Para hoje e para amanhã: feminismo classista

Sem o feminismo classista o ser humano não anda ereto. É absolutamente necessário o feminismo classista compor a visão de mundo de todas as pessoas, sem ele não há humanização.
O patriarcado é um legado histórico, que não é escolhido individualmente, anterior ao capitalismo, com origens na Antiguidade, que coloca o homem como centro da organização social e dono da propriedade privada, inclusive da mulher. O capitalismo, na sua condição de exploração do trabalho, apropria-se do patriarcado para, a partir dele, baratear o valor da mercadoria. Essencialmente essa é a função do patriarcado no capitalismo: explorar a força de trabalho da mulher, sendo ela mesma uma mercadoria mais em conta, para a produção barata de mercadoria e a consequente ampliação do capital. Além do que, no patriarcado ocorre a naturalização do trabalho gratuito feminino, considerando o homem como possuidor legítimo da propriedade privada e da própria mulher.
Não há novidades, nesse modo de produção a classe trabalhadora é reduzida a mercadoria barata, exposta, além de tudo, a tantas mortes, como estamos exaustas de ver nesse contexto de pandemia. No caso das mulheres, mais barata ainda e, muitas vezes, de graça, como no trabalho doméstico e educação das crianças. Essa é a raiz da desvalorização social das mulheres na nossa sociedade. A raiz do apagamento histórico da atividade das mulheres nas ciências, nas artes, na filosofia e nas lutas sociais. É a raiz da opressão e da maior das violências que nos atinge, a violência doméstica. Além de trabalharmos mais, quem nos mata são nossos companheiros, homens que somos ensinadas a amar.
O patriarcado não é escolha individual, é um sistema de relações sociais privilegiando o homem em todas as esferas da vida, estética, ética, política e no cotidiano também. Psicologicamente falando, as entranhas humanas são feitas também de patriarcado, os pensamentos, os sentimentos, os motivos e as condutas. Porque o patriarcado está na estrutura social, além da cultura que forma cada um dos indivíduos, é compulsório, e precisa ser vencido, superado junto com o capitalismo.
Individualmente, se não há ação de forma deliberada para combatê-lo, a tendência é a reprodução do machismo em todos os espaços ou relações, porque antes de ser conteúdo e lógica de funcionamento psíquico, ele está nos instrumentos da cultura e na lógica de funcionamento das instituições, garantindo a formação de consciências necessárias para manutenção dessa sociedade.
Tive a oportunidade de perguntar para uma professora de psicologia:
– Você não acha que a violência contra a mulher pode aumentar com o Bolsonaro presidente?
– Não. O que ele pode fazer? Não vai aprovar leis que permitam que as mulheres apanhem. Melhor que o PT.
Em tempos de bolsonarismo, as mulheres sofrem mais violência, já antevíamos isso, a atuação desse governo para devastar as políticas públicas e os direitos trabalhistas piora ainda mais a condição de vida, sobretudo das mulheres trabalhadoras, bem como, o discurso do presidente, abertamente misógino, legitima a inferiorização e desumanização do feminino.
Sem o feminismo classista não venceremos qualquer violência.
É preciso ação, contando com o feminismo classista, para os homens não baterem em suas companheiras, não culparem as mulheres pelos estupros que cometem, não se acharem superiores em qualquer situação que compartilhem conosco. Precisamos do feminismo classista para entendermos os mecanismos da violência que nos dilacera a carne e a alma todos os dias. Para andar sem medo na rua, precisamos do feminismo classista, para não executar sozinha, ou maior parte dele, todo trabalho doméstico, para melhorarmos a relação com nosso corpo, para estudarmos, para acessarmos o lazer, para criarmos crianças humanizadas e para o novo amanhã.
Caiu o professor de direito burguês que culpa mulheres pelo estupro que são vítimas, parabéns à pressão popular! Caiu o deputado assediador. Seguiremos fortes e atentas, vendo nossa luta crescer e construindo caminhos para derrubar também o que os sustenta: o patriarcado e o capitalismo. Sem o feminismo classista não há dignidade humana.

Juliana Neves

Escrevo com a intenção de mudar o mundo ofertando a verdade para a sociedade. Mas a luta é diária e constante, realmente, vivendo e aprendendo e tendo o jornalismo como meu aliado.

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