Sobre o caso do professor da Unifio

Diogo Almeida

Filósofo e Historiador

Autor do livro “Por que Bolsonaro é uma anomalia civilizacional?”

 

Não é linchamento virtual ou cancelamento gratuito, mas sim, é uma questão de bom senso! (texto um tanto longo abaixo)

Acabei de ver um vídeo mais completo de suas palavras, logo após o ocorrido que fez o mesmo agora ser conhecido em todo o território nacional, exposto na grande mídia.

Com atenção, paciência e toda empatia eu quis escutar o que o professor tem a dizer sobre a exibição de um fragmento de vídeo no qual o mesmo professor diz que recortaram o que quiseram e fizeram dele um alvo a ser atacado como misógino, machista e etc.

Não quero nem entrar no mérito que os alunos argumentam que o que ocorre nesse vídeo dito logo acima é corriqueiro faz tempo, mas vamos lá:

Ele diz que faz mais de 10 anos que é professor dos cursos de Direito e que usa o mesmo exemplo todo esse tempo…

Também fui e sou professor de formação há mais de 10 anos e posso garantir que, pelo menos nesses últimos 6 anos, no mínimo, os exemplos utilizados pelo professor perderam seu lugar de fala. Não por uma questão jurídica, apenas, ou por doutrina do Direito, mas simplesmente porque certas coisas aprendemos que não se fala mais, por puro bom senso, crescimento intelectual, social, pessoal e profissional.

Se ele é mesmo professor, quero saber por quantas reuniões pedagógicas ele já passou! Pois bem, tudo começa quando alguém sem formação didático-pedagógica, ou seja, a Licenciatura, aquele que consegue lecionar para uma criança, também ser capaz de lecionar para adultos no ensino superior.

Não é isso que qualifica um professor, obviamente. Existem ótimos professores universitários sem passagem pela educação básica e são tão bons profissionais quanto. A questão é que cada vez que participamos de reuniões como essas, analisamos sugestões, métodos, modos de lecionar. E entre esses métodos, inclusive, recebemos alguns puxões de orelha que, talvez algumas vezes estejamos certos, mas muitas outras estamos errados, e não só podemos como devemos mudar de postura e atitudes.

Certamente nesses últimos 6 anos, no mínimo, ele deve ter ouvido comentários de pelo menos 1 aluno, talvez até homem, que teria dito que talvez não fosse muito apropriado fazer certos tipos de comentários, exemplos e anedotas.

Os professores infelizmente, ou felizmente algumas vezes, são o exemplo máximo a ser seguido. Por sorte, tem muita gente que leciona que ensina e aprende, com os alunos e com ele mesmo, todos os dias, todas as horas. Errar é parte da natureza dos humanos, então, nada demais em errar, reconhecer e recorrer, pedir desculpas, alterar os rumos. Que professor, creio que seja mais comum do que gostaríamos, não fez por algum momento infeliz algum comentário que tivesse soado preconceituoso, ou machista, ou homofóbico, ou racista, entre outros?!

Não deveria acontecer, mas que professor, que está com toda a atenção voltada para ele, mesmo com uma aula preparada, dono de sua “liberdade de cátedra” – argumento utilizado pela Instituição de Ensino -, não acabou deslizando em algum desses comentários delicados?! Não é fácil estar a frente e ter que manter a atenção de 30 pessoas no que você fala e se propõe a ensinar.

Errar é possível, sim, todos erramos, infelizmente!

Mas a tal “liberdade de cátedra” é a voz dos corajosos… quem se coloca no silêncio dos acomodados nunca será punido pela sua liberdade na cátedra de falar e ensinar o que quiser e bem entender. Aquele que diz demais o que pensa, acaba encontrando o crivo da exclusão, sim. Mas, creio eu, essa “liberdade de cátedra” não tem relação com posicionamentos preconceituosos ou agressivos e violentos. Liberdade de cátedra é sua condição de poder falar de relações filosóficas, sociológicas, historiográficas e científicas, sejam elas quais forem, de acordo com sua ideologia, porém sem ofender ou desagradar alguém. Liberdade de cátedra é poder dizer, por exemplo, que o homem evoluiu de um ancestral comum com os macacos, segundo Darwin, mas isso não pode me levar a ser demitido porque estou dizendo isso dentro de uma escola confessional de padres ou protestantes. É bem diferente.

Não há liberdade de cátedra quando o erro de ser demasiado jocoso com coisas que não se fala mais nem em reunião de família, porque é extremamente preconceituoso. Feito isso, quebra-se o pacto social tácito elaborado entre professor e aluno, como se fosse um contrato de convivência e, como ele mesmo diz na entrevista, de tolerância, e para que disso haja superação.

Não é uma questão de “politicamente correto” que gere “cancelamento”, como querem nos fazer acreditar alguns seguidores do Bolsonaro, este que adora colocar a culpa de todas as mazelas do Brasil na falta de liberdade em contar uma piada de preto, porque, na cabeça dele e desses fãs dele, sempre foi assim, afinal, para eles, é apenas uma piada de preto, que ele talvez nem se sinta ofendido… Pra quem pensa assim, está é faltando mais conhecimento de psicologia, história e sociologia, certamente!

Enfim, não tenho relevância nenhuma em me posicionar nesse caso, nem moro mais em Ourinhos e no Brasil, mas devo isso aos meus amigos – sensatos -, e aos meus ex-alunos, em todas as esferas.

Assim, reforço: é uma questão de bom senso, apenas!

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