O guerrilheiro sócio da ABI na imprensa

Anos de chumbo
O guerrilheiro sócio da ABI na Imprensa
Por João Teixeira*
“Minha ordem foi clara. Quando sentirem que alguém vai atacar, podem atirar para matar”.
A ordem do general Sizeno Sarmento, que acompanhava a busca aos guerrilheiros na Serra do Mar, foi obedecida pelos soldados.
Os guerrilheiros do Movimento de Ação Revolucionária – MAR, haviam empreendido uma fuga espetacular da Penitenciária Lemos de Brito e preparavam-se para engrossar a resistência armada contra o regime militar (1964/1985).
Em A Rebelião dos Marinheiros (Ed. Artes e Ofícios, pág. 140, 1997), Avelino Capitani escreveu: “O plano com Marighella ficou acertado, e havia contatos com a VPR, num movimento orientado para unificação de todas as forças. Começamos a preparar a saída, mas os acontecimentos escaparam ao nosso controle. No tiroteio que seguiu um frustrado assalto a banco, o Zé Duarte foi preso (…) a polícia encontrou no carro um pequeno diário enviado pelo Antônio Duarte. Ninguém sabia da existência desse diário, pois era um hábito completamente proibido. (…) nunca soube porque o Duarte resolveu fazer o diário e mandar para o irmão. A tarefa da repressão ficou bem mais fácil. Um pequeno estudo do diário e um exame dos dados foram suficientes para terem uma ideia bem aproximada do local e surpreender o grupo”.
Os irmãos José Duarte e Antônio Duarte, o “Japones”, famoso na época, eram potiguares, do Rio Grande do Norte, filhos de militares, e haviam sido diretores da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais, proibida em 1964, como a maioria dos membros do MAR.
Localizados, os fugitivos da prisão travaram um formidável combate contra o Batalhão Humaitá, a tropa de elite dos Fuzileiros Navais.
Em 21 de agosto de 1969, a revista O Cruzeiro, dos Diários Associados, publicou a reportagem A Guerrilha no Brasil. Cláudio Rocha descreveu assim o histórico combate nas montanhas do litoral fluminense:
“Durante o último fim de semana, toda uma região do litoral do Estado do Rio, em Angra dos Reis, passou a ser alvo do noticiário e atenção nacionais. Ali estariam sendo localizados e combatidos pelo Exército, Marinha e Aeronáutica, os primeiros de uma série de focos guerrilheiros surgidos em território brasileiro”.
A revista O Cruzeiro, a maior do Brasil nos anos 1960, alcançava tiragens de 250 mil exemplares, era um fenômeno editorial, como primeira revista de circulação nacional. A revista Manchete, da Editora Bloch, era sua maior concorrente.
O texto prosseguia: “na cidade, ocupada por fuzileiros, todos eram revistados, e as casas e sítios da região eram cuidadosamente vasculhados por soldados e agentes do Dops e Cenimar, em busca de material a ser usado pela subversão. Eram três mil homens armados. Ninguém entra ou sai da região. Dois helicópteros controlam toda a região (…).
William Faulkner disse que “o passado não está morto, nem sequer é passado”.
No Brasil, o passado ainda é motivo de dúvidas. A manipulação da opinião pública e a ocultação de documentos são formas de provocar o esquecimento coletivo.
O Cruzeiro: ” Na tarde de sábado, na localidade de Monsuaba, no alto da Serra da Posse, os fuzileiros tiveram o primeiro contato direto com os homens que guardavam um sítio. Houve luta, um homem foi morto, outro ferido, enquanto dois conseguiam escapar (…).
O guerrilheiro ferido, o jornalista e sócio da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) Pedro Viegas, acabou preso na toca do lobo, em Monsuaba, como contamos no artigo anterior.
“(…) no sítio foram apreendidas armas modernas e uma estação de rádio, receptora-transmissora. Em Jacuecanga, localidade da região, que se presume seja a mais próxima do QG guerrilheiro, os comerciantes e habitantes da cidade tem ordem de não comentar nada e permanecer em silêncio. Impressionados com a quantidade de armas encontradas, e com a descoberta do campo de pouso para helicópteros, as tropas do governo agem com a máxima cautela (…)”.
Hannah Arendt: “o passado nos assombra; é função do passado assustar a nós que somos presentes e queremos viver no mundo como ele realmente é, como se tornou o que é agora”.
Os governantes sempre tentaram – e continuam tentando – varrer para debaixo do tapete as “realidades desagradáveis ou indesejadas”, constatou Arendt.
Não há perdão sem punição, porém o ato de perdoar serve para desfazer fatos do passado.
A Imprensa censurada dos anos de chumbo divulgava informes oficiais e dava asas á imaginação. Exagerava. Tornava o inimigo maior do que era para justificar ação da máquina de guerra.
Na verdade, os guerrilheiros possuíam apenas quatro carabinas M-1; duas espingardas de cartucho, calibres 22 e 32; um rifle “papo amarelo” (Winchester 44); e revólveres calibre 38.
O Cruzeiro: “em Angra dos Reis, fala -Se muito em Carlos Lamarca, que estaria comandando a guerrilha em toda região. Oficialmente não se sabe de nada (…)”.
Pedro Viegas, o guerrilheiro sócio da ABI, escreveu Trajetória Rebelde, leitura obrigatória para compreensão dos fatos aqui narrados.
Sobre a reportagem, mistura de realidade e ficção, imposta pelos donos do poder, que aludia á existência de um arsenal para armar um Exército, comentou:
“Era pouco para nossas pretensões revolucionárias, mas não saímos de mãos abanando, sem combater”.
Os vietnamitas de Gia-Dinh, província da ex-Saigon, atual Ho-Chi-Minh, no Vietná, haviam começado a guerra vitoriosa contra os EUA com uma carabina capturada dos marines norte-americanos.
Palavras-chave: anos de chumbo; luta armada; Imprensa perseguida.
*O jornalista e escritor João Teixeira é membro do Conselho Editorial do Jornal Contratempo.

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