Anos de Chumbo – tarefa inglória no cárcere parte III

João Teixeira*
“O que é sabedoria para os homens é loucura para Deus, e o que é sabedoria para Deus é loucura para os homens”.
Este trecho da carta de frei Betto, no livro O Canto da Fogueira – carta de três dominicanos, quando em cárcere político – frei Fernando; frei Ivo; e frei Betto – Editora Vozes, 1977 – dá ideia da escandalosa heresia que foi a mistura da política com a religião, nas tormentosas horas que antecederam ao fuzilamento de Carlos Marighella, em novembro de 1969.
O arrastão feito pela polícia política encheu as celas, principalmente de religiosos e jornalistas, antes que o “inimigo número um da ditadura militar brasileira” fosse abatido na Alameda Casa Branca, na noite do dia 4 de novembro de 1969.
Os policiais civis e militares que participaram do cerco e fuzilamento de Marighella foram promovidos, ganharam medalha de bravura e dividiram a generosa recompensa oferecida pelos generais pela cabeça de Marighella.
Marighella era caro.
O episódio espetacular desmontou a Ação Libertadora Nacional (ALN), que perdeu o líder e o rumo na resistência armada contra o regime militar (1964/1985).
O trágico episódio do assassinato de Carlos Marighella, mulato guerrilheiro baiano, ex-deputado constituinte em 1946, estremeceu os alicerces da República.
Arrasou reputações, como a do nosso professor de Ética na Faculdade Cásper Líbero, jornalista Lenildo Tabosa Pessoa, gentil e simpático pensador conservador, editorialista do Estadão, que morreu com fama de cúmplice e conivente da ditadura porque visitou os freis dominicanos presos e torturados no Dops.
O ex-frei João Valença (Maurício, da ALN), escreveu que Lenildo, ligado ao delegado Alcides Cintra Bueno, o Porquinho, especialista em marxismo no Clero e em dar sumiço a cadáveres de presos políticos, era seu conhecido desde o final dos anos 50.
Recém-chegado da Teologia, em Roma, o jornalista fora militante da Juventude Universitária Católica. Apologista dos romances de Manzoni.
Um intelectual, reacionário e conservador, para os padrões da Juventude estudantil esquerdista.
Certo dia, encontraram -se no cárcere, depois dos religiosos presos terem sido chamados pelo diretor geral da Ordem Política e Social, “para serem inquiridos pelo inquisidor Lenildo…”.
A visita informal a presos políticos, sequestrados, torturados e incomunicáveis, devorou a imagem pública do mestre. Além de filho da puta, conivente e dedo-duro, as forças de esquerda não perdoaram.
O professor Lenildo não convenceu ninguém com a história de que só queria conhecer o comportamento de religiosos marxistas na prisão.
Nas celas lotadas, estava o resultado do arrastão comandado pelo delegado Fleury, a prisão de dezenas de pessoas na madrugada e manhã daquela segunda-feira, 3 de novembro de 1969, véspera da emboscada a Marighella.
Mais de 30 presos: o padre dominicano João Antônio Caldas Valença; estudante dominicano Roberto Romano da Silva; Magno José Vilela; Tito de Alencar Lima; Giorgio Callegari; Carlos Alberto Libanio Christo, diácono e estudante dominicano; Luís Felipe Ratton; padre Edson Braga, prior do convento da Rua Caiubi. O ex-provincial Francisco Augusto Carmil Catao; o padre Manoel Vasconcelos Valente; monsenhor Marcelo Pinto Carvalheira; e o jesuíta Francisco de Paula Falcão e Castro.
Como os órgãos de segurança chegaram a Marighella?
O enigma histórico dilacera até hoje algumas consciências, inconformadas com a versão de que os freis Ivo e Fernando foram monitorados, perseguidos, sequestrados e torturados no Cenimar/RJ, para revelar o “ponto” com Marighella.
Frei Betto diz que tudo foi armação para desmoralizar a Igreja, rompida com o regime desde 1968 (AI-5).
“Vós sois o templo de Deus”. A religião na política foi um ingrediente explosivo nas relações entre o Estado e a Igreja. Os bispos progressistas da Igreja católica, opondo-se á cúpula conservadora, tiveram um papel da maior importância na história recente.
E os dominicanos resolveram levar suas teorias á prática política, foram á luta arcando com todas as consequências, naqueles tempos em que, segundo Benedetti, “ditaduras militares passaram sobre sociedades como bulldozer dizimando conquistas sociais e culturais que levaram mais de meio século para serem construídas e consolidadas”.
Palavras-chave: prisão de dominicanos; resistência armada.
*João Teixeira, jornalista e escritor, é membro do Conselho Editorial do Jornal Contratempo.

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