“Sorria, Você está sendo enganado”! O novo livro de Rodolfo Fiorucci: Entrevista com o autor

Por Bruno Yashinishi

Os anos de 2020 e 2021 certamente ficarão marcados historicamente pelo agravamento da pandemia da Covid-19 pelo mundo todo. Além do vírus, outra grave ameaça se espalhou com proporções avassaladoras e com uma velocidade ainda maior: as chamadas “Fake News” (notícias falsas), que se tornaram um dos mais relevantes fenômenos sociais e políticos da atualidade, contrariando sistematicamente o consenso científico e a estabilidade dos regimes democráticos.
Obviamente, as “Fake News” não surgiram durante a pandemia, suas origens são bem mais remotas. Porém, a disseminação de informações enganosas, por vezes de teor conspiratório e negacionista, ganhou uma proporção nunca antes vista, muito por conta da proliferação das redes sociais virtuais.
Diante desse fenômeno e tendo em vista suas consequências na sociedade brasileira atual, o professor Rodolfo Fiorucci está lançando seu novo livro pela editora Kotter, intitulado “Sorria, Você está sendo enganado: desmontando Fake News para a desidiotização do Brasil” (2022). Nessa matéria entrevistamos o autor.
Rodolfo Fiorucci é doutor em História pela Universidade Federal de Goiás, mestre e graduado em História pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – UNESP/Assis. Atualmente é diretor e professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Paraná (campus Jacarezinho –PR). É autor e organizador de vários outros livros, como “Estratégias Fascistas em Revista: Anauê! (1935-37) como inovação jornalística da Ação Integralista Brasileira” (Editora Appris, 2021) e “Políticas e Projetos na Era das Ideologias: a Imprensa no Brasil Republicano (1920-1940)” (Paco Editorial, 2017), por exemplo.

Bruno Yashinishi: Professor, primeiramente, como surgiu a ideia do livro e quais fatores motivaram sua escrita?
Rodolfo Fiorucci Há muito tempo tenho um incômodo em perceber que as grandes Fake News, as que de fato conduzem o povo brasileiro ao matadouro, são as que se tornaram “verdades absolutas”, ainda que deliberadamente mentirosas. Isto é, aquelas que cooptam o indivíduo por questões morais e/ou econômicas via instituições de sequestro (mídia, institutos liberais, escolas e universidades, igrejas, aparatos policiais e judiciais etc).
Ou são as que movimentam de forma deturpada valores enraizados, ou as que geram uma esperança vã num futuro de luxo e riqueza (ainda que isso seja matemática e estruturalmente impossível).
Portanto, percebi que não adianta se debater contra fake news estúpidas como terra plana, vacina com chip, cartilha gay etc, quando essas só são possíveis porque há uma desinformação intencional estrutural que sustenta a base de todas as delinquências. Daí a necessidade de desvelar as verdades secularmente escondidas, pois como diria Boaventura de Souza Santos, só haverá justiça social global quando houver justiça cognitiva global.

BY: Existe uma discussão em voga na língua inglesa sobre a distinção entre False e Fake News. Enquanto a primeira seria uma notícia com erros factuais ou erros de apuração, a segunda seria uma mentira deliberada, intencionalmente confeccionada para desacreditar, desonrar, desinformar ou até mesmo ludibriar alguém. Sendo assim, o que podemos entender sobre Fake News e como detectá-las diante de tanta informação?
RF: As Fake News no cenário atual são produtos de uma indústria bastante lucrativa. É um negócio, gera riqueza e poder para seus produtores e compradores. E elas só são possíveis numa sociedade intelectualmente limitada. E essa limitação está espalhada em todo lugar, não sendo exclusiva de classes menos abastadas, como muitos pensam. De doutores a semialfabetizados, passando por bilionários famosos, há uma deficiência intelectual significativa no povo brasileiro, muito por conta do nosso datado e risível sistema escolar ainda nos moldes que os jesuítas trouxeram no século XVI para cá.
Nesse quadro, qualquer mentira produzida, por mais bizarra que seja, é absorvida quase automaticamente pelos indivíduos, desde que dialoguem com seus valores, doutrinas e ideologias, já que não há um filtro prévio de cognição desenvolvido com criticidade e ciência.
Para detectá-las só há dois caminhos; um mais imediato, que seria o compromisso de se procurar por várias fontes antes de reproduzir uma fake news; outro de longo prazo, ofertando educação de qualidade, escapando da lógica meramente conteudista e mercadológica de educação, em que os estudantes desenvolvam conhecimentos em todas as áreas, inclusive e indispensavelmente político.

BY: No Brasil, parece haver uma relação íntima entre a propagação de Fake News com o avanço dos setores reacionários no aspecto político e social. Existe de fato uma estratégia por parte desses grupos em promover a desinformação? A quem interessam as Fake News?
RF: Obviamente existe uma estratégia, não apenas no Brasil, mas em nível global. Vários países vêm sofrendo com a ascensão de um neofascismo ultrarreacionário, que mexe com os sentimentos mais profundos das pessoas para leva-las a apoiar e praticar atitudes nefastas. O escândalo da Cambridge Analitics é apenas um grão de areia nesse universo das manipulações. Hoje as BigTechs como Google, Apple, Facebook etc monopolizam a informação global. Elas escolhem quais notícias, fake news ou ideias serão disseminadas por meio de algoritmos. Elas decidem quem vai ter seu alcance reduzido ou praticamente anulado nas redes. Elas deletam contas aos seu bel prazer sem precisar dar satisfação a ninguém.
Por isso elas estão por trás de todo golpe de Estado e destruição das instituições democráticas da última década, em nome do Deus Capital. Perceba que os setores reacionários são apenas instrumentos para um fim maior. Esses setores também são usados (muito embora sejam bem remunerados para isso) para a manutenção dos sistemas globais de exploração e desigualdade. As elites locais, que são deficientes cívicas, mas crentes de que são exemplos de inteligência, entregam seus compatriotas à devastação socioeconômica e à extorsão externa sem nenhum pudor, pois acreditam nas mentiras historicamente produzidas que naturalizam esse mundo que é uma máquina de moer gente.
Num momento de mais uma crise estrutural do capitalismo, as fake news interessam aos donos do mundo, apelando mais uma vez ao autoritarismo via fascismo, tal como fizeram nos anos 1920-1940, quando engendraram o nazismo e o fascismo para conter um movimento de transformação das estruturas do capital que beneficiam apenas meia dúzia de apaniguados.

BY: No tocante à comunidade científica, quais foram (e ainda estão sendo) as consequências mais nocivas do negacionismo e das Fake News?
RF: A consequência é o descrédito geral na ciência. Antes esse descrédito era restrito às ciências humanas, que eram sempre atacadas exatamente porque denunciavam as injustiças do sistema capitalista, sendo a melhor forma de anular esses estudos maculando suas descobertas e seus cientistas, valendo-se das famosas fake news de cunho pseudomoralista, acusando-os de comunistas, gayzistas, maconheiros etc.
Agora essa deturpação sobre a ciência atingiu níveis elevados, espalhando-se por todas as áreas. Questões que já estavam estabelecidas, como a importância da vacinação, foram melindradas a ponto de termos movimentos antivacinas no mundo todo, fazendo com que retornem doenças que estavam erradicadas e/ou controladas.
Quando uma população chega a esse nível de rebaixamento intelectual está à beira do caos. As portas estão abertas para todos os demônios que, muitas vezes, são convidados a entrar em nome de Deus, pela ação de falsos pastores/padres que não passam de vendilhões do templo e de traidores da mensagem de amor e justiça social pregada por Jesus. O que estamos assistindo nos últimos tempos é a morte da mensagem de cristo promovida por aqueles que deveriam disseminá-la.
Como a população é religiosa e com uma fé profunda, a manipulação de massas promovidas por esses líderes religiosos em conluio com os donos do dinheiro é relativamente fácil e, aliada à baixa qualidade educacional sustentada por currículos ultrapassados, produz esse estado geral de desorganização, fome, mentiras, golpes e carestia.

BY: Em seu livro há uma proposta em “desidiotizar” o leitor, isto é, apresentar e desmontar uma série de Fake News disseminadas na atualidade. Quais são as principais Fake News debatidas na obra?
RF: É importante esclarecer o termo “desidiotizar”. Não se trata de uma agressão às pessoas. Na verdade recupero o termo “idiotes” que era bastante utilizado na Atenas clássica. Naqueles tempos o idiota era o sujeito apartado da política, ou seja, ele não poderia participar da política, das discussões públicas sobre os rumos da cidade porque não estava capacitado para tal. A raiz “Idios” e refere a si mesmo, ao eu, ao particular. Daí a psicanálise falar em “Id” (o Ego), para se referir ao sujeito em sua essência mais elementar.
O idiota era o sujeito sem luzes, preocupado apenas consigo, com suas coisas privadas, egoísta. E para os gregos, alguém que não tem a capacidade de pensar no coletivo não pode participar do debate público, por obviedade. O problema é que hoje a política é dominada por idiotas. Grande parte do congresso nacional não atua em prol do coletivo, mas para bancadas privadas (ruralistas, empresários, mercado financeiro). Essas grandes bancadas que representam 1% da população possuem quase 80% do congresso trabalhando para elas de forma quase privativa. Da Atenas antiga ao Brasil atual a política passou de espaço de construção pública em prol do coletivo para espaço público de domínio privado em prol de interesses muito particulares. Ao contrário do passado, hoje quem faz política são os “idiotes”, e aqueles que insistem em denunciar esse modo deturpado de política em defesa da coletividade são os “idiotas” (no sentido atual do termo).
O livro portanto tem o objetivo de instrumentalizar quem tenha acesso a ele a praticar política com qualidade e produzindo consciência sobre como funcionam as grandes fake news que dominam nossas mentes há muito tempo. Por isso a missão de “desidiotizar” o Brasil, isso é, tornar as pessoas capacitadas de exercitar a política como coisa pública de interesse coletivo.
Para isso tiro o véu mentiroso que pousava languido e tranquilo em temas como “Estado Mínimo”, “Serviços e servidores públicos”, “Excesso de impostos no Brasil”, “Nazismo de Esquerda”, “Meritocracia”, “Livre mercado”, “Taxação de fortunas, lucros e dividendos”, entre outros.

BY: Tendo em vista o cenário político, econômico e social da sociedade brasileira atual, quais seriam os meios necessários para o combate à desinformação e a propagação das Fake News?
RF: É um combate inglório e quase impossível de se fazer, posto que a máquina de produção de mentiras é gigantesca e conta com financiamentos sem fim. O combate imediato é um trabalho de formiguinha, realizado onde for possível, nas famílias, nas escolas, nos espaços públicos, nas redes sociais, ainda que não tenha 1% do alcance das fake news. Sem mencionar que a verdade é chata e muito mais difícil de compreender, pois demanda um grau de complexidade ausente numa fake news banal, e quando se faz essa depuração de mentiras na escola, espaço próprio para isso, as instituições e funcionários são acusados de doutrinadores (outra fake news que ganhou a opinião pública).
Mas para ter um impacto real no controle da disseminação de mentiras que tanto maculam e matam pessoas, instituições e processos, é necessário uma refundação do sistema educacional brasileiro, construindo-se uma nova educação com foco na qualidade e não em quantidade, com currículos modernos, dinâmicos, adequados ao novo mundo, com formação real, científica, profissional, política, crítica e cultural que municie a população não com revólveres e fuzis, mas com inteligência e ética no projeto de edificar uma nova nação brasileira, onde não seja naturalizado o ódio, a violência e o preconceito e, tampouco, a venda de descartes da indústria alimentícia como comida real (osso, pele de frango, carcaça de peixe e soro de leite).
Uma nação educada não passa fome. Esse projeto tem como marco inicial de transformação da educação brasileira o campus Jacarezinho do Instituto Federal do Paraná, premiado nacional e internacionalmente como exemplo de educação. Espero que num futuro próximo o IFPR/Jacarezinho sirva de exemplo para outros sistemas e deixe de ser atacado exatamente porque busca desidiotizar a sociedade. As fake news vigoram também sobre projetos educacionais de salvação nacional.

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