A Imprensa e os generais

Durou pouco a lua de mel entre os barões da grande Imprensa e os generais que desfecharam o golpe civil-militar (1964/1985). O golpe liquidou a ilusão de desenvolvimento, no País, de um capitalismo autónomo, não subordinado ao capital internacional, alimentado pela burguesia nacionalista e reformista ligado ao governo deposto de João Goulart. A dominação do capital monopolista na sociedade brasileira está consolidada 36 anos após o fim do ciclo militar. O discurso da classe dominante sobre 1964 esconde os verdadeiros responsáveis, promotores, chefes e beneficiários da ditadura, responsáveis diretos por seus crimes, e como o regime dos generais foi instrumento da dominação que exercem atualmente.

Seus intelectuais e representantes políticos, incluída parte da pseudoesquerda e o “comunismo” legal, tratam o golpe e a ditadura como fenómenos desligados das contradições sociais e da luta de classes, como se tivessem sido iniciativa individual de militares truculentos, políticos e empresários conservadores, tudo já superado com a redemocratização dos anos 80. Nada mais falso. A relação azedou quando os donos da opinião pública viram, um ano depois, que os senhores da guerra não convocaram eleições gerais como eles esperavam. Os barões da Imprensa esperavam eleger um presidente civil em 1965. Ou seja, a expectativa era a de que os militares fizessem a faxina da casa, livrando-os do crescente movimento social, das greves de trabalhadores e estudantes e da indisciplina nas tropas, na esteira de forte agitação sindical, devolvendo-lhes o poder em seguida.

Erraram feio. O ciclo militar durou 21 anos. Ouço diatribes contra o monopólio da informação no Brasil, como se a indústria da comunicação tivesse nascido por geração espontânea, por acaso, e não como resultado do longevo processo de caracterização cultural que nos assola. Jornal tem dono. Os demais são trabalhadores assalariados que obedecem ordens superiores. O negócio depende de concessão pública outorgada pelo Governo federal que sempre foi usado como moeda de troca no toma-lá-dá-cá da política. De fato, tivemos pouca oposição á ditadura em 64 – apenas ” Última Hora” e o “Diário de Noticias” -, o primeiro vendido e o segundo fechado logo. Os demais, após terem estampado manchetes ufanistas, patrióticas, exaltando o movimento militar – consideráveis parcelas da classe média aplaudiram as tropas nas ruas, nas principais capitais, sensíveis ao anticomunismo e á subversão- logo mudaram de lado.

O fato dos barões da Imprensa terem apoiado 64 não deveria surpreender tanto. Afinal, os donos dos monopólios da informação social, na América Latina e pelo mundo afora, considerando-se as gradações sociais e de desenvolvimento de cada povo, defendem os interesses de anunciantes e patrocínios de empresas nacionais e transnacionais. Como qualquer ramo de atividade que envolva capital e trabalho, o jornalismo é pleno de conflitos, e como sempre a corda se rompe do lado mais fraco – o do trabalhador. Jornalistas assalariados, de nível superior e provenientes da classe média e da baixa burguesia, podem e espera-se que sejam conscientes e progressistas. Os patrões da Imprensa, capitalistas, dificilmente o serão. Apenas administram um bom (?) Negócio que dá lucro, político, financeiro e prestígio social. Bem, o fato, porém, em época de tantos contratempos, é o apoio que Roberto Marinho (O Globo); Assis Chateaubriand (Diários Associados); Ruy Mesquita (O Estado de São Paulo); condessa Pereira Carneiro (Jornal do Brasil); e Otávio Frias Filho e Carlos Caldeira (Folha de S. Paulo) emprestaram aos generais em 64.

A fina flor da comunicação ofereceu ampla cobertura ás atividades do Grupo de Atuação Patriótica (Gap) do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), coordenador pelo especialista em guerra psicológica e mentor da abertura política, general Golbery do Couto e Silva, o “bruxo do Planalto”. As “campanhas de pânico” (anticomunismo) e a defesa da democracia e liberdade, contra a subversão, eram projetadas pelos manipuladores de notícias, antes de 64, como precursoras dos “gabinetes de ódio” tão em voga nos últimos anos. O complexo IPES/IBAD), a “elite orgânica” descrita pelo cientista social uruguaio René Armand Dreifuss em seu clássico “1964: a conquista do Estado – ação política, poder e golpe de classe” (Ed. Vozes), teve papel decisivo em 64. Era composto por políticos, empresários, professores, estudantes, jornalistas, publicitários, cineastas, escritores (Rubem Fonseca e Raquel de Queiroz, entre outros), trabalhadores e donas-de-casa. Estudantes de 16 a 27 anos, das classes médias e alta, antirreformas, operavam sob a batuta de Aristóteles Drummond, auxiliado pela CIA.

Religiosos, empresários, militares, banqueiros, liberais eram da conspiração anti Jango. Líderes e ativistas do IPES propiciavam as condições psicológica e materiais indispensáveis para a eclosão do movimento militar. “Os empresários devem tomar as ruas de Jango”, orientava o general Guedes. A opinião pública deveria estar mobilizada contra Jango. Os militares, então, como parte do povo, apesar de armados, simplesmente usariam suas armas para o que foram criados, a defesa da segurança interna, ameaçada pela esquerda”. Havia patrões e patrões. “É comunista, mas é meu comunista” – Ruy Mesquita e Roberto Marinho tinham tiradas assim. Na redação, dizíamos, “se o Brasil virar comunista, doutor Roberto troca de lado”. Radicais de esquerda acusavam Otávio Frias e Caldeira de terem financiado a repressão policial e militar. Na realidade, as “classes produtoras” e suas entidades de classe (Fiesp, Febraban, Federação do Comercio) e empresas privadas atendiam a “passada de chapéu” dos generais.

Havia coisa pior. No dia 26 de agosto de 1969, o jornal clandestino “Resistencia” publicou o seguinte: “Polícia á vontade na Folha” – SP – “O repórter Patti, das Folhas de S. Paulo, foi interrogado durante 4 horas pela polícia. Até aí nada de extraordinário. Só que Patti foi interrogado numa das salas da diretoria das Folhas, com pleno conhecimento e anuência desta. Como todo corrupto que se preza, o Sr. Otávio Frias cada vez se liga mais á ditadura e ao terror policial”. Fui a campo verificar se isso era ou não invencionice, proselitismo ideológico. Não era, Patti me confirmou a história. Naquelas circunstâncias, podemos considerar que o interrogatório na própria empresa poderia ter funcionado como proteção para o jornalista perseguido. Havia um policial (Paulo Nunes) infiltrado na redação que o avisou que Patti não poderia deixar o jornal. Ordem de Caldeira.

Patti estranhou mas não teve mais explicações. O policial o trancou na sala da secretaria, o aquário da redação, uma cena que o deixou constrangido. Caldeira viu quando o jornalista passou escoltado pelo próprio Nunes, no quinto andar do prédio contíguo, nas dependências da própria diretoria, na Alameda Barão de Limeira. Esperavam-no um major e dois soldados, a paisana, provavelmente do II Exército. Depois, durante uma semana, circularam com o preso por delegacias da Grande SP. Além do vexame da prisão e do sequestro, felizmente não sofreu violência física, afora o trauma psicológico. Perdeu o emprego um mês depois. A Folha de S.Paulo manteve linha editorial independente até 1968. Em 1969, os órgãos de segurança assumiram o comando da Folha da Tarde. A prisão de freis dominicanos no episódio da execução de Carlos Marighella, dia 4 de novembro de 1969, revelou o envolvimento de outros jornalistas da Folha na resistência armada.

Foi a grande virada na orientação política do Grupo Folhas. Antônio Aggio Júnior, primo do coronel Lepiane, assumiu o comando da FT como homem de confiança dos militares. Trabalhava com uma arma sobre a mesa.

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