O assombro do eterno passado

O assombro do eterno passado
João Teixeira*
O jornalismo independente, defensor de causas populares e fiscalizador do poder público, sempre foi perseguido e massacrado pelas classes dominantes nestes trópicos.
O Correio Braziliense, pioneiro dos jornais brasileiros, no século XVIII, expôs, no nascedouro, o destino da Imprensa independente: o exílio.
O Correio, editado em Londres por Hipólito José da Costa, era afinado com a monarquia e nem era tão crítico assim.
O empastelamento de jornais de oposição foi prática rotineira na Monarquia (1822/89) e na República (1889 – …), bem como a prisão de editores, jornalista e é gráficos, como ocorreu com o jornal Hoje (PCB) em 1946, no governo Dutra.
A paranoia anticomunista dos generais de 1964 agravou essa triste sina.
A asfixia econômica (corte de publicidade oficial e do fornecimento de papel e alijamento de concorrencias) manietava os órgãos críticos da grande Imprensa aos interesses do poder
Nos dias atuais, o cinismo de generais cooptados como burocratas nesta triste era bolsonarista que atravessamos, tem precedente histórico.
Em 1970, o general-presidente Médici negou a existência de presos políticos no Brasil, diante da Imprensa estrangeira.
As prisões estavam lotadas de prisioneiros políticos.
Agora, fizeram chacota diante de vídeos de sessões de vídeo do Superior Tribunal Militar em que os ministros debatiam casos de torturas em presos políticos.
Ou seja: a última instância do poder militar, na cadeia de comando, conhecia os horrores praticados nos porões do regime.
“Punir a quem?” – afirmou o vice general Mouráo – “estao (os torturadores) todos mortos”.
O assombro das aberrações do Brasil – quartel, essa nação miscigenada formada por caboclos, uma sociedade quase de castas, estamental, vanguardista em concentração de renda e injustiça social, exaure o psiquismo e abala nossas forças emocionais.
Os meios de comunicação nos anos de chumbo eram proibidos pela Censura – mais pela autocensura na maioria dos jornais – de tocar em temas sensíveis, como racismo, religião, família, homossexualismo, Black Power (Poder Negro americano), enquanto o jornalismo marrom, mercenário, popularesco, espetaculoso, como os que predominam nestes tempos trevosos, ofereciam á população o sangue, circo e sexo da Roma dos césares.
Os militares, gendarmes dos interesses das classes dominantes, proibiram tudo que pudesse causar pânico ou sublevar a população, em nome da Lei de Segurança Nacional (LSN).
Inclusive as epidemias – como o negacionista Bolsonaro tentou em vão fazer com a Covid.
Em 1972, ano do Sesquicentenario da Independência, os militares proibiram a divulgação de notícias sobre a epidemia de meningite, que também matou milhares de pessoas.
Dois jornalistas, que tentaram furar o cerco da Censura, foram presos em nome da LSN.
Desta forma, criminosamente, em nome das conveniências (?) do Estado, os cidadãos ignoraram milhares de casos de meningite e as mortes decorrentes, porque sonegaram-lhes as causas da doença, as prevenções necessárias e noções básicas de higiene.
O mesmo procedimento ocorrido em 2099, já na democracia, em relação á gripe suína e a dengue.
Ontem como hoje.
O mesmo bumba-meu-boi inferniza nossas vidas ante a passividade e a catatonia cívica da maioria.
O secretismo antidemocrático do poder autoritário- civil ou militar – estende -se impiedosamente sobre a saúde pública.
Nossa resistência a esse destino impõe reverter o anacronismo de Millor: “o passado no Brasil tem muito futuro”.
Palavras-chave: anos de chumbo; Imprensa censurada; jornalistas perseguidos.
*João Teixeira, jornalista e escritor, é membro do Conselho Editorial do Jornal Contratempo.

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