Arte de resistência- II

“Vence na vida quem diz sim”. Chico Buarque inspirou-se nos desastres morais do cotidiano para compor essa irônica canção. A lírica buarquiana evoca a relação incestuosa entre o algoz e a vítima, o opressor e o oprimido, o sujeito e o objeto. O explorador e o explorado.
(“…se te dói o corpo, diz que sim…”). Se, pelo contrário, resolveres ser o que és, liberar tua alma e exerceres teu espírito crítico sobre as coisas, como agem as pessoas altivas e desbravadoras, de intelecto e moral superior, corajosas, prepara-te para o pior. Principalmente agora, quando o Holocausto caboclo produz quase meio milhão de mortos que parecem causar indiferença ou estupor, por detrás de nossas máscaras.
(“… se te dão um soco, diz que sim…”). As reações fanáticas ou alienadas surgem de todos os lados, por parte dos que lutam contra a própria consciéncia para deixar tudo como está. A triste condição humana.
O humor, a charge, a chacota, sempre foram armas quentes contra o autoritarismo. Incomodam os governantes e seus acólitos e tiram as pessoas da zona de conforto.
Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho (Chico Anysio), o “mestre do humor” no Brasil, não ganhou este título á toa. Também recebeu em 2009 a Ordem do Mérito Cultural, a mais alta honraria da cultura.
(“…torcem mais um pouco, diz que sim”). O humorista nascido em Maranguape (CE) em 12 de abril de 1933 e falecido em 23 de março de 2012, foi ator, redator, produtor, locutor, roteirista, escritor, dublador, apresentador, compositor e pintor. Atuou na TV Globo por mais de 40 anos, criando dezenas de tipos inesquecíveis na memória popular. Atuou com Paulo Gracindo, Costinha, Grande Otelo, Jó Soares, Renato Corte Real, Agildo Ribeiro, Ivon Cury e José Vasconcelos. Pioneiro da TV no Brasil, em 1960, na TV Rio (a educação na TV surgiu aí com os telecursos), introduziu os recursos do video-tape no “Chico Anysio Show”. Depois, vieram “Chico City”, “Chico Total” e a “Escolinha do Professor Raimundo” – neste deu emprego a 250 antigos profissionais do riso que andavam encostados na carreira.
(“…se te deixam louco…) Chico Anysio era irmão do cineasta Zelito Viana e do industrial, compositor e ex-produtor de rádio Elano de Paula. Tio do ator Marcos Palmeira.
Como arguto observador da realidade social, o genial humorista criou o estereótipo do político corrupto – “Justo Veríssimo” com seu atualíssimo bordão “o povo que se exploda”. A casta parlamentar de Brasília pressionou a emissora para que o demitisse. Em vão. Chico Anysio – como Ronald Golias – era simpatizante (ajudava financeiramente) e apoio (levava documentos clandestinos para o exterior) do Partido Comunista Brasileiro (PCB).
E fazia valer seu prestígio e influência politica: foi Chico quem intermediou a volta de Caetano Veloso do exílio, em Londres. Em 1968, Caetano Veloso e Gilberto Gil, os criadores da Tropicália, foram presos na Praça da República, logo após o AI-5. Os baianos moravam na Avenida São Luís. Foram enviados para um quartel no Rio, interrogados, tosquiados de suas cabeleiras e humilhados pelos militares. Gil compôs “Aquele abraço” na Av. Getúlio Vargas, ao ser libertado. Em seguida, partiram para o exílio londrino.
(“….se te babam no cangote…”). Outro caso de perseguição artística sofreu Sérgio Arapuá de Andrade – Arapuá- , jornalista, publicitário, humorista, cartunista e cronista esportivo. Nasceu em 1928 e faleceu em 1999. Arapuá, entre os anos 1950/70, tinha uma coluna famosa (“Ora bolas”) no jornal Última Hora (UH). Criticava com humor a política americana e foi demitido em 1962. “Nós viemos aqui para beber ou pra conversar”, para a Antártica, é uma de suas criações mais conhecidas. Também escreveu o livro “Como ganhar eleições usando rádio e TV”.
(“…se te alisam com chicote…”). Elis Regina de Carvalho Costa, a maior cantora do Brasil, foi vítima dos companheiros que a aplaudiam. Elis morava sozinha com o filho, João Marcelo, no Brooklyn. Chantageada pelo algoz das esquerdas, o delegado Sérgio Fleury, que ameaçou retirar a guarda do filho de seu casamento com Ronaldo Bôscoli, caso não cantasse no Círculo Militar, Elis se desesperou. Foi aconselhada por amigos a não criar problemas com as autoridades e fizesse a apresentação oficial. A cantora foi obrigada a dar muitas entrevistas para explicar sua atitude.
A intérprete do hino da anistia, “O bêbado e a equilibrista” (Bosco/Blanc) passou a ser retaliada pela própria esquerda da MPB. Elis não foi convidada para participar do “Show da Anistia”, em 1979, produzido por Fernando Faro., com Toquinho e Chico Buarque.
(“…se te jogam lama…”).
Cineasta baiano Glauber Rocha, criador do Cinema Novo, voltou a sua rotina quase indigente ao deixar a prisão em companhia de outros intelectuais que realizaram o primeiro protesto público contra a ditadura, em 1965. Sem dinheiro, nem equipamentos nem patrocínio para tocar seu cinema marginal. Glauber lutava com dificuldades para sobreviver e sustentar ex-mulheres, filhos e fazer cinema, sua paixão. Em Paris, badalado pelo “Cahiers du cinema”, a bíblia dos cinéfilos, alistou na ALN de Marighella usando o nome de guerra de “Severino”. Atuava como representante da Organização armada nos meios artísticos e intelectuais europeus.
(“…se te deitam na cama…”). Glauber exilou-se em Nova Iorque em 1971 e retornou em 1976. Elogiou a abertura de Geisel e novamente as pedras voaram sobre sua cabeça.
Muita gente entrou em cana por falar demais. Outros por pura ingenuidade. Inclusive algumas estrelas da intelectualidade. Foi o caso do dramaturgo Augusto Pinto Boal, diretor de teatro e fundador do Teatro de Arena, que desembarcou aqui trazendo no bolso do paletó uma carta de Marighella para um amigo.
Boal foi preso no aeroporto e a carta apreendida. As autoridades não o tocaram no Dops, assim como ocorreu com o compositor Geraldo Vandré que nunca levou um tapa, embora a lenda diga o contrário.
Os policiais estavam mesmo atrás da mulher de Boal, Albertina Gordo de Oliveira, que não teve tanta sorte: caiu do “pau-de-arara” e ficou aleijada. (“….se te chamam moribunda…). Ditadura, nunca mais!

Foto: arquivo pessoal João Teixeira