Anos de chumbo Tarefa inglória no cárcere – Parte I

João Teixeira*

O choque entre a fé cristã e a brutalidade militar gerou sérios conflitos entre o Vaticano e Brasília, no final dos anos 1960.
“Sem esperança, se morre, ainda que vivendo; com ela, se vive, ainda que morrendo”.
Foi mais ou menos nesta linha de raciocínio, do revigorar da fé, que pode ser entendido o envolvimento dos freis dominicanos com a Ação Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Marighella, a partir de 1968.
O Agrupamento Comunista de São Paulo surgiu, pela primeira vez, em janeiro de 1968 com o documento “Sobre problemas e princípios estratégicos”.
A partir daí, esse passou a ser o nome da organização clandestina armada comandada pelo guerrilheiro mulato baiano Marighella.
Naquele ano, através de diversos documentos, a ALN fixou estratégias, táticas e transmitiu técnicas guerrilheiras a toda sua estrutura nacional.
Em seus documentos, Marighella considerava que todos grupos revolucionários isolados, que defendessem os princípios básicos da ALN, seriam considerados vinculados á organização, embora fossem livres para realizar os atos revolucionários que planejassem.
Criticava as organizações que buscavam evoluir na base do proselitismo, programando sua evolução sustentada pela ação.
Em maio, foi difundido o documento “O papel da ação revolucionária na organização”, onde se lia o seguinte: “(…) sendo o nosso caminho o da violência, do radicalismo e do terrorismo, os que afluem a nossa organização não virão enganados, e sim, atraídos pela violência que nos caracteriza”.
Em agosto, Marighella difundiu o Minimanual do Guerrilheiro Urbano, o clássico que virou o livro de cabeceira da esquerda armada do Brasil e do mundo inteiro, inclusive do Bader Meinhoff, da Alemanha.
Em “Algumas questões sobre a guerrilha no Brasil”, Marighella inseria a Revolução Cubana (1959) dentro da Revolução Mundial, apresentando -se como exemplo de conquista do poder, por meio da guerra de guerrilha.
A prisão dos freis dominicanos militantes da ALN, então, foi um escândalo herético que marcou o clímax da guerra entre a cúpula progressista da Igreja Católica e o Alto-comando das Forças Armadas.
O convento dominicano, na Rua Caiubi, em Perdizes, estava na mira do Dops como “aparelho” da subversão.
Isso desde que os religiosos passaram a socorrer estudantes supliciados na tortura. A maioria dos militantes da ALN era formado por estudantes, secundaristas e universitários, além de liberais, os rebeldes da pequena-burguesia, ao contrário de outras organizações armadas.
Quando o movimento estudantil foi sufocado pelo Ato Institucional (AI) número cinco, em 13 de dezembro de 1968, o convento passou a ser apoio da guerrilha urbana, escondendo armas, munição, materiais e mandando combatentes para o exílio.
Os religiosos eram importantes na guerra revolucionária.
Marighella: “(…) os eclesiásticos, isto é, os padres e religiosos de diferentes hierarquias e confissões, representam um importante setor com especial qualificação para os contatos com o povo, principalmente com os operários, os camponeses e as mulheres brasileiras. O guerrilheiro urbano eclesiástico é um membro muito ativo da guerra revolucionária em curso e constitui uma arma potente contra o poder militar e o imperialismo norte-americano”.
Os freis foram monitorados, perseguidos, presos e torturados, no violento roteiro cujo desfecho foi o assassinato de Carlos Marighella, na noite de quatro de novembro de 1969, na Alameda Casa Branca.
Os heróis, traidores, matadores e personagens desmoralizados marcaram os anos de chumbo.
Um deles foi o jornalista e professor Lenildo Tabosa Pessoa, que levou para o túmulo o estigma de delator e cúmplice da polícia, no episódio das prisões e bárbaras torturas sofridas pelos freis dominicanos como presos políticos.
Dono de vasta cultura, erudito, Lenildo foi por muitos anos editorialista do Jornal O Estado de S. Paulo.
E, como porta-voz do clá Mesquita, alinhou-se como símbolo do pensamento conservador na Imprensa da época, como Gustavo Corçao, D. Geraldo de Proença Signaud, bispo de Diamantina nos anos 60, filho da elite rural, entre outros.
O intelectual conservador Lenildo Pessoa foi meu professor de Ética do Jornalismo, na Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero, nos anos 70.
Na sala de aula, dava aulas sobre a “teoria do direito divino” na monarquia. Lenildo era insultado e ridicularizado pelos estudantes-jornalistas do curso.
Em julho de 1989, entrevistado pela Revista Imprensa (“Já comeu a sua criancinha hoje?”), Lenildo evocou como piada – da direita – o estereótipo do jornalista esquerdista no Brasil.
A piada: “dois jornalistas brasileiros, em visita a Cuba, foram convidados a uma recepção no Palácio de Fidel Castro. Ao chegarem, um deles olhou para o prédio, luxuosíssimo, todo revestido em mármore, e brincou: ‘quando tudo isso será do Povo?’ O outro, um militante de esquerda empedernido, não achou a menor graça, e retrucou irritado:’escuta, eu não admito piadas contrarrevolucionárias. A partir de agora, você é meu inimigo! É desde aquele dia não se falaram mais”.
O pernambucano Lenildo contou a piada, divertido com a rigidez ideológica do mal humorado, e refletiu a percepção geral que havia nos anos de chumbo. Os jornalistas tinham fama de comunistas.
Eis que o destino armou-lhe uma das suas. Segundo o ex-frei João Valença (“Maurício”, da ALN), Lenildo era ligado ao delegado Alcides Cintra Bueno, especialista em marxismo e em dar sumiço em cadáveres de presos políticos. Conheciam-se desde o final dos anos 50.
Naquela época, o jornalista militava na Juventude Universitária Católica, recém chegado do curso de Teologia, em Roma.
O delegado precisava de testemunhas de que os religiosos estavam bem, inteiros, e convidou Lenildo para a tarefa que se agravou sua imagem pública.
Topou visitar religiosos torturados. “Certo dia, encontramo-nos no cárcere” – contou o frei Valença. Os religiosos presos foram chamados pelo diretor-geral do Dops “para serem inquiridos pelo inquisidor Lenildo. Começou a nos interrogar sobre, exclusivamente, a doutrina social da Igreja, queria nos mostrar que éramos contrários ao pensamento social da Igreja. Sua argumentação parava no tempo, no século passado (séc. XIX), negava todos os documentos a partir de João XXIII. Fixava-se mais em Leão XII e Pio XII. Os padres recusavam-se (…) a responder qualquer pergunta sua. Somente o padre Marcelo Carvalheira, hoje bispo, perdeu seu tempo argumentando com Lenildo, contrapondo os textos mais recentes do Vaticano (…).
Meu amigo jornalista e apresentador de TV (Globo e Record), Percival de Souza, desde os tempos do Jornal da Tarde, resumiu o drama de Lenildo Pessoa:
“É o tal negócio, como Lenildo tinha posições consideradas reacionárias, de extrema-direita etc., muita gente quis denegrir sua imagem de qualquer forma, pouco se importando se o que ele fazia era verdadeiro ou não”.
O linchamento moral por parte das esquerdas foi inevitável. Ninguém perdoou a visita que o articulista do Estadão fizera aos religiosos encarcerados. O velho mestre foi enterrado como dedo-duro e cúmplice da ditadura.

Palavras-chave: religiosos na luta armada; Imprensa censurada.
*João Teixeira, jornalista e escritor, é membro do Conselho Editorial do Jornal Contratempo.