A vida do pobre universitário

Por Letícia Neri

Você passa no vestibular e depois descobre que essa não é a parte mais difícil, agora você precisa arrumar um teto, você não tem dinheiro para isso. Então descobre de um sistema de permanência estudantil, consegue atender aos pré-requisitos de vulnerabilidade social, mas você precisa juntar muitos documentos, mostrar a renda da família e tudo mais. Então te dão teto (quando dão) e uns tantos que eles acham que vão conseguir suprir suas necessidades, você não se vê no direito de reclamar, até porque é excepcional o seu caso – eles dizem -, entretanto começa a ter que lidar com a pobreza, os preços subindo, o auxílio que nunca é suficiente, as bolsas que sempre tem só uma vaga e você nunca consegue, é que pra conseguir, no horário oposto da aula você deveria estar estudando ao invés de estar fazendo bico… Bom, não é isso que ocorre, você só se frustra, não se sente bom o suficiente, aí você arruma atendimento psicológico e acha que isso vai resolver toda sua vida, que agora com a mente curada vai conseguir estudar em paz.
Acontece que, nessa história da educação e em muitas outras o pobre nunca teve paz, a cabeça fica tão pesada que nem sai do lugar, as provas, a mãe que ficou na cidade com os irmãos, o preço das coisas no mercado, o amigo que não tá conseguindo jantar…
Mas tem pobres que conseguem lidar com tudo isso, um em um milhão, e é esse que vai sair na primeira página do jornal dizendo que venceu todas as dificuldades de estudar e que agora é “alguém” na vida.
Como se não bastasse, fazem você pensar que o seu sucesso só depende de você, que a carência das políticas públicas não tem nada a ver com isso, e que a universidade é uma heroína por estar te “dando” o mínimo para não morrer de fome.

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