Dois gigantes: Aldir Blanc e João Cândido (Almirante Negro)

Por Jefferson Correia Lima

Infelizmente, hoje, nos deixou o grande compositor Aldir Blanc. Sua morte decorreu da infecção causada pela Covid-19, classificada pelo locupletador da democracia brasileira como “gripezinha”.
Parceiro inseparável de João Bosco, Aldir Blanc compôs a canção “O bêbado e a equilibrista”, imortalizada na voz de Elis Regina e tornando-se o hino da anistia e da abertura política durante a Ditadura Militar.
“Caía a tarde feito um viaduto”, verso em metáfora no prelúdio da canção, remetia a um viaduto que literalmente ruiu em razão da utilização de materiais inapropriados à obra, denúncia subliminar da errante e indisfarçável corrupção praticada durante a Ditadura Militar.
É… a arte é esplendorosa, antes de tudo, por ser transgressora. O trecho da canção acossou os homens de coturnos, que já não podiam cessar o resplandecer dos ventos de mudança.
Todavia, este que vos escreve, sem pretender ser um herege musical, tem como canção preferida da parceria, “Mestre Sala dos Mares”.
Composta em homenagem a João Candido – O Almirante Negro -, o marinheiro que liderou a Revolta da Chibata, ocorrida em 1910.
No início do século XX, a Marinha do Brasil, submetia seus marujos, em sua imensa maioria pretos e pardos, a castigos corporais como punição as transgressões às regras militares.
Os marinheiros revoltosos amotinaram-se no encouraçado Minas Gerais. Apontaram seus canhões em direção à sede do Governo Federal, à época no Rio de Janeiro, e exigiram a abolição das chibatadas.
No primeiro momento, o Governo cedeu, porém, após, em ato de traição, revogou a anistia anteriormente concedida e perseguiu os revoltosos.
João Cândido, expulso da Marinha, faleceu na miséria.
Mestre-Sala dos Mares, composta por Aldir Blanc e João Bosco durante a Ditadura Militar, resgatou a célebre Revolta da Chibata. Censurada, uma das exigências dos censores da Ditadura, foi substituir “Almirante Negro”, por “navegante negro”. Remontar a história do “Almirante Negro” era demasiadamente desafiadora ao autoritarismo e racismo presentes nas forças armadas.
A Revolta da Chibata sempre foi negada pela historiografia oficial, mas relembrada, resgatada e imortalizada em Mestre-Sala dos Mares.
Aldir Blanc e João Cândido merecem mais do Brasil, pelo que fizeram pelo Brasil.
Segue a letra abaixo:

Mestre Sala dos Mares

Há  muito tempo nas guias da Guanabara
O drago do mar reapareceu
Na figura de um bravo feiticeiro
A quem a história não  esqueceu
Conhecido como o navegante negro
Tinha a dignidade de um mestre-sala
E ao acenar pelo mar na alegria das regatas
Foi saudado no porto
Pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas
Rubras cascatas
Jorravam das costas dos santos
Entre cantos e chibatas
Inundando o coração ao do pessoal do porão
Que a exemplo do feiticeiro gritava então
Glória aos piratas, as mulatas, as sereias
Glória farofa, cachaça,  baleias
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Nao esquecemos jamais
Salve o navegante negro
Que tem por monumento as pedras pisadas do cais
Fonte: LyricFind
Compositores: Aldir Blanc Mendes / João Bosco de Freitas Mucci