Frei Tito, o cordeiro imolado de Deus

João Teixeira*
“Orgulho-me de participar hoje, na carne e no espírito, da mesma situação vivida por aqueles que lançaram as sementes do Evangelho”.
Os freis dominicanos perseguidos, presos e torturados na sequência de fatos que antecedeu á emboscada policial que fuzilou Marighella, em 4 de novembro de 1969, criaram sua própria mística nos anos de chumbo.
Estavam, em 1970, recolhidos no Presídio Tiradentes, mergulhados em profundas reflexões.
“Ninguém é livre sem que tenha encontrado a si mesmo”.
“A prisão leva -nos a explorar as imensas riquezas da mente e do espírito”.
O envolvimento de religiosos na oposição armada ao regime dos generais (1964/85), como temos mostrado, arruinou reputações- o jornalista e professor Lenildo Tabosa, da Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero e editorialista do Estadão, próximo da Tradição, Família e Propriedade (TFP), visitou os freis presos no Dops e morreu dedo-duro -, abalou as relações do Vaticano com Brasília e foi um divisor de águas na vida dos religiosos.
“A polícia divulgou a morte de Marighella como se os responsáveis fossem Ivo e Fernando, mas a verdade é que a repressão decidiu envolver os dominicanos para, em primeiro lugar, encobrir quais eram as fontes para chegar a Marighella. E também para desmoralizar a Igreja (Católica) porque, desde o AI-5, a Igreja começou a se opor á ditadura militar”.
Os dominicanos realizaram um imenso trabalho apostólico na cadeia – a Universidade do Povo.
Nesta via crucis, o cordeiro isolado do mundo e imolado pela violência da guerra teve um nome: Tito de Alencar Lima.
Os dados pessoais do frei cearense, organizador do Congresso da UNE em Ibiúna (SP) juntamente com Therezinha de Godoy Zerbini, fundadora do Comitê Feminino pela Anistia, estão na Internet.
Desestruturado psiquicamente na tortura cruel a que foi submetido no Dops e no DOI, da Rua Tutóia, frei Tito nunca mais se recuperou.
No exílio, em Paris, isolado no convento Saint Jacques, foi morar num apartamento alugado.
Havia introjetado a figura sinistra do torturador, o delegado Fleury, o algoz da esquerda armada.
Tito delirava, falava sozinho, e entrou em profunda depressão por ter rompido os votos de castidade.
Envolveu -se em incidentes desagradáveis com os amigos, de difícil convivência.
O cordeiro de Deus não era unanimidade.
Ex-frei Roberto Romano: “Tito mártir? Ele tinha luz e brilho próprio dentro desse coletivo. Sem rancor de ter sido preso vinculado á ALN (organização armada de Marighella). Morreu com ele. Nunca foi seu projeto político ou pessoal…”.
“…Tito não se suicidou somente pela tortura. Estava em xeque a dolorosa opção entre a vida religiosa e a civil. Inclusive a parte sexual…”
“…quiseram transformá-lo em Nosso Senhor da Libertação masculino. Durante um encontro da SBPC, em 1982, montaram uma barraca com santinhos e pequenas historietas do tipo ‘Assim viveu Tito’. Essa criação do diácono Betto é inadmissível”.
Roberto Las Casas: “ficava a noite inteira falando sem parar na morte de Marighella. Voltava para o convento com os bolsos cheios de pedras que o machucaram bastante”.
Perscrutando o horizonte, repetia, ‘o Fleury está lá fora, no prédio em frente’. Não havia prédio em frente do convento”.
Certa vez, foi visitar Rui Rodrigues da Silva, e este desceu um momento para buscar pão. Quando voltou não o encontrou. Tinha ido para a casa de Magno Vilella e assustado, repetia,’Rui foi buscar a polícia para me prender'”.
Frei Tito enforcou-se no dia 7 de agosto de 1974.
O cordeiro expirou no dia 4, antigo Dia de São Domingos.

Palavras-chave: anos de chumbo; religiosos perseguidos.
*João Teixeira, jornalista e escritor, é membro do Conselho Editorial do Jornal Contratempo.

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