Desse amor eu quero para sempre – Parte II

A definição de adoção no dicionário descreve como um processo ou ação judicial de aceitação espontânea de alguém como filho ou filha, respeitando as condições jurídicas necessárias. Mas adoção é bem mais que meras palavras no dicionário ou palavras proferidas ao vento. Trata-se do maior encontro de amor entre duas ou mais pessoas, trata-se de algo equivalente a ser pai biológico ou mais forte ainda. Porque a adoção vai juntar pessoas em cacos quebradas pela vida com sonhos destruídos e faz com que renasçamos, com que voltemos a amar, a sentir, a ter prazer em viver, em voltar a confiar no ser humano. Aos 7 anos de idade foi assim que me senti, quando conheci os meus pais adotivos, foi a melhor sensação do mundo. Claro que chegamos à determinada idade e temos a curiosidade de saber e de querer conhecer as nossas raízes, nos sentimos perdidos sem saber efetivamente quem somos, de onde viemos, a única coisa que sabemos é para onde caminhamos, mas o passado nos atormenta sempre. Durante muitos anos fui um pouco reticente relativamente a adotar, porque a adoção parece mais um negócio que um ato de amor. Tem adultos que, quando decidem adotar, dá a sensação de estarem a escolher um carro, uma casa ou algo que envolva uma relação monetária. A escolha normalmente tem que ver com a idade, com a cor, com o sexo, com a ausência de doenças. Mas acontece que quem dá à luz não sabe o que vai acontecer no futuro, se a criança será sempre saudável.  Depois temos as crianças inadotáveis, 98% delas que estão em abrigos, fora da faixa etária desejada, desejada por 53% dos pretendentes a pais, note-se bem neste dado, além de termos 53% de adultos exigentes, temos 98% de crianças sem amor, sem carinho, sem um lar, sem qualquer vínculo a alguém a quem possam chamar de pai ou mãe.

Acredito que muita gente esteja agora comentando olha que lindo, olha que história linda, mas pergunto por que razão quando é uma adoção homoafetiva as pessoas viram a cara, são contra, criticam?

Casais homoafetivos são pessoas como nós, têm amor como nós, têm sentimentos como nós, e acreditem, adotam as crianças que casais heterossexuais não quiseram, ou seja, estão a fazer bem mais que muitos casais heterossexuais.

Pois bem, esta vossa crônica de hoje vem tratar exatamente esse tema. A adoção por parte de um casal homoafetivo, por quem eu tenho uma estima enorme, de quem posso dizer que sou amigo e que são minhas amigas. Quando falei com elas contando a ideia de escrever sobre o tema, a resposta de uma delas foi imediata, tenho que falar com a minha esposa, mas acredito que sim, desde que sejam preservadas as nossas identidades e do menino. Claro que anuí, primeiro porque o processo é muito recente, segundo porque, conforme falamos, quando algumas pessoas lessem iriam identificar logo as personagens, mas serão poucas pessoas, a ideia não é expor, mas antes mostrar à sociedade a beleza e simplicidade de uma adoção. Terceiro porque somos grandes amigos e não iria escrever sobre elas sem a sua anuência.

Elas estão juntas há algum tempo e no começo não pensaram em adotar, até porque há uma panóplia de opções. Acontece que depois de algum tempo optaram pela adoção depois de amadurecerem a ideia. Contrariamente a muitos pretendentes a pais, elas montaram um perfil bem amplo, limitaram somente a idade, o que fez com que o processo fosse mais rápido, acabando por ser um processo bem tranquilo, seguindo os trâmites normais e legais, demorando cerca de um ano.

Quando receberam a notícia quem iam finalmente adoptar sentiram uma mistura de grande felicidade, muita emoção, com um misto de medo, já que consideraram sempre que o tempo de espera seria maior. Acontece que suas vidas não estavam preparadas naquele momento para receber o filho., como quando preparamos por 9 meses, já que pais biológicos sabem quando nasce, pais adotivos têm que pensar que a cegonha pode dar 20 voltas ao redor do mundo até chegar o filho. Ao mesmo tempo, e maior que tudo o resto, acredito que o medo de não estarem emocionalmente prontas as corroeu por dentro, as levou a lutar com todas as forças para serem fortes e saberem que ia correr tudo bem.

A preparação delas, como de qualquer outro casal, passa por um processo de curso preparatório, bem como um curso no fórum acerca dos caminhos da adoção. Mas como foi um desejo delas, conversaram muito sobre o assunto, procuraram histórias parecidas, leram muito e assistiram muitos vídeos relacionados com a adoção.

A nível de forma de olhar pela sociedade ainda não podem dar uma opinião já que a pandemia não tem permitido que saiam muito, por ora o contato delas e do filho é feito somente com a família e amigos. Nesse seio o tratamento dado a todos é com muito amor e muita admiração por terem uma força enorme para adotarem uma criança.

Desde o dia em que o filho entrou na casa delas a vida a 3 lhes trouxe uma sensação de que a família está completa e têm uma motivação a mais para fazer com que tudo dê certo enquanto família.

Ao contar esta história para vocês queria mostrar à sociedade, dita conservadora, mas que abandona seus filhos, os maltrata, que depois vem um casal homo e adota, que também têm capacidade para ser pais, para amar, para dar um lar, para cuidar, para educar. E está na hora da sociedade achar que um casal homo vai criar uma criança para ela também ser homo, nada disso, aliás tem mais adultos homo fruto de pais hetero, só ver direito e não querer inventar desculpas. Aliás casais homo adotam mais que casais hetero. Ainda bem que existem casais homo, olhem quantas crianças aguardando um lar. A procura e oferta de amor transcende o DNA, o sangue, as raízes. Quando um casal adota e proporciona o melhor a uma criança, e acreditem que o melhor não são somente bens materiais, mas são afetos, beijos, carinho, amor, sensações que uma criança num lar sente falta. Não estou com isto dizendo que as crianças são maltratadas em lares, estou dizendo que quatro paredes nossas, uma cama nossa, adultos a quem possamos chamar pais são a melhor sensação do mundo para quem nada tem. A adoção, além de colmatar a vida dos adultos, acredito que vem encher muito mais a vida das crianças.

Não consigo escrever muito mais porque, quem sabe fruto desta pandemia, está sendo difícil escrever este texto. Há muitos anos que deixei de ter dificuldade de falar de adoção, mas agora não foi fácil mostra-vos estes meus pontos de vista. Mas acredito profundamente que no núcleo terrestre, que se encontra a uma profundidade que vai de 5.100 Km até 6.370 Km., dividido em núcleo externo e núcleo interno, sendo o centro da terra sólido acredito que Deus escreveu lá em letras garrafais a palavra AMOR, sentimento em falta na superfície terrestre.

Termino como vocês já sabem, como costume, com frase de Rubem Alves: ” Amar é ter um pássaro pousado no dedo. Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que, a qualquer momento, ele pode voar.”

Pedro Saldida

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