Da passividade não teremos o amanhã

Não é tão simples entender nossa passividade, se a gente entendesse com um pouco mais de profundidade, talvez, já teríamos mais condições de agir contra ela.
Podemos começar refletindo que a passividade não é central para a formação humana. Constituímos todas as nossas caraterísticas em atividade, formamos nosso pensamento, nossas emoções, nossa atenção, com outras pessoas em atividades que exigem de nós o exercício dessas funções. O contrário também é verdadeiro.
A passividade parece, então, mais uma condição de desumanização, ainda assim, também construída por meio de certa atividade, a qual suscita seu contrário: a passividade. É de dar nó na cabeça, nosso trabalho de todos os dias nos ensina a passividade de muitas formas.
Primeiro, e como raiz mais profunda, não escolhemos individualmente, mas herdamos historicamente o trabalho alienado. Essa alienação é tão eficiente que não conseguimos perceber de modo imediato que o dinheiro é uma expressão da mercadoria que produzimos, o dinheiro é materialmente criado pela força física e intelectual dos trabalhadores e trabalhadoras. Não é invenção dos bancos nem da Casa da Moeda. O dinheiro esconde que tudo, absolutamente tudo que existe na sociedade e em nós mesmos é fruto da nossa ação coletiva.
Se não sabemos que tudo na vida social é criado pelo nosso trabalho, acreditamos que é criado, então, por forças alheias às nossas, inclusive pelo próprio dinheiro, colocando-nos em situação de passividade.
No cotidiano, fora do trabalho principal, em nossas casas e outros grupos que frequentamos, a passividade é exigida de nós, até nas formas de diversão, como bem ensina o conceito de indústria cultural. A alienação do trabalho é estendida ao cotidiano, a burocracia que permeia nossas relações existe para isso, para engessar nossas ações. Por isso o cotidiano suga tanto nossas forças. Por isso, muitas vezes, todo nosso empenho em ser ativas é consumido para a própria sobrevivência e de quem cuidamos.
A ciência também contribui para a passividade, desde a Guerra fria estamos sendo convencidas que as lutas coletivas são estratégias ultrapassadas, que o importante mesmo e o frutífero é o individual, o cotidiano, o efêmero, o espontâneo e a experiência subjetiva. São importantes e frutíferos, mas insuficientes para enfrentar o projeto do capital para cada um de nós.
Projeto que já está em cena, ganhou até Oscar, vide Nomadland. O bolsonarismo é apenas o começo da destruição das nossas condições de vida. Precisamos urgentemente encarar de mãos dadas: a vida está ruim, está péssima e a tendência é piorar se não agirmos imediatamente, agora.
Eu gostaria muito de dizer o oposto, de ter condições de seguir acreditando que minhas ações como educadora, minhas relações de amizade ou familiares, atuação em rede social, dariam conta do problema que temos para enfrentar. Mas a realidade objetiva é maior do que meus desejos.
Está insuportável continuarmos na passividade de fingirmos normalidade.
Precisamos romper a passividade com uma força maior que a individual: a força da nossa classe trabalhadora. Força que já desenvolvemos historicamente e que nos garantiu as mínimas condições de sobrevivência até aqui (direitos trabalhistas e liberdades democráticas, por exemplo).
Lula não vai nos salvar, ele não pode porque é um político só, por mais bem intencionado que esteja. A nossa salvação está na ação organizada da nossa classe, o resto, nesse momento, é ilusão e cilada.
Já temos vacinas para não morrermos de covid, já temos condições para ninguém mais no mundo passar fome, já temos pedagogia desenvolvida para ninguém mais ser analfabeto funcional, já temos países que derrotaram o capitalismo.
É urgente e não será destaque do Google: precisamos usar nossa força de classe para garantirmos nossas vidas e nosso futuro.

Juliana Neves

Escrevo com a intenção de mudar o mundo ofertando a verdade para a sociedade. Mas a luta é diária e constante, realmente, vivendo e aprendendo e tendo o jornalismo como meu aliado.