A informação como arma da guerra – parte 1

João Teixeira*
Informação e contrainformaçáo.
Para vencer as guerras, desde a Antiguidade, egípcios, persas, gregos, romanos e todos os povos utilizaram fartamente a munição informativa para derrubar inimigos e conquistar povos e territórios.
Em cada época histórica, os sinais de fumaça, os tantás, os mensageiros a cavalo – estes, ás vezes, em tempos medievais, eram degolados por monarcas furiosos quando as notícias eram ruins – as cartas náuticas e os espiões forneciam as indispensáveis informações privilegiadas que apontavam alvos para esquadras armadas, exércitos, bombardeios, foguetes e canhões.
Júlio César, Alexandre, o Grande, Napoleáo, Hitler, entraram para a História assim.
Na guerra revolucionária brasileira não foi diferente.
O poder militar e seus oponentes, armados ou não, utilizaram largamente a infiltração, a colaboração, a contrainformaçáo e a guerra psicológica que definiram batalhas no que Gorender denominou de “combate nas trevas”.
A Revolução Tecnológica deste século XXI, a era de satélites, drones, internet e redes sociais, estas que hoje dão nova dimensão aos fatos e manipulam multidões- e decidem eleições-, ao sabor de seus clientes e aficionados digitais encarcerados em suas bolhas, eram peças de ficção no imaginário de George Orwell (“1984”) no auge da Guerra Fria.
Na luta coletiva, efetivamente, o “nós” era tudo, em contraposição á autopromoção do “eu” destes nossos tempos digitais.
O real prevalecia sobre o virtual.
Mesmo manietada, obrigada pela Lei de Segurança Nacional a só divulgar fatos e comunicados oficiais, a Imprensa foi valiosa munição na resistência contra o arbítrio.
O regime dos generais controlava o que a população podia ler, ouvir e assistir.
A Imprensa desfechava seus canhonaços e provocava rachaduras na muralha da ditadura.
O autoritarismo implicava o controle informativo sobre corações e mentes.
Em inúmeras oportunidades, a cobertura jornalística possibilitou a fuga de opositores perseguidos, como reconheceu, oficialmente, o general-de-divisão Aluysio Guedes Pereira, em documento reservado do II Exército, em 1969.
“A prisão do grupo da Ala Vermelha (do PC do B) em Embu-Guaçu confirma mais uma vez a participação de estudantes no processo subversivo-terrorista em curso em São Paulo” – registrou o general Guedes.
“Os jovens secundaristas e universitários estão sendo trabalhados intensamente pelas organizações subversivas e muitos deles, despreparados e sem orientação de pais e mestres, estão aderindo” – ressaltou o chefe militar.
“Por outro lado, as constantes e repetidas investigações realizadas pelas equipes da OB (Operação Bandeirantes) estão obrigando que tais elementos ingressam na clandestinidade dificultando sua ação”.
“A enorme divulgação dada pelos jornais, estações de rádio e emissoras de televisão á prisão do grupo de Embu-Guaçu prejudicou consideravelmente as investigações levadas a efeito com o objetivo de apurar em profundidade a atuação da Ala Vermelha em São Paulo”.
O general defendeu, por fim, a necessidade de censurar o noticiário:
“Os elementos que funcionavam como contato ou comunicação de Sérgio Francisco dos Santos tomaram conhecimento da prisão do grupo pelos meios de divulgação e abandonaram suas residências e se afastaram dos locais que habitualmente frequentam”.
“É de toda conveniência que não sejam divulgados fatos desta natureza enquanto as investigações correspondentes não chegarem a seu final. Há necessidade de um controle efetivo no tocante á venda de munição de tal modo que indivíduo sem porte de arma possa faze-lo”.
O general Guedes tinha lá suas razões.
No início de 1969, a entrevista coletiva convocada por um delegado de polícia de Itapecerica da Serra, para a apresentação oficial de quatro homens presos numa chácara, enquanto pintavam um caminhão com as cores do Exército Brasileiro, ajudou na fuga de vários militantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), a organização do capitão da guerrilha urbana, Carlos Lamarca.
Só mais tarde a polícia descobriu que os prisioneiros eram guerrilheiros, e não contrabandistas, como vinham afirmando até então nos interrogatórios.
Era o início da guerra interna.
O imprevisto das prisões obrigou Lamarca a antecipar o plano de deserção do IV R.I. de Quitaúna, em janeiro de 1969.
As autoridades contra-atacavam com rigor.
No jornal Cidade de Santos, do grupo Folhas, a grande novidade eram as máquinas de composição.
Foi quando rodaram uma circular interna proibindo que os redatores escrevessem o nome Salim Maluf.
Salim era nome de mascate e isso não pegava bem para a imagem do queridinho civil do presidente Costa e Silva.
Tinham que escrever Paulo Salim Maluf ou Paulo Maluf.
A Marinha um dia enviou material oficial que caiu na mesa do revisor.
No final do texto, no pé da matéria, veio o toque de resistência: “companheiro, trabalhe de acordo com o seu salário”.
O material descia para as oficinas com a assinatura do revisor, o responsável final pela produção.
A frase, considerada subversiva, foi publicada na edição do dia seguinte e o resto é fácil de imaginar.
O revisor passou uma semana preso no Dops. Ossos do ofício.

Palavras-chave: anos de chumbo; regime militar; perseguição a jornalistas.

*João Teixeira é membro do Conselho Editorial do Jornal Contratempo.

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