVEL? ENTREVISTA COM A PROFESSORA CLEONICE ELIAS DA SILVA (UENP)

Por Bruno José Yashinishi

Para além do mero entretenimento, o Cinema pode suscitar reflexões, discussões e pesquisas sobre diversas questões da atividade humana. Várias produções acadêmicas na área das Ciências Humanas (Sociologia, Geografia, Filosofia, História) têm se debruçado sobre as possibilidades de relacionar seus estudos com produções cinematográficas, tanto em obras baseadas em fatos ou personagens históricos, documentários ou mesmo em tramas puramente ficcionais.
Nesse sentido, entrevistamos a professora Cleonice Elias da Silva, doutora e mestra em História Social pela PUC-SP, com bacharelado e licenciatura em História pela USP. Atualmente é professora colaboradora no curso de História da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP) em Jacarezinho-PR. Autora dos livros “Cineastas Mulheres: um panorama histórico” (2018) e “Rio, 40 Graus: sua censura e os patamares de uma conscientização cinematográfica” (2019), também é uma das organizadoras da coletânea “História de mulheres: entre lutas políticas e subjetividades” (2020).
Cleonice desenvolve importantes pesquisas dentro da relação entre História e Cinema, com ênfase na participação feminina e em questões de gênero na cinematografia nacional e internacional.
BY: Professora Cleonice, quando e como começou seu interesse na relação entre a História e o Cinema?
No meu segundo ano de graduação, em 2008, tive a oportunidade de participar de um projeto da USP chamado Ensinar com Pesquisa, e me inscrevi para ser bolsista no projeto coordenado pelo professor Marcos Antônio Silva, sobre o cineasta soviético Sergei Eisenstein. Sempre gostei muito de cinema, fui uma frequentadora assídua das saudosas locadoras. A partir da experiência que vivenciei participando do referido projeto, percebi que queria seguir com as minhas pesquisas considerando as relações entre História e Cinema.

BY: De que formas o cinema pode nos fazer pensar e compreender questões sociais, tais como as de gênero e as pautas feministas, por exemplo?
Acredito que as obras audiovisuais subsidiam reflexões sobre as realidades históricas e sociais a partir de diferentes perspectivas, muitas produções apresentam leituras críticas e importantes sobre os problemas sociais, entre elas, as questões de gênero. Contudo, algumas dessas produções podem reproduzir discursos preconceituosos, em alguns casos esse problema manifesta-se devido ao contexto histórico que elas foram produzidas e também aos posicionamentos ideológicos de seus/suas realizadores/es. É importante que consideremos os aspectos que caracterizam essas produções, desde o contexto de produção até os que dizem respeito ao diretor ou à diretora. As mulheres por muito tempo foram representadas nos filmes fomentando antigos estereótipos sobre os papéis de gênero, mas estamos vivenciando um processo de transformação na forma como as personagens femininas são construídas nas narrativas audiovisuais. Cabe ressaltar a importância do Teste Bechdel nesse processo de reconhecimento de obras que estão rompendo como estigmas antigos de representações das personagens mulheres.
O teste Bechdel (Bechdel Test) analisa se os filmes têm personagens mulheres fortes e protagonistas. As questões que orientam as análises dos filmes são: O filme tem duas ou mais personagens mulheres com nome? Elas conversam entre si? O assunto da conversa é algo que não seja homem ou assuntos relacionados a romance? Essas questões foram apresentadas pela cartunista Alison Bechdel, em 1985, em uma tirinha que ironizava os filmes de Hollywood, que trazem imagens estereotipadas das mulheres. A sueca Ellen Tejle, diretora de uma sala de cinema em seu país, no ano de 2013, passou a identificar os filmes em cartaz em sua sala de cinema que eram aprovados no teste. Os pôsteres dos filmes aprovados são marcados por um adesivo. Com isso foi criado oficialmente o selo e outros países também passaram a realizar o teste. O nosso país foi o primeiro da América Latina a realizá-lo.

BY: Alguns autores discordam do termo “Cinema de Mulheres”. Existem diferenças entre o cinema produzido por mulheres e por homens?
Devemos não cometer o erro de criar uma visão determinista de que as produções audiovisuais apresentam aspectos relacionados ao gênero das pessoas responsáveis pela sua realização. A sensibilidade independe do gênero, por mais que ela sempre foi associada à mulher. Diretores homens podem trazer em suas produções reflexões importantes a partir de uma abordagem considerada “sensível”, como diretoras mulheres podem realizar produções que não assumam esse “compromisso”. Contundo, não devemos ignorar que as vivências das pessoas, suas subjetividades imprimem características em suas obras, sendo assim, algumas obras audiovisuais dirigidas por mulheres podem se diferenciar das dirigidas por alguns diretores homens. Algumas diretoras que entrevistei afirmaram não gostar do termo “Cinema de Mulheres” pelo risco de se criar um gueto dentro de uma produção audiovisual mais ampla. Eu, particularmente, acho importante esse termo devido ao fato de as mulheres diretoras ainda serem minoria nas produções audiovisuais mainstream. E os abusos que elas estão sujeitas a sofrerem nesse meio. Nos últimos anos, muitas denúncias tornaram-se públicas de casos de abusos.

BY: Ao longo da história do cinema a figura feminina sofreu grandes mudanças nos filmes. No entanto, a “sexualização” da mulher ainda se faz presente? Seriam os filmes que contrariam esse estereótipo instrumentos de resistência?
O cinema, sobretudo o clássico hollywoodiano, cumpriu um papel significativo no fomento de uma imagem sexualizada das personagens mulheres, apresentando-as sem complexidades e ressaltando as suas belezas físicas. Acredito que os filmes que trazem personagens mulheres a partir de outros vieses estão em consonância com as reivindicações dos movimentos feministas no decorrer de suas trajetórias. Essas produções podem ser consideradas resistências, mas principalmente são expressões da necessidade que nos é contemporânea de se criar novas narrativas e formas de representações, não apenas das mulheres, como também de outros grupos que sempre foram marginalizados.

BY: Como o cinema brasileiro atual tem abordado as questões de gênero? Os filmes conseguem contribuir com o avanço das discussões sobre o feminismo e das comunidades LGBTQIA+, por exemplo, mesmo diante de tanto retrocesso no espectro político e social no Brasil atual?
Bruno, tendo a achar que o cinema independente brasileiro é que talvez venha colaborando para desenvolver reflexões importantes sobre as questões de gênero. Agora me vem a mente as produções de Daniel Ribeiro que abordam temáticas sobre as comunidades LGBTQIA+. Cineastas como Tata Amaral, Helena Solberg, Eunice Gutman, entre outras, dão prioridades em suas obras para tratar de questões que dizem respeito às mulheres. Acredito que o grande desafio é possibilitar que essas discussões estejam presentes nas produções que têm grande público, talvez os filmes e séries disponibilizados nos streamings possam diversificar e ampliar o público expectador.

BY: Aos estudantes interessados em pesquisar sobre o cinema nas Ciências Humanas, quais suas sugestões de filmes e de bibliografia sobre a relação entre filmes e as questões de gênero?
Para quem tem interesse pela História do cinema considerando a participação das mulheres, sugiro o documentário E a Mulher Criou Hollywood (2016), das cineastas francesas Clara Kuperberg e Julia Kuperberg. Disponível no YouTube (https://www.youtube.com/watch?v=1a99vUxFefQ).
Os textos das teóricas Laura Mulvey, Elisabeth Ann Kaplan e Teresa de Lauretis são referências importantes. No Brasil, temos um campo de pesquisa que vem se consolidando, com dissertações, teses, livros e artigos publicados sobre a temática. Indico o mestrado de Paula Alves (2011), a tese de Maria Célia Orlato Selem (2013), os livros e artigos das professoras Karla Holanda e Marina Tedesco, e também os textos de Luciana Corrêa de Araújo. Tratando-se das discussões sobre as mulheres negras no audiovisual sugiro os trabalhos de Ceiça Ferreira e Edileuza Penha de Souza. E, por fim, o site da jornalista Luísa Pécora Mulher no Cinema (https://mulhernocinema.com/sobre/).

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