O fura-fila das vacinas é mais um ataque a população na pandemia

Por Alexandre Padilha

No dia que o mundo homenageava, pelo segundo ano consecutivo, os profissionais de saúde pela luta contra a maior tragédia humana já registrada no Brasil, no Dia Mundial da Saúde, celebrado no dia 7 de abril, a Câmara dos Deputados aprovava o Projeto de Lei que autoriza a compra de vacinas contra Covid-19 pelo setor privado antes do cumprimento da vacinação de grupos prioritários e tira a obrigatoriedade da doação de doses ao SUS. Legalizaram o fura-fila da vacina.

É importante esclarecer que já havia sido aprovado no Congresso Nacional um outro PL que garante que empresas comprem vacinas desde que sejam aprovadas pela Anvisa, doadas ao SUS para que todo o grupo prioritário seja vacinado e proíbe a comercialização.

Essa medida é o que chamo de “Camarote das Vacinas” porque autoriza que um empresário de 50 anos passe na frente e se vacine antes de um idoso de 65 anos, por exemplo. Ele significa que quem tem mais dinheiro pode receber a imunização antes de quem realmente precisa e não pode pagar. É mais um ataque ao povo brasileiro e mais uma irresponsabilidade na condução da pandemia.

Todas as vacinas devem ser bem públicos, ainda mais em se tratando de medidas de proteção de uma pandemia que tirou a vida de milhares de pessoas no mundo. Esse PL simboliza o fim do nosso Programa Nacional de Imunizações, já tão desvalorizado pelo governo Bolsonaro, e representa uma parte da elite brasileira que ainda tem visão escravocrata. Nenhum país adotou essa proposta, nem mesmo os Estados Unidos, país mais capitalista do mundo e que tem sistema privado de saúde.

A vacinação é proteção coletiva e os grupos prioritários devem ser vacinados o quanto antes, só assim vamos superar a crise sanitária. É possível o SUS vacinar toda a população brasileira. Na pandemia de H1N1 o Brasil vacinou mais de 80 milhões de pessoas em três meses. Se Bolsonaro tivesse seguido o que foi feito à época, nós já teríamos mais de 80 milhões de pessoas vacinadas no Brasil, o que significam todos os idosos, profissionais de saúde, trabalhadores da educação, segurança e assistência social, pessoas com deficiência, com doenças cardíacas, diabetes e pulmonares e todos os trabalhadores dos serviços essenciais.

Bolsonaro se negou a contratar vacinas em 2020, cerca de 700 milhões de doses foram oferecidas ao governo brasileiro, e agora estamos em uma situação de lentidão do programa de vacinação. Temos o total de 500 milhões de doses que foram contratadas em março, mas que só devem chegar no segundo semestre. Do jeito que está, o cronograma de vacinação da população prioritária só será concluída com as duas doses em 2022.  O que vai fazer com que o Brasil até lá tenha um rastro de mortes e sua recuperação econômica profundamente adiada e atrasada.

O projeto não trará mais vacinas para o Brasil, ele tira as vacinas do SUS e dá para um grupo seleto de brasileiros. Não podemos permitir que uma pessoa que tem dinheiro passe na frente de alguém que precisa mais rapidamente tomar a vacina. Vamos barrar esse PL no Senado.  É uma vergonha se essa lei for sancionada e reforça o vexame que o Brasil está passando com relação a resposta do controle da pandemia.

*Alexandre Padilha é médico, professor universitário e deputado federal (PT-SP). Foi Ministro da Coordenação Política de Lula e da Saúde de Dilma e Secretário de Saúde na gestão Fernando Haddad na cidade de SP.

Juliana Neves

Escrevo com a intenção de mudar o mundo ofertando a verdade para a sociedade. Mas a luta é diária e constante, realmente, vivendo e aprendendo e tendo o jornalismo como meu aliado.