À mulher de César não basta sê-lo, tem que parecê-lo

Filipe Martins, assessor especial para Assuntos Internacionais do Presidente da República, lembrou-se de usar um gesto supremacista para arrumar a lapela. Se a situação não fosse grave o suficiente, percebemos claramente que o assessor está constantemente no celular e muita gente ficou com a ideia que estava a passar mensagem para alguém, assim de repente posso pensar em Weintraub, Olavo de Carvalho, André Ventura (o da extrema-direita em Portugal) ou até mesmo Donald Trump.

Ao juntar os dedos indicador e polegar da mão direita, deixando-os visíveis para as câmeras, mostra claramente que não se trata de consertar uma lapela. Ninguém que seja contra supremacistas, racistas, tem a ousadia de efetuar tais gestos, até porque são gestos que causam repulsa.

Lembremos que não é a primeira vez que Filipe Martins se espelha em atos supremacistas. Citou uma frase do manifesto de Tarrant, o supremacista branco de extrema-direita, que matou 51 pessoas em 2019 na Nova Zelândia, e que também ele usou o gesto de supremacistas.

Mas este governo não se fica pelo “pequeno” Filipe Martins. Não tem como esquecer o discurso de Roberto Alvim, copiado do discurso de Goebbels, com utilização de música de compositor antissemita.

Ou o famoso copo de leite, em maio de 2020, em transmissão ao vivo pelo próprio Presidente, com o argumento que seria um desafio da Abraleite, mas que, estranhamente, nem foi citado na live, somente no dia seguinte quando o caso tomou repercussão gigantesca. Ou lembrando de um apoiador tirando foto com o genocida, fazer o gesto de supremacista, e o mesmo falar “eu sei que é um gesto bacana, mas não pega bem para mim”. Ou também, enquanto deputado federal, falando que foi num quilombo, que o afrodescendente mais leve pesava 7 arrobas.

E não podemos esquecer o futuro ex-ministro Ernesto Araújo, porque a hora que estou escrevendo a vossa crônica, sua situação é periclitante, que chamou o vírus de comunavírus e que o uso de máscara e o isolamento social eram uma espécie de antessala para o início de uma sociedade totalitária em vários países. Para este governo e seus fanáticos seguidores, o comunismo come crianças, uma velha ideia que se converteu hoje numa frase irônica.

Toda esta miscelânea (prefiro achar que são peças literárias e não a realidade, ao invés de achar que é bagunça, porque acredito que tudo tem um propósito) nos leva a famosa frase sobre a festa de Pompeia, esposa de Júlio César. Ao realizar um festival só para mulheres, um jovem patrício disfarçado de mulher conseguiu participar com o objetivo de a seduzir. Júlio César se separou de Pompeia e argumentou que a mulher de César não basta ser honesta, é preciso parecer honesta. Ou então, aplicando uma frase mais atual, diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és.

São muitas situações sob a batuta do racismo, da xenofobia, da supremacia branca, que nos levam a pensar que se trata algo orquestrado, planejado. Não é possível encararmos como situações pontuais, temos que ver como um todo e o todo da obra assusta demais.

No Brasil, temos mais de 312 mil óbitos fruto de um governo genocida e de políticos de meia tigela que se quiseram aproveitar da pandemia para se fazerem notar. São impossíveis o Congresso e a Câmara nada fazerem, continuarem atônitos e impávidos perante tal calamidade. Não creio que tenha que ser o STF a tomar alguma medida, defendo mais a Câmara e o Congresso, mas a inoperância deles é de bradar aos céus.

Veja-se agora o exemplo da aprovação do orçamento de estado. Logo a partida tem um déficit de 8 bilhões de reais, mas o valor poderá facilmente chegar a mais de 40 bilhões de reais. Acredita-se que o Brasil, com este orçamento aprovado na semana passada, nos próximos meses irá parar, ou então iremos para a famosa pedalada fiscal e aí crime de responsabilidade. Das duas uma, ou a Câmara quer que o Presidente cometa pedalada para o poderem tirar ou acreditam que com aumento de impostos conseguirão resolver os problemas. Já falei muitas vezes que o Brasil precisa de uma reforma política e não administrativa. Reduzam os cargos comissionados da Presidência da República (32.000 é demais), reduzam os salários de políticos, onde já se viu um Vice- Presidente da República ganhar R$30. 934,70, um cargo vazio de poderes, só acionado quando o Presidente da República se ausenta do país. E se descermos da esfera da União, para governo, estado, município, então nos assustamos mais. E o salário-mínimo cifra-se nos R$1.045,00, abismal a diferença.

Ourinhos chegou à 154ª vítima fatal deste maldito vírus. Hoje para termos uma vaga hospitalar temos que aguardar que alguém se cure, ou então, o mais certo, alguém falecer. Estou fechado em casa cumprindo o distanciamento, saindo somente para o essencial. Não vou em lugares desnecessários. Assusta cada vez mais. Até por uma perna quebrada corremos o risco de não ter atendimento. Mas o que mais me assusta é a falta de empatia, a falta de amor pelo próximo. Continuamos assistindo a baladas, festas, praias cheias, famílias inteiras indo no mercado.

Chegamos agora num ponto de luta maior, a luta contra as fake News, que estão cada vez a aumentar. Não entendo como se consegue politizar um vírus, uma pandemia. Estou cansado de ver o número de mortos diariamente a crescer, e rezo todos os dias para que não seja um familiar ou alguém próximo. Cheguei ao meu limite, já não consigo pensar mais, é mais assustador ver gente cega e sem amor, seguindo um genocida com o seu gabinete do ódio, do que ver o número de mortos. Não sei o que passa na cabeça das pessoas que divulgam fake News, que passam a vida politizando, falando contra tudo e mais alguma coisa, que só o genocida está repleto de razão e o mundo todo está errado. Cansei de tentar mostrar as pessoas o quanto erradas elas estão, exatamente como falar para um preto não apoiar Bolsonaro porque ele é racista. Não dá, não entra no meu cérebro. Faz lembrar o Trump, ele era o certo, o mundo todo o errado. Biden tomou posse e vacina 2 milhões de pessoas por dia. Incrível. E Trump era contra a vacina, as máscaras, o distanciamento social, assim como Bolsonaro o é. Se não tivéssemos um Presidente negacionista (e o que mais me assusta são as guinadas que ele dá nos seus discursos e os 20% de seguidores acreditam e seguem loucamente, mas depois vimos alguns tomando a vacina escondidos) acredito que não teríamos tido metade destas mortes, foi desnecessário. Mas atribuo a culpa a todos os políticos, a todas as entidades com responsabilidades e poder, porque se tivesse havido querer e união, as coisas tinham acontecido de uma forma bem diferente, e hoje não estaríamos a lamentar 312 mil mortes. Se tivessem apoiado comerciantes e pessoas mais carenciados, não estaríamos fingindo que estamos com medidas de restrição e se calhar não teríamos tantas mortes. Era só ter apoiado direito as pessoas, coisa que o governo federal não fez corretamente, daí a luta entre economia e vida. Quando colocamos no prato da balança de um lado economia e do outro a vida, a sociedade capitalista e consumista faz com que o prato caia para o lado econômico, levando assim a números inimagináveis de mortes.

Pedro Saldida

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