Sobrecarga, coação e precarização, o “legado” de Feder Multilaser na Educação do Paraná

Dono da Multilaser, Renato Feder, tentou aplicar lógica empresarial na Educação do Paraná e de São Paulo – Foto: Reprodução/Governo Paraná
Feder trata a Educação com uma mercadoria que pode ser valorada e vendida, critica a presidente do sindicato dos professores do Paraná, Walkiria Mazeto

As pretensas “novidades” adotadas em escolas públicas estaduais do Paraná durante a gestão de Renato Feder à frente da Secretaria de Educação, não refletem na melhoria da qualidade da educação e estão, na prática, sendo usadas como mecanismo de pressão descabida para cumprimento de metas, sobrecarregando os professores e afetando a sua saúde.

Segundo a Associação do Professores Estaduais do Paraná (APP-Sindicato), 91% dos professores sentem sobrecarga de trabalho após as mudanças realizadas por Feder, que esteve à frente da Educação do Paraná de 2019 a 2022, quando deixou o cargo para ocupar a mesma pasta no governo Tarcísio de Freitas (Republicanos), em São Paulo.

As medidas adotadas por Feder e Tarcísio em São Paulo, como o corte de R$ 9 bilhões no orçamento da Educação, a saída descabida do Estado do Programa Nacional de Livros Didáticos e a invasão de celulares de professores e estudantes por meio de um aplicativo instalado sem a necessidade de autorização prévia dos usuários, foram alvos do ato realizado pelas entidades estudantis UMES-SP, UPES, UBES e UNE no Dia do Estudante, na última sexta. Mais de 5 mil pessoas participaram do ato que se dirigiu à Secretaria de Educação de São Paulo, na Praça da República.

Estudantes de São Paulo protestam contra a proibição aos livros didáticos pela gestão Tarcísio – Foto: César Ogata/UMES

De acordo com a APP-Sindicato, “apenas 16,9% dos (as) professores (as) da rede estadual do Paraná afirmam que as plataformas tecnológicas utilizadas em sala de aula melhoraram a aprendizagem dos (as) estudantes”. Os dados são de uma pesquisa inédita realizada pelo instituto IPO a pedido do sindicato.

Segundo a entidade, dos 300 professores entrevistados no levantamento realizado entre 28 de junho e 7 de julho de 2023, 73% dizem se sentir pressionados a usar as ferramentas digitais e 35,7% revelam que está havendo assédio moral e abuso de autoridade por parte das chefias.

“O uso das plataformas digitais é uma tendência no governo Ratinho desde a passagem de Renato Feder, pela secretaria. Hoje, o ex-secretário está aplicando o mesmo processo de digitalização, ainda mais radicalizado, em São Paulo”, critica a entidade.

“Para que os professores pudessem usar isso (ferramentas), – uma vez que elas têm pouca aplicação prática ou pouco resultado na aprendizagem dos estudantes – ele passou a obrigar o uso e vinculou isso a uma meta que cada escola tem de utilização”, explica Walkiria Mazeto, presidente da APP-Sindicato.

“Essa meta também está vinculada a avaliação das direções de escolas e ele (Feder) alterou a legislação aqui no estado podendo destituir – tirar um diretor eleito a partir do não cumprimento de metas”, continua a dirigente sindical. “Então, parte da secretaria de estado da educação e núcleos regionais de educação hoje vivem em torno de monitorar e cobrar das escolas o cumprimento de meta de interação nesses aplicativos e plataformas”, denuncia Walkiria.

Diante disso, as escolas estão tendo que prescindir de avaliação da aprendizagem do aluno para “cumprir metas de uso de aplicativos e de plataformas que têm se transformado em propaganda”, diz ela. “[..] A escola hoje tem alterado essa centralidade de olhar a aprendizagem do estudante exatamente para ter uma escola organizada a cumprir metas de interação e de uso dessas aplicativos e plataformas que têm se transformado em propaganda”, critica.

“A secretaria de Estado atribui, assim como o ex-secretário Renato Feder também atribuiu ao modelo implantado, o sucesso da Educação. Aqui hoje o lema é um: ‘educação de resultados’, mas esses resultados são demonstrados através do número de acessos a esses aplicativos ou a essas plataformas e menos à real aprendizagem dos estudantes”, reitera.

Essa postura, de espionar professores e cobrar resultados que destoam da legislação e dos princípios que regem a educação, ferindo a liberdade de cátedra, também começam a se manifestar em São Paulo. Por meio de uma portaria que está sendo amplamente criticada, o governo bolsonarista de Tarcísio de Freitas pretende colocar diretores de escolas para patrulhar o conteúdo apresentado por professores.

Este falso aferimento de resultados ”tem levado os professores e os profissionais da educação a um esgotamento na cobrança e a uma frustração em avaliar que, a obrigatoriedade do uso não resulta, necessariamente, em aprendizagem ou melhoria na aprendizagem dos estudantes”, critica a presidente da APP.

Presidente do sindicato dos professores do Paraná, Walkiria Mazeto – Foto: ALEP

TELEAULAS

Os rastros dos estragos na educação no Paraná deixados por Feder não se resumem só as parafernálias digitais, que por si só representam um profundo ataque ao setor. Durante sua passagem pela secretaria, ele também implantou o projeto das teleaulas, dispensando inclusive a presença do professor.

A medida, iniciada durante a pandemia em 2020, enfrentou a resistência de pais e alunos e não prosperou, segundo a APP. Apenas duas escolas da rede mantém o formato atualmente. Embora tenha minguado, a gambiarra do secretário privatista drenou 38,4 milhões dos cofres públicos paranaenses que foram engordar as contas da Unicesumar, uma instituição privada de Maringá.

Neste modelo, as escolas recebem uma TV e a Unicesumar contrata monitores com formação de Ensino Médio para mediar “a tecnologia”, que consiste na transmissão de aulas síncronas por professores (as) da empresa.

“Além da erradicação progressiva de carga horária disponível para os (as) professores(as), há muitos problemas do ponto de vista pedagógico”, apontou na ocasião Vanda Bandeira Santana, secretária Educacional da APP. “Se é pela televisão, como haverá interação? Será possível tirar dúvidas? Se o aluno falta, como tem acesso ao conteúdo? Como serão as avaliações?”, questionou.

“Renato Feder trouxe para Secretaria de Educação o modelo de gestão empresarial, e isso não é só a forma de organizar a secretaria. É ter a perspectiva da educação como uma mercadoria que pode ser valorada e vendida. Ou seja, como o mercado pode se apropriar dos recursos da educação”, analisa Walkiria Mazeto.

MULTILASER

Encher as próprias burras e as do mercado com recursos públicos é outro “atributo” do secretário de Tarcísio. A Multilaser, da qual Feder detém 28,16% das ações através de outra empresa com sede em um paraíso fiscal, a Dragon Gem LLC, fechou pelo menos três contratos com o governo do Estado enquanto ele já ocupava o cargo. A informação foi divulgada pelo jornal ‘O Estado de São Paulo’.

Feder também foi responsável pela implantação das escolas Cívico-Militares no Paraná, iniciativa aprovadas por decreto no governo de Jair Bolsonaro e revogada por outro decreto pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Das 2.109 escolas estaduais paranaenses, 194 são Cívico-Militares via PM e 12 via Forças Armadas.

A proposta pedagógica desse formato de escola não se respalda pela transparência, mas sim na intervenção de policiais, sem qualquer tipo de treinamento, na gestão escolar. Denúncias de abuso e agressões por policiais de estudantes passaram a ser registradas em escolas do Estado.

O “interventor” conta ainda com um salário até três vezes maior que o praticado com diretores das escolas, mas não possui qualquer tarefa definida. Apenas o patrulhamento ideológico sendo aplicado nas instituições de ensino paranaenses.

Além disso, especialistas afirmam que o modelo é excludente (não abrange todas as escolas), não produz resultados comprovados uma vez que faltam estudos e dados e custa caro ao Estado. No ano passado, o programa consumiu R$ 64 milhões e atendeu o equivalente a 0,1% das escolas do país.

Feder, o maníaco das telas e do fetiche privatista, em um livro publicado em 2017, “Carregando o Elefante – Como Transformar o Brasil no País Mais Rico do Mundo” -, do qual é coautor, defendeu a extinção do MEC e a privatização total do ensino. Com todos esses “predicativos”, foi rejeitado até pelos discípulos de Olavo de Carvalho quando cotado por Bolsonaro para assumir como ministro da Educação em 2020. O esperneio de olavistas e olavetes, que o relacionaram ao Centrão, forçou o “mito” a recuar.

 

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