Janeiro Branco é momento de pensarmos na Atenção Psicossocial

 

Luiz Bosco Sardinha Machado Jr. CRP 06/96910 Psicólogo do Município de Taquarituba-SP Doutor em Psicologia pela Unesp – Assis

O Janeiro Branco no Brasil é mês de campanha pela conscientização da importância da saúde mental. Complementando o Setembro Amarelo, mês de prevenção ao suicídio, traz a oportunidade de refletirmos sobre os inúmeros fatores envolvidos nesse campo. Não basta repetirmos chavões: precisamos pensar a realidade na qual vivemos e construirmos propostas de maneira que respondamos às suas demandas.

Temas como depressão, ansiedade, autismo, entre outros, estão bastante presentes nas mídias, incluindo as redes sociais. Contudo, estamos longe de superar preconceitos seculares, que veem a saúde da mente como algo abstrato, e o sofrimento mental, intitulado “loucura”, como algo perigoso, desordenado, que deva ser deixado longe das pessoas consideradas “normais”.

Todos que não se adequavam a essa suposta normalidade poderiam acabar trancafiados em hospícios até não muito tempo atrás! A lei que muda essa realidade é de 2001, estabelecendo a Atenção Psicossocial como o modelo de cuidado à saúde e sofrimento da mente no Brasil. Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), hoje bastante disseminados pelo Brasil, são as instituições que trabalham conforme esse modelo, substituindo o anterior, conhecido como asilar ou manicomial, que via a internação em hospício como a única forma de tratamento.

No atual modelo, já não enxergamos aquele que apresenta algum sofrimento mental como alguém que possua um “desvio moral”. Essa concepção ainda está presente quando, por exemplo, fala-se que o problema com álcool e drogas seja “safadeza”, ou que depressão seja “preguiça”. Compreendemos que essas e outras situações não têm origem no caráter e sim em fatores complexos, muitos deles fora do alcance das decisões individuais (como fatores econômicos, sociais etc.).

Na Atenção Psicossocial, também não vemos o “louco” como perigoso. A realidade é que são tão perigosos quantos os ditos “normais”. O “louco” não é um santo, mas também não é naturalmente mau. Apresenta uma diversidade de conduta tão grande quanto podemos encontrar em qualquer grupo de pessoas. Afirmar que o sofrimento mental é sempre perigoso foi uma forma de justificar o encarceramento em  massa daqueles que sofrem.

Outro aspecto diz respeito à “doença mental”. Os modelos tradicionais de psiquiatria e psicologia visavam apenas a doença, ou transtorno. Não conseguiam enxergar a pessoa em sua totalidade! Dava-se atenção apenas ao “mal” que havia naquele sujeito e que deveria ser expurgado. Como essa visão é fadada ao fracasso, o destino daqueles que sofriam era passarem a vida enclausurados ou, quando tinham muita sorte, dopados e esquecidos.

Hoje compreendemos que o sofrimento mental não está relacionado apenas a questões da mente do indivíduo. Existem aspectos biológicos e de ordem individual, que estão relacionados à história de vida da pessoa e da sociedade na qual ela vive. Somos todos constituídos por atitudes, valores e comportamentos que nos são ensinados nas diversas esferas sociais (família, escola, religião, trabalho etc.). Estar em uma situação que adoece nossas emoções, pensamentos e personalidade não é algo que depende de simples escolhas, sendo relacionada diretamente à forma como a sociedade impões padrões de “normalidade” e rejeita violentamente aqueles que não conseguem aderir a eles! Ou seja, a própria ideia de “normalidade” produz a “anormalidade” e impõe distinções e preconceitos entre as pessoas.

Na Atenção Psicossocial compreendemos que as pessoas precisam ser cuidadas não apenas em sua “doença”, mas em todas as dimensões de sua vida – em sua socialização, sua aprendizagem, sua capacidade de trabalhar, seu lazer, seu fazer artístico, sua formação cultural, entre muitas outras.

Além disso, não há verdadeira recuperação de uma pessoa em sofrimento mental se a afastamos da sociedade. É participando do dia a dia em sua comunidade, inserida no convívio, com o apoio de profissionais diversos, que ela recobrará o sentido de sua vida.

Um dos aspectos mais comuns e dolorosos é justamente o sentimento de não se encaixar, de não conseguir fazer parte de nada, nem ser aceito por ninguém. A Atenção Psicossocial preza pelo acolhimento, trabalhando sempre de portas abertas, sem trancar ninguém, logo, está ali quem quer e sabe que precisa, encontrando reais condições para dar outros sentidos a sua existência.

Tudo isso não é simples e exige mais do que o trabalho dentro dos CAPS. É um modelo de trabalho que tem essa instituição como ponto de partida, mas envolve toda a sociedade, dialogando com os mais diversos setores. Dentro da própria Saúde Pública, a Atenção Psicossocial está sempre trabalhando com a Atenção Básica ou Primária (“postos de saúde”, UBS); insere-se na Educação, desenvolvendo ações de cuidado, mas também de prevenção (agora com a recente Lei da Atenção Psicossocial nas Comunidades Escolares, esse aspecto deverá ser ainda mais reforçado); articula-se com a Cultura, pois esta é fundamental para uma vida plena e para a expressão de si; o mesmo podemos dizer da articulação com os Esportes, com a inserção no mercado de trabalho, enfim, com tudo aquilo que é importante para a vida humana.

Fica evidente a importância de acompanharmos de perto as políticas públicas para que uma autêntica Atenção Psicossocial se efetive. Neste ano, teremos eleições municipais; momento perfeito para procurarmos saber se nossos candidatos conhecem esse modelo de cuidado à saúde mental e o que pretendem fazer para defendê-lo e ampliar sua implementação.

Além disso, nossa consciência de coletividade precisa ser desenvolvida para enxergarmos naquele que sofre uma pessoa que também merece espaço e participação plena na sociedade, não estando abaixo de ninguém e não merecendo ser trancado em qualquer espaço que seja, mesmo que sob pretexto de “tratamento”.

 

 

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